Vogue Brasil
Nascido em Pau Grande, distrito de Magé, no Rio de Janeiro, Luiz de Freitas mudou-se para a capital do estado aos 19 anos e fundou sua primeira etiqueta, a feminina Belui, em 1965, uma das pioneiras em produzir prêt-à-porter para as butiques que surgiam no Brasil. Em 1970, inaugurou uma fábrica própria, que chegou a contar com 150 colaboradores. Teve diversas marcas, como a 20 Anos, Miss Divine e Summer Boy. Seu maior sucesso, a Mr. Wonderful, foi criado em 1979 e foi uma revolução para o guarda-roupa masculino da época. No fim dos anos 1970, foi integrante do Moda-Rio, grupo pioneiro em organizar a indústria brasileira. A Mr. Wonderful foi encerrada em 1995, e uma tentativa de revivê-la foi feita em 2007. Atualmente, aos 85 anos, Luiz vive em sua cidade natal. Aos 52 anos, o mineiro Luiz Claudio Silva comanda há duas décadas a marca Apartamento 03, grife que se tornou um dos pilares do design autoral no Brasil. Formado em estilismo e modelagem pela UFMG, sua trajetória é marcada pelo rigor técnico e por uma estética que funde alfaiataria clássica, técnicas artesanais elaboradas e narrativas sensíveis. Em 2014, sua grife passou a integrar o grupo Nohda, de Patricia Bonaldi, e estreou no SPFW. Em 2018, realizou um desfile com casting formado exclusivamente por modelos negras. Luiz de Freitas Vogue Brasil/ Pedro Bodick Vogue: Luiz de Freitas, você é uma figura fundamental da moda brasileira. Além de ser uma referência para estilistas negros, foi um dos pioneiros no Brasil em enxergar que o tempo daquela moda “de ateliê” estava acabando... Luiz de Freitas: Quando comecei na moda, o que fazia sucesso era a “alta-costura” do Clodovil, Dener, Guilherme Guimarães, Ronaldo Ésper: os ateliês que desenvolviam roupas sob medida com hora marcada. Ao chegar, vi que não teria dinheiro para fazer um ateliê como o deles, comas cortinas, o veludo, o tapete no qual o pé afundava. Ao ver meus desenhos, um costureiro famoso da época chegou a dizer: “Olha, vou ser sincero, você pode tentar todas as profissões, mas a moda não é para você”. Mas daí nasceram as butiques e o prêt-à-porter, e eu era um dos poucos que desenvolviam prêt-à-porter. Passei a ganhar muito dinheiro. Já o tal costureiro... Vogue: Você teve diversas marcas femininas bem-sucedidas antes de lançar a Mr. Wonderful, seu trabalho mais conhecido. E quis ir para a moda masculina porque achou que precisava prestar esse serviço para os homens na época. Luiz de Freitas: Certa vez, me perguntei: “Brasil, me mostra um caminho, me diga o que eu vou fazer com esses homens cafonas que se vestem tão mal?”. Estava em Nova York e daí vi escrito em uma loja do SoHo: “Think big”. E percebi que estava pensando pequeno. Veio a ideia de atacar o machismo. E foi assim que a minha moda masculina superou as marcas femininas que tive. Abri a loja Clínica de Moda, em Ipanema, toda decorada com móveis de hospital. A ideia é que eu seria uma espécie de psicólogo desse homem. A moda masculina da época era tão careta que um dia um jornalista me perguntou: “Como você se sente abrindo a primeira loja para gays no Brasil?”. Acredita? Exportei para os Estados Unidos, Europa... Vendi na loja em St. Tropez da Brigitte Bardot, que eu já conhecia de Búzios. Certa vez, em Nova York, estava em um bar vestindo um casaco de couro de Claude Montana que comprei em Paris, e um rapaz me chamou para ir ao Studio 54. Lá, ele conhecia todo mundo, dancei com Liza Minnelli, que chegava na boate, botava a bolsa no chão e dançava descalça na maior diversão. “Estou no paraíso”, pensei. Quando cheguei no bar, uma mulher negra belíssima me perguntou se eu era designer. Ela contou que era coordenadora de compras da Saks Fifth Avenue. Pedi