Jornal O Globo
Ao mesmo tempo em que economistas tentam avaliar os efeitos da guerra de EUA e Israel contra o Irã à economia global, milhões de iranianos já enfrentam os efeitos de um conflito que, embora sob cessar-fogo temporário, parece longe do fim. Analistas dizem que o PIB pode ter contração de até 10% em 2026, a inflação está perto dos três dígitos, milhões de empregos estão em xeque, e os planos de contenção, apresentados como garantia a uma guerra prolongada, têm prazo de validade limitado. Após fracasso em negociações: Trump ameaça destruir embarcações do Irã com ‘mesmo sistema de morte’ usado no Caribe após início de bloqueio no Estreito de Ormuz Pressão sobre Pequim: China pede a EUA e Irã que 'evitem reacender guerra' após fracasso de negociações Em artigo publicado na última segunda-feira pela Fundação Bourse & Bazaar, que estuda a economia do Irã, o economista Hadi Kahalzadeh afirma que os 39 dias de bombardeio danificaram 125 mil estruturas civis, incluindo 20 mil unidades industriais. Muitos negócios, incluindo aqueles que não têm relação direta com o aparato militar, foram fechados. Os setores mais afetados foram o siderúrgico, de construção civil, petroquímico e o de serviços, pilares da economia. Cadeias de suprimentos foram abaladas ou completamente interrompidas, impactando áreas como transportes e manufaturas. Segundo economistas consultados pelo New York Times, a reconstrução civil pode custar entre US$ 300 bilhões e US$ 1 trilhão, e levar anos até ser concluída, prazo que se torna incerto se as sanções econômicas permanecerem em vigor. — O caminho para o desenvolvimento econômico do Irã foi fechado por esta guerra — afirmou ao New York Times Esfandyar Batmanghelidj, diretor executivo do centro da Bourse & Bazaar. — A realidade é que o Irã terá muita dificuldade em reconstruir ou revitalizar infraestruturas críticas se permanecer sob sanções. Initial plugin text Muito antes do conflito, a economia do Irã se encontrava em frangalhos, resultado de anos de sanções, problemas estruturais e má gestão. A moeda local, o rial, é uma das mais desvalorizadas do planeta, e a inflação elevada, hoje em torno de 70% ao ano, reduz o já restrito poder de compra da população. — É praticamente uma estagnação total — disse um vendedor de ferramentas no Bazar de Teerã à rede al-Jazeera. — Recebemos hoje novas listas de preços de alguns produtos dos atacadistas; tudo está cerca de 20% a 30% mais caro. Semanas antes da “Operação Fúria Épica”, o descontentamento dos iranianos transbordou em uma das maiores ondas de protestos dos últimos anos, que colocaram o regime nas cordas e que foram respondidas com violência desmedida, deixando dezenas de milhares de mortos. Com os bombardeios, a situação já crítica se tornou insustentável para muitos. Neil Shearing, pesquisador do centro de estudos Chatham House, destaca que o PIB pode ter retração de até 10% em 2026. — Com ou sem guerra, parece que estamos mortos há muito tempo. Não só as nossas vozes são silenciadas, como temos de lutar para satisfazer as nossas necessidades básicas — disse à al-Jazeera um produtor de conteúdo iraniano, que preferiu não se identificar. Israel ataca maior instalação petroquímica do Irã Pelas projeções de Kahalzadeh, que por oito anos atuou na Organização de Seguridade Social do Irã, a destruição no setor metalúrgico e os problemas nas cadeias de suprimentos ameaçam 1,8 milhão de empregos na indústria e 3,8 milhões na construção civil. — Não tivemos nenhuma venda desde o início da guerra; estamos produzindo e armazenando, mas não tenho certeza de quanto tempo conseguiremos sobreviver — disse Amir, sócio de uma fábrica de blocos de concreto, ao New York Times, sem revelar seu sobrenome. Os danos a instalações petroquímicas e empresas farmacêuticas põem em risco outros 1,2 milhão de postos. A corrosão imposta pela inflação aos orçamentos familiares reduziu a demanda e fez com que setores ligados a bens de consumo reduzissem a produção, com demissões. O comércio, que emprega 17% da força de trabalho do país, cortou vagas, assim como empresas de tecnologia e comunicação, vitimadas também pelo prolongado bloqueio da internet. — Esse apagão da internet reduziu praticamente a zero todas as nossas futuras rendas mensais e não sabemos o que vai acontecer — desabafou Sepehr, um músico que depende da internet para compartilhar músicas e vídeos, ao New York Times. Repressão: Autoridades iranianas anunciam detenção de 460 pessoas por atividades desestabilizadoras na internet Segundo Kahalzadeh, até 12 milhões de empregos, ou 50% da força de trabalho do Irã, estão em risco. E mesmo que um cenário relativamente otimista se concretize, com a perda de 3 milhões de vagas, já seria a maior contração no mercado de trabalho na História moderna, incluindo o período da guerra contra o Iraque (1980-1988). “Essas estimativas sequer incluem os 22% dos lares iranianos que dependem de salários do setor público”, afirma o economista. “Como tantas vezes acontece em guerras, os custos mais altos recaem sobre aqueles menos protegidos pelos benefícios sociais do Estado.” Oficialmente, as autoridades dizem que não há risco de escassez de produtos básicos (desde alimentos até insumos para a construção civil), e garantem ter planos de contingência para uma guerra de até seis meses. O modelo descentralizado de defesa distribuiu as capacidades de produção e uso de mísseis, drones e outros armamentos, em tese viabilizando uma operação prolongada contra EUA e Israel (e contra alvos no Golfo Pérsico). Uma frota de petroleiros longe do Golfo Pérsico, com cerca de 160 milhões de barris para pronta entrega, é apresentada como uma garantia de renda, ainda mais diante de um bloqueio dos portos iranianos anunciado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Alerta a OCDE: Guerra no Irã será um choque duplo na economia global e terá forte impacto na inflação dos EUA E há um arsenal econômico interno composto por incentivos fiscais, empréstimos a baixo custo e um seguro-desemprego equivalente a 55% do salário ou ao salário mínimo, hoje de 166,5 milhões de riais (R$ 640). Kahalzadeh questiona se, a curto prazo, o Estado conseguiria cumprir suas promessas diante de um cenário de rápida deterioração. “Fornecer de 3 a 4 milhões de auxílios-desemprego por seis meses, por exemplo, exigiria quase 5 quatrilhões de riais (R$ 18,7 bilhões). Uma contração de 15% no mercado de trabalho também significaria uma queda de 25% a 30% na receita da Organização de Seguridade Social, o maior fundo de pensão do Irã”, explica. “No total, o ônus financeiro do desemprego induzido pela guerra consumiria pelo menos 20% do orçamento público do Irã, que já apresenta um grande déficit.” Medida de risco: Entenda o que é um bloqueio naval e como os EUA devem implementá-lo no Estreito de Ormuz No último fim de semana, uma maratona diplomática entre EUA e Irã terminou sem acordo, com o anúncio do bloqueio americano e a iminência da retomada dos bombardeios. Nas conversas, os iranianos tentaram obter um compromisso pelo fim das sanções e pela liberação de bilhões de dólares em bens e depósitos congelados no exterior. Não há previsão para novas conversas ou para um acordo de paz, deixando o futuro do país, e de seus 90 milhões de habitantes, em suspenso. — Até agora, não sei quando poderei reabrir. Tudo depende de quando isso realmente terminar — disse Arash, dono de uma confecção em Tabriz que demitiu 12 funcionários e suspendeu a produção, à agência Reuters.
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