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Economia do autocuidado
Jornal O Globo

Economia do autocuidado

Entre contas fixas e despesas variáveis, uma nova categoria ganha espaço no orçamento de jovens adultos. Antes associado a estilo de vida ou consumo, o autocuidado começa a ser reorganizado dentro do orçamento doméstico como parte de uma estratégia de longo prazo. A mudança acompanha uma percepção mais concreta sobre envelhecimento e qualidade de vida. Se antes a passagem do tempo era tratada como um momento distante, hoje passa a ser incorporada mais cedo nas decisões cotidianas. Nesse contexto, o autocuidado deixa de ser pontual e passa a ocupar um lugar estruturado na gestão financeira. Para Roberta França, geriatra com foco em longevidade consciente e saúde mental, esse deslocamento tem relação com a forma como o amadurecimento vem sendo compreendido. — O envelhecimento é um processo de vida que deveria ser discutido desde cedo. As escolhas feitas ao longo do tempo impactam diretamente a autonomia lá na frente — afirma. Segundo ela, algumas comorbidades não surgem de forma abrupta depois dos 60 anos. São resultado de hábitos acumulados ao longo de décadas. — Alimentação, sono, atividade física e saúde mental são construções contínuas. Não ficamos doentes aos 70 anos. O processo começa aos 30 ou até antes — diz. Roberta França, geriatra Arquivo pessoal O envelhecimento é um processo de vida que deveria ser discutido desde cedo. As escolhas feitas ao longo do tempo impactam diretamente a autonomia lá na frente” Essa leitura ajuda a explicar por que gastos com prevenção começam a ser incorporados no orçamento. Ainda assim, do ponto de vista financeiro, a classificação dessas despesas exige cuidado. — Investimento é aquilo que você faz esperando retorno financeiro. Academia, terapia e alimentação são despesas essenciais que, sim, farão você economizar no futuro — afirma o consultor financeiro Leandro Benincá. Na prática, a diferença é menos semântica do que operacional. Classificadas como gastos essenciais, essas despesas passam a ter o mesmo nível de prioridade que contas fixas, como energia ou alimentação básica. — Quando você coloca isso no orçamento como custo fixo, tira da categoria do supérfluo. Não é mais o que sobra do mês, é parte da estrutura — comenta o especialista. A reorganização também responde a um desafio comportamental. Segundo Leandro, o cérebro humano tende a priorizar recompensas imediatas, o que dificulta decisões voltadas ao longo prazo. — Pensar no futuro é antinatural. Por isso, precisamos criar mecanismos que facilitem esse processo, como automatizar gastos essenciais e investimentos — afirma. O movimento ganha força em um cenário em que a expectativa de vida aumenta e a convivência com pessoas mais velhas se torna mais comum. — Estar perto de pessoas de 80, 90 anos faz com que o envelhecimento deixe de ser abstrato— conta a geriatra. Leandro Benincá, consultor financeiro Arquivo pessoal Investimento é aquilo que você faz esperando retorno financeiro. Academia, terapia e alimentação são despesas essenciais que, sim, farão você economizar no futuro” Desafio não é só financeiro A incorporação do autocuidado no orçamento não elimina tensões. A mesma geração que demonstra maior consciência sobre saúde é também mais ansiosa e exposta a estímulos constantes. Excesso de informação e dificuldade de lidar com emoções podem comprometer a consistência desses hábitos. Nesse contexto, o desafio deixa de ser apenas financeiro e passa a envolver comportamento. Manter regularidade em práticas como atividade física, sono e alimentação equilibrada exige mais estrutura ao longo do tempo. Para Leandro, a chave está em reduzir o espaço para escolhas impulsivas. — Precisamos parar de tentar fazer sobrar dinheiro no fim do mês. O ideal é definir antes o que é essencial e automatizar isso. O que sobra, aí sim, vira espaço para decisões mais imediatas — ensina. A lógica, segundo ele, é inverter a percepção de privação. — Quando você deixa de gastar hoje, não está se privando. Está priorizando uma vida melhor no futuro. Cada decisão financeira ruim hoje é uma renúncia lá na frente — diz. A chamada “economia do autocuidado” não se resume, portanto, a gastar mais ou menos, mas a reorganizar prioridades. Quando passam a integrar o centro do orçamento, esses gastos consolidam a saúde como parte da estrutura financeira, com efeitos diretos na qualidade de vida e na sustentabilidade ao longo do tempo.

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