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Fintech comandada por chineses movimentou bilhões no exterior em esquema envolvendo MC Ryan e Poze do Rodo | Collector
Fintech comandada por chineses movimentou bilhões no exterior em esquema envolvendo MC Ryan e Poze do Rodo
Jornal O Globo

Fintech comandada por chineses movimentou bilhões no exterior em esquema envolvendo MC Ryan e Poze do Rodo

A engrenagem de lavagem de dinheiro supostamente capitaneada pelo cantor MC Ryan SP dependia de um motor financeiro sofisticado: uma instituição de pagamentos administrada por cidadãos estrangeiros, da China. Documentos da Polícia Federal revelam que uma fintech atuava como o coração do esquema, concentrando os lucros de plataformas clandestinas de apostas e viabilizando a evasão de divisas. O volume transacionado por toda a organização, investigada na esteira de operações contra o tráfico internacional de drogas, teria ultrapassado o patamar de R$ 260 bilhões. As apurações que embasam a decisão do juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos, colocam a empresa Golden Cat Processamento de Pagamento Ltda no topo dessa pirâmide de ocultação patrimonial. Longe de ser um negócio de fachada comum, a firma funcionava como um verdadeiro "eixo central" de arrecadação. Sua principal função era recolher o capital pulverizado pelos apostadores do varejo e processar as centenas de milhões de reais que retroalimentavam o crime. O domínio sobre a infraestrutura dessa grande processadora ficava nas mãos de um núcleo chinês. As quebras de sigilo mostraram que Xizhangpeng Hao é o atual controlador das operações da Golden Cat, ocupando a posição que antes pertencia ao antigo administrador, Sun Chunyang. Juntos, eles orquestraram a cadeia capaz de receber o dinheiro ilícito e distribuí-lo para dificultar o rastreio. MC Ryan SP e MC Poze do Rodo Reprodução/Redes sociais A dinâmica de lavagem do dinheiro envolvia a transferência de valores vultosos para "laranjas" e empresas associadas à estrutura criminosa. Um dos destinos expostos pelas investigações foi a conta de Letícia Feller Pereira, alvo da operação que se beneficiou com repasses multimilionários feitos diretamente pela fintech asiática. A ponte para o exterior O ciclo financeiro da organização, contudo, não terminava em território nacional. Para assegurar que o capital chegasse aos verdadeiros donos das bancas fora do Brasil, entrava em cena a figura de Jiawei Lin. Segundo a PF, ele era a engrenagem fundamental da evasão de divisas. Lin constava como o destinatário final das remessas feitas pelas intermediadoras, operando a conexão direta com os proprietários estrangeiros que comandavam as plataformas de jogos de azar. Ou seja, segundo as investigações, MC Ryan e o grupo de chineses integrariam diferentes etapas do mesmo ciclo de lavagem de capitais: a rede de Ryan atua na captação de recursos e na ocultação do dinheiro no Brasil, enquanto a estrutura corporativa gerida pelos chineses processa esse volume gigantesco de capital para garantir a sua circulação, distanciamento da origem e envio internacional. Diante do risco de destruição de provas e dissipação do patrimônio bilionário, a Justiça Federal adotou medidas contundentes para desarticular as operações do núcleo estrangeiro. Foi decretada a prisão temporária, pelo período de 30 dias, de Xizhangpeng Hao, Sun Chunyang e Jiawei Lin. Para paralisar as atividades, o magistrado também determinou o sequestro imediato dos bens de todos os envolvidos, incluindo imóveis, veículos de luxo e saldos bancários. Além disso, foram bloqueadas contas mantidas em grandes corretoras de cripto ativos como Binance, Mercado Bitcoin e Foxbit, tanto em nome dos três investigados quanto no CNPJ da Golden Cat, congelando as fortunas digitais do grupo. Principais alvos De acordo com a investigação, Ryan foi identificado como "líder e beneficiário econômico da engrenagem" enquanto MC Poze, que também foi alvo de um mandado de prisão preventiva, assim como outros investigados, aparecem vinculados a empresas e estruturas financeiras relacionadas à circulação de recursos oriundos de rifas digitais e apostas. Já o dono da página "Choquei", atuava como operador de mídia da organização, "recebendo altos valores diretamente [...] Sua função consiste, em tese, na divulgação de conteúdos favoráveis ao artista e na promoção de plataformas de apostas e rifas, além de potencialmente atuar na mitigação de crises de imagem relacionadas às investigações". Mais de 200 policiais federais cumprem 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, expedidos pela 5ª Vara Federal de Santos, dos quais 33 foram cumpridos. As diligências ocorrem em endereços nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal. Durante o cumprimento das ordens judiciais, foram apreendidos veículos, valores em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos que devem subsidiar o aprofundamento das investigações, além de um fuzil. Os envolvidos poderão responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Em nota, a defesa do MC Poze do Rodo afirmou que "desconhece os autos ou teor do mandado de prisão", e que "com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário". Já os advogados da GR6, do empresário Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, que também foi alvo de um mandado de prisão, diz que os valores e transações financeiras mencionados referem-se a "relações comerciais lícitas e regulares, inerentes à atividade empresarial da companhia, todas devidamente formalizadas e respaldadas por contratos e documentação fiscal". "A GR6 e seu sócio reiteram que não houve a prática de qualquer ato ilícito e seguem à disposição das autoridades competentes, colaborando integralmente com a investigação e prestando os esclarecimentos necessários", escreveram. A Operação Narco Fluxo é um desdobramento da "Operação Narcobet" (do final de 2025) e da "Operação Narcovela" (de abril de 2025). Tudo começou, segundo as autoridades, com uma apreensão de drogas em um veleiro ainda em 2023.

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