um champanhe para celebrarmos e ela me convidou para ir até a loja me apresentar às compradoras. Ainda me apresentou a um representante de um showroom em Nova York. Fiquei um bom tempo exportando para a cidade. Um dia, fizeram uma vitrine só minha na Saks: “Luiz de Freitas, brazilian design”. Vogue: Luiz, você perdeu seu pai aos 2 anos e contou com a ajuda financeira de toda a sua família. Como foi viver sob a pressão de ter que fazer seus estudos “valerem”? Luiz de Freitas: Ao perder meu pai, fomos morar, eu, minha mãe e minha irmã, na casa dos meus avós maternos. Minha avó não sabia ler nem escrever, mas seus filhos eram operários na Companhia América Fabril, gigante têxtil que existia na nossa cidade, Pau Grande [distrito do município de Magé, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro], e eles juntavam todos os meses o dinheiro para que eu pudesse estudar em um colégio caro em Petrópolis. A expectativa, com todo esse sacrifício, é que eu fosse um profissional de medicina ou algo do tipo. Comecei a aprender a fazer roupa com 9 anos. Costurava para os meus vizinhos e já ganhava um dinheirinho. Quando você fazia 14 anos, ganhava “de presente” um emprego na fábrica. Eu era um ótimo funcionário, mas, aos 17, pedi demissão: “Olha, seu Pereira, a moda está gritando dentro de mim. E se eu não passar fome e não dormir em banco de praça pela moda, não sentirei que tentei de tudo”. E não deu outra. Eu cheguei a dormir no banco da Serzedelo Corrêa, em Copacabana, em dias que não dava tempo de voltar para Pau Grande. Enfrentei tudo, mas depois o dinheiro veio. Comprei um terreno para cada um dos meus três tios, para que pudessem construir suas casas. É muito duro para uma criança ver um recolhimento nesse nível e não se comover. Ver minha avó não saber ler nem escrever me fez um estudante dedicado. Luiz Claudio Silva Vogue Brasil/ Pedro Bodick Luiz Claudio: Engraçado como tem coisas que se parecem. Comecei a costurar porque minha mãe costurava. À medida que tinha clientes, a nossa casa ganhava móveis. Mesa de cozinha, cadeiras, liquidificador. Entendi que aquilo era fazer dinheiro. Que podia ser uma profissão. Sempre desenhei muito, lembro de ver o Clodovil na televisão desenhando, e já desenhava meus croquis quando criança. Até um tio brincar comigo que eu podia parecer com“aquilo” e entender que “aquilo” não era muito legal, e eu parei. Mas aprendi a costurar, mais tarde, ajudando minha mãe a pregar botão, fazer barra. Fiz uma saia, vendi para uma vizinha e comecei a fazer roupa. Foi um caminho parecido. Luiz de Freitas: Muito. Luiz Claudio: Só fui entender moda muito mais tarde. As possibilidades que ela podia me oferecer. Mas, perto de você, acho que enfrentei muito pouquinho, sabe? Porque eu já tinha revistas, televisão, acesso a muita coisa. Mas, mesmo assim, não tinha referências de imagens que pareciam comigo... Sabia apenas de você. Sabia por pesquisar, pois mesmo sua história já começava a desaparecer. Então, eu não sabia se podia ser estilista. Vogue: Luiz Claudio, me lembro de você falar sobre como é um pensamento muito colonizado achar que “bacana é vestir uma mulher branca, alta, magra e loira”. Sei que, para você, tem figuras que são muito mais interessantes. Luiz Claudio: É fácil vestir “uma Gisele”. Não exige esforço, nenhuma construção de roupa. Agora, para você vestir uma Fafá de Belém ou uma Bethânia, você precisa ter o mínimo de conhecimento de modelagem, de tecido, até porque elas não querem vestir qualquer coisa. E isso enriquece o trabalho de qualquer pessoa que está na moda. O meu olhar é muito pela riqueza da pessoa e do que ela representa para a gente. Tem sido um grande presente vestir o Gilberto Gil. Imagine sua