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Falar menos, escutar mais: o que são os 'listening bars', espaços inspirados no Japão onde tendência é ouvir músicas com atenção | Collector
Falar menos, escutar mais: o que são os 'listening bars', espaços inspirados no Japão onde tendência é ouvir músicas com atenção
Jornal O Globo

Falar menos, escutar mais: o que são os 'listening bars', espaços inspirados no Japão onde tendência é ouvir músicas com atenção

Os puristas da música — e também os curiosos — têm encontrado um novo tipo de refúgio nas grandes cidades. São os “listening bars”, espaços dedicados menos a falar e mais a ouvir: música em primeiro plano, silêncio ao redor e uma experiência que privilegia cada detalhe do som. Oasis: Liam Gallagher celebra entrada no Hall da Fama do Rock e discute com fãs que resgataram seus xingamentos ao prêmio 'Não vão pegar esse Pikachu': Filho de rapper T.I. é preso fantasiado durante abordagem policial nos EUA Originários do Japão, esses bares combinam salas tratadas acusticamente, equipamentos de alto padrão e uma atmosfera que convida à desaceleração. A proposta é simples, mas rara nos dias de hoje: sentar, prestar atenção e deixar a música ocupar o centro da cena. — Realmente permite ouvir cada palavra, cada instrumento, cada nota — contou à AFP Camille Calloch, de 31 anos, ao sair do bar parisiense Listener, após uma sessão dedicada ao britânico Sampha. No coração de Paris, o espaço investiu mais de 200 mil dólares em seu sistema de som, com alto-falantes de grande porte que entregam uma reprodução precisa — quase tátil. Ali, o volume não é o protagonista; a nitidez, sim. — Temos uma relação completamente diferente com a música — disse Jérôme Thomas, cofundador do Listener: — Já não se trata daquele consumo rápido que temos hoje com o streaming e os pequenos fones de ouvido. Queríamos que cada um pudesse dedicar tempo para redescobrir o trabalho de seus artistas preferidos. Ouvir como experiência, não como ruído de fundo A proposta vai além da estética. Para muitos frequentadores, trata-se de redescobrir músicas conhecidas sob outra lente. — Vemos as pessoas saírem com um sorriso dizendo: "Achava que conhecia de cor essa faixa que escuto há 15 anos. Ouvi novas instrumentações. Consegui ouvir as mixagens do engenheiro de som" — relatou Thomas. Nesses espaços, o vinil reina. O MP3, comprimido, perde espaço. O som percorre cabos de alta qualidade até caixas vintage, desenhadas para preencher o ambiente sem distorção. Ao lado disso, caixas bluetooth parecem, nas palavras de frequentadores, um atalho apressado. A ascensão dos “listening bars” também dialoga com uma mudança de comportamento. Em várias cidades, a vida noturna tradicional perde fôlego, pressionada por custos mais altos e por uma geração que busca experiências menos caóticas e mais sensoriais. De Tóquio ao mundo “Ultimamente houve uma verdadeira explosão desse tipo de lugar”, disse Dan Wissinger, coproprietário do Eavesdrop, em Nova York, que divide seu espaço entre uma sala de escuta mais imersiva e outra voltada à convivência. Para ele, há um critério básico: o espaço precisa ser pensado para o som. — Se não têm tratamento acústico, são apenas falsos "listening bars" — afirmou: — Em um espaço de hospitalidade, se você não tem bons amortecedores acústicos, a música não será o principal elemento percebido. Em Londres, onde surgiram alguns dos primeiros endereços do gênero na Europa, como Brilliant Corners e Jumbi, a cena segue em expansão. Um dos mais recentes é o Hidden Grooves, instalado em um hotel do grupo Virgin, com acervo de 5 mil discos e equipamentos que custam dezenas de milhares de dólares. — Um verdadeiro ‘listening bar’ atende a todos os requisitos para quem busca sentir a música — disse Neil Aline, diretor de entretenimento cultural da Virgin. A herança dos 'jazz kissa' Por trás dessa tendência global está uma tradição japonesa que atravessa décadas. Os “jazz kissa”, surgidos nos anos 1930, já propunham algo semelhante: bares silenciosos, dedicados à escuta atenta de discos de jazz. Aline conheceu alguns deles em Tóquio e Kyoto, durante turnês como DJ. A memória ainda é vívida. — É impressionante — disse: — É uma experiência musical radicalmente diferente da que se vive em salas de concerto ou clubes.

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