Jornal O Globo
Celebrado em 16 de abril, o Dia Mundial da Voz amplia o olhar sobre um instrumento essencial da comunicação e ainda subestimado no cotidiano. Histórias de artistas conhecidos ajudam a dimensionar o problema ao revelar como alterações vocais podem interromper agendas, comprometer performances e exigir intervenções médicas, trazendo visibilidade a um tema que vai muito além dos palcos. Veja: Como celebridades impulsionam a nova estética da naturalidade na beleza contemporânea De bioestimuladores à harmonização glútea: por que famosas investem cada vez mais no bumbum Casos internacionais ilustram esse cenário. Cantores já precisaram pausar turnês, passar por cirurgias ou enfrentar երկարos períodos de reabilitação após lesões nas pregas vocais. No Brasil, relatos semelhantes se repetem entre nomes que lidam com rotinas intensas de apresentações e gravações, marcadas por episódios de rouquidão, inflamações e afastamentos temporários, muitas vezes associados ao uso contínuo da voz e à falta de descanso adequado. Embora ganhem notoriedade quando atingem figuras públicas, esses quadros não se restringem a quem vive da performance vocal. Alterações na voz podem ter diferentes origens, que incluem desde hábitos cotidianos até fatores emocionais, infecciosos e inflamatórios. Sintomas persistentes na região da garganta, frequentemente tratados como passageiros, podem indicar condições que exigem avaliação clínica. Entre os quadros recorrentes estão as infecções de repetição, como amigdalites frequentes. Segundo a médica Renata Mori, esses episódios não devem ser vistos de forma isolada. "As amigdalites de repetição não devem ser encaradas como eventos pontuais. Na prática, o que observamos é um comprometimento da função imunológica local das amígdalas, um tecido que já não desempenha adequadamente seu papel de defesa", explica. A especialista acrescenta que fatores como respiração bucal, alergias e alterações da flora da via aérea superior podem contribuir para esse quadro. "A conduta deve ser individualizada, considerando a frequência, a gravidade e o impacto clínico de cada caso", afirma. A atenção à garganta também passa pela conscientização sobre doenças mais graves, como os tumores de cabeça e pescoço. Os sinais iniciais costumam ser inespecíficos e, por isso, muitas vezes negligenciados. Feridas que não cicatrizam, dor persistente, dificuldade para engolir e mudanças na voz estão entre os sintomas que merecem investigação, sobretudo quando se prolongam. A cirurgiã de cabeça e pescoço Débora Vianna reforça a importância de observar a duração desses sinais. "Os tumores costumam apresentar manifestações iniciais, mas elas são frequentemente ignoradas. Sintomas que persistem por mais de 15 dias precisam ser avaliados", destaca. Entre os principais fatores de risco, ela aponta hábitos conhecidos. "O tabagismo e o consumo excessivo de álcool continuam sendo os maiores vilões. Quando combinados, potencializam significativamente o risco", diz. Nos últimos anos, outro fator tem ganhado relevância: a associação entre o HPV e tumores de garganta, especialmente em pacientes mais jovens. "O HPV tem sido cada vez mais relacionado a esses tumores. A vacinação é uma ferramenta importante de prevenção, assim como a adoção de práticas sexuais seguras", acrescenta a especialista. O acompanhamento odontológico regular também desempenha papel importante na detecção precoce de alterações na cavidade oral. "O dentista pode identificar lesões suspeitas em estágios iniciais, o que amplia as chances de tratamento", observa. Já a rouquidão persistente, muitas vezes banalizada, é um sinal que exige atenção. "Rouquidão por mais de duas semanas deve ser investigada, pois pode indicar desde inflamações até lesões mais sérias na laringe", alerta. A prevenção envolve, em grande parte, hábitos cotidianos. A hidratação adequada é apontada como um dos pilares para a saúde vocal. "A ingestão de água é fundamental para manter a mucosa das pregas vocais saudável", orienta a nutricionista Laita Balbio. Segundo ela, uma alimentação equilibrada, rica em frutas e vegetais, também contribui para o bom funcionamento do organismo e impacta diretamente a qualidade da voz. O uso da voz também exige consciência. Falar em excesso, elevar o tom com frequência ou ignorar sinais de cansaço pode levar a lesões. "O uso excessivo da voz, sem preparo ou técnica adequada, pode favorecer o surgimento de nódulos e pólipos", esclarece a otorrinolaringologista Renata Jorge. Ela destaca ainda a importância do descanso vocal: "O repouso permite que as estruturas da laringe se recuperem e evita sobrecarga." Além dos aspectos físicos, fatores emocionais interferem diretamente na produção vocal. Situações de estresse e ansiedade podem alterar o padrão respiratório e aumentar a tensão na região da garganta. "A respiração se torna mais curta e a musculatura fica mais tensionada, o que impacta a voz, que pode soar presa, trêmula ou mais fraca", detalha a terapeuta Glaucia Santana. Outra condição frequentemente associada a alterações vocais é o refluxo gastroesofágico, uma das causas mais comuns de rouquidão crônica. "O retorno do conteúdo do estômago pode atingir a laringe e provocar sintomas como rouquidão, pigarro e tosse seca. Sem tratamento, essa irritação pode comprometer a saúde vocal", completa a gastroenterologista Elaine Moreira. Ao reunir diferentes fatores — da rotina intensa aos hábitos diários e às condições clínicas —, o debate em torno da saúde vocal reforça a importância de observar sinais persistentes e buscar avaliação especializada. Mais do que preservar a qualidade da voz, esse cuidado pode ser determinante para o diagnóstico precoce de alterações e para a manutenção da saúde como um todo.
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