roupa chegar atéuma entidade como ele. Fora que é um corpo real, que parece meu pai, meu avô, meu vizinho. Eu tenho o maior orgulho de vestir essas pessoas. Luiz de Freitas Vogue Brasil/ Pedro Bodick Revistas Newsletter Luiz de Freitas: Eu fico muito contente de saber que você tem um segmento de artistas, porque os chamados “formadores de opinião” no Brasil têm uma opinião muito difícil, né? Luiz de Freitas: Um dia, chegou uma senhora em minha loja de Ipanema, onde as vendedoras falavam três línguas porque recebíamos turistas internacionais, e perguntou para a gerente-geral: “É verdade que essa loja é de um negro?”. Eu estava perto, escutei, mas fiquei na minha, porque tenho muito respeito pelo dinheiro que o cliente vai gastar na loja. O que me interessava é que ele comprasse mais e mais. A gerente ficou vermelha, porque viu que eu tinha ouvido. Falei: “Olha, sim, a loja é de um negro, mas adorei que você esteja gostando e comprando aquilo que eu faço, porque o que abriu as portas para mim foi o meu trabalho”. Luiz Claudio: Eu não costumava deixar que me fotografassem, pois nunca ficava confortável na imagem que via. Depois, quando você começa a se entender como uma pessoa preta, vai entendendo o que vivenciou. No Carnaval, em Belo Horizonte, fui comprar uma bebida na rua e percebi que uma menina estava chorando. Ela me reconheceu do Instagram e contou que tinha uma marca, que batalhava muito, e que me ver de perto trouxe uma esperança de que ela poderia dar certo, fazer valer toda a grana que gastou com a faculdade, porque eu era real. Ver isso é muito doido. A gente vive num mundo que não é muito parecido com a gente. Isso tira muito crédito do que a gente sabe, do que a gente quer alcançar, a nossa confiança. Pre cisamos ter referências. Quando estreei no SPFW, em 2014, achava muito desafiador para um corpo como o meu estar dentro daquele evento. O pensamento era: todo mundo estará atento e tudo precisaria ser perfeito. Imaginava que a cobrança seria muito maior. Estar perto de você hoje é muito potente e muito forte. Estar do lado daquele cara que eu cresci sabendo que existia, te ver de perto assim, sentir o cheiro. Eu falo muito de agradecermos às pessoas que vieram antes. Luiz de Freitas: Costumo dizer que meti o pé na porta em todos os sentidos. Criei uma associação chamado Fale Aids, que tinha como função arrecadar dinheiro para comprar o coquetel para quem o governo não fornecia. Fiz um desfile com 21 pessoas soropositivas que carregavam uma faixa escrito: “O coquetel é para todos”. Fui criticado por ter colocado na passarela algo que as pessoas consideravam “muito para baixo”, que “não combinava com moda”. Mas a moda tem que refletir o mundo. Muitos amigos estavam morrendo. A moda não pode ser só “de salão”, a moda está nas ruas. A primeira vez que vi um rapaz de unhas coloridas era um trocador de um ônibus no subúrbio do Rio. Luiz de Freitas: Eu odeio o básico. Odeio. Depois que inventarama palavra básico, estragou tudo. Porque as pessoas vão lá e compram o mesmo tênis que o vizinho tem. Sendo que, para cada roupa, um sapato deveria ser desenhado. Quando surgiu o grupo Moda-Rio, fazíamos uma moda diferenciada. Se eu fosse usar a cor amarela, nenhum estilista usava a mesma cor. O bacana era ser diferente. Agora, o homem que vende o tecido fala que o Luiz Claudio comprou tal tecido, para que todo mundo compre igual. Além de básico, tem outra palavra que eu detesto: tendência. Luiz Claudio: Com o mar de possibilidades e diversão que a moda pode ser, sempre me pergunto por que as pessoas vão pelo caminho mais homogêneo. A pessoa quer “se diferenciar”, mas comprando e usando o que todo mundo está usando. Talvez tenha uma certa preguiça de olhar para fora da caixa. Ou de olhar mesmo, sabe? Experimentar. E aí fica mais fácil repetir uma receita que alguém já testou. Você se livra do julgamento. Luiz de Freitas e Luiz Claudio Silva Vogue Brasil/ Pedro Bodick Luiz de Freitas: O Freddie Mercury estava no Rio de Janeiro certa vez para fazer um show. Hospedou-se em frente à praia e, ao ver os homens e mulheres pela orla, percebeu que tinha trazido uma mala toda errada, toda cinza. Um amigo em comum perguntou então se eu poderia fazer roupas para ele para o show. De cara, pensei: “São as mulheres que usam legging, mas Freddie Mercury pode usar legging, deve”. Então fiz umas 15 cores de legging para ele e fiz camisetas frente única. Interessantíssimas. Ele adorou e fez o show todo colorido, feliz da vida. Imagina o Freddie Mercury aparecer todo de cinza lá no Rio. Já o Elton John, conheci em Londres. Uma vez, eu e um amigo fomos almoçar em sua casa de campo. Um Rolls-Royce nos buscou na estação de trem. Quando chegamos, uma cena de cinema: aquela casa-palácio ao fundo e dez empregados enfileirados na frente para nos receber. Eles já sabiam que números calçávamos e já estavam ali botas de montaria preparadas, engraxadas, lindíssimas, para que a gente pudesse cavalgar. Durante o almoço na casa do Elton John, eu não me lembro o que ele serviu, porque tinha um Rubens [tela do pintor alemão Peter Paul Rubens] do tamanho da parede. Eu, que ia a museus na Europa, nunca tinha visto um Rubens daquele. Fiquei hipnotizado. Luiz de Freitas Vogue Brasil/ Pedro Bodick Vogue: Para você, Luiz Claudio, o que é importante que o trabalho traga? O que te realiza? Luiz Claudio: Ver pessoas que compraram minha roupa e se sentem confortáveis ao vesti-la. Pessoas reais, de corpos comuns. É onde fico olhando e tentando entregar. Ver que alguém ficou feliz com meu trabalho me deixa muito feliz. Quando me chamam para dar palestras em escolas, sempre dou esse exemplo de que tem muita gente querendo estudar moda de olho em ser famoso e conhecido. Fazer moda e ser estilista é como ser médico, dentista, arquiteto, motorista... Tem um grau de responsabilidade, sabe? E talvez esse lugar onde todo mundo quer ser famoso transforme a moda nesse lugar meio fútil. Então, me incomoda muito quem quer fazer moda e não conhece a história de nomes do Brasil. Não sabe quem é Luiz de Freitas, Erika Palomino... Luiz de Freitas: Tem que ter o mínimo de conhecimento cultural. Até porque, através da moda, você conhece um povo, identifica um povo pelo que ele está vestindo. Eu já fui pobre, muito pobre. E, aí, ganhei horrores de dinheiro. Fiquei muito rico vendendo roupa, exportando. E gastei muito dinheiro viajando, vendo omundo. Assistindo a Maria Callas em Milão, a Diana Ross em Los Angeles. Nunca fui bom em administração, e meu dinheiro foi diminuindo. E daí chegou o Collor, e minha empresa quebrou. Tentei uma empresa de recuperação judicial, mas, entre pagar os empregados e pagar a ela, preferi pagar os empregados. Depois um investidor tentou reviver a marca, chegamos a fazer um desfile espetacular. Só que ele imaginou que o sucesso seria imediato, o retorno do dinheiro que investiu... E com a moda você tem que aguardar, esperar. Apareceram outras pessoas, mas achei melhor ficar no meu canto. Vivi um isolamento como o da pandemia antes da chegada da pandemia.Eagora eu sou um pobre,mas sou um pobre rico, porque vivi tudo que queria viver. * *A conversa foi editada e condensada Fotos: @pedrobodick Assistente de fotos: @gabrielyoneya Styling: @henriquesca Beleza: @luzcidez Produção Executiva: @iristhedirectress Camareira: @danielacampelo_ Agradecimentos: @011loft e @herancacultural
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