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Entenda como operava fintech que era coração de esquema de lavagem de dinheiro com funkeiros | Collector
Entenda como operava fintech que era coração de esquema de lavagem de dinheiro com funkeiros
Jornal O Globo

Entenda como operava fintech que era coração de esquema de lavagem de dinheiro com funkeiros

A investigação que levou, esta semana, à prisão de funkeiros, influenciadores e empresários do entretenimento revelou uma engrenagem internacional que tinha como coração do esquema uma fintech comandada por cidadãos chineses. Segundo a Polícia Federal, a empresa Golden Cat Processamento de Pagamento Ltda. funcionava como o principal motor financeiro de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligado ao tráfico de drogas, a apostas ilegais e rifas digitais. Na Operação Narco Fluxo, quarta-feira, foram cumpridas 84 ordens judiciais em oito estados e no Distrito Federal, levando à prisão de 33 pessoas, entre elas os MCs Ryan SP, Poze do Rodo, o influenciador e empresário Chrys Dias e o dono da página Choquei, Raphael Sousa Oliveira. Narco Fluxo: Justiça mantém MC Ryan SP, Poze do Rodo e demais alvos de operação da PF detidos após audiência de custódia 'Queria fazer alguma coisa que mudasse o mundo': Aluno de direito da USP desaparece em combate na Guerra da Ucrânia Nas primeiras diligências, a operação atingiu em cheio a indústria do funk. Além de artistas, donos das produtoras GR6 e Love Funk — já citadas em investigações por suspeitas de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) — foram alvo de mandados de prisão e bloqueio de bens. Para os investigadores, empresas do meio musical teriam sido usadas para misturar receitas legítimas com dinheiro ilícito, permitindo a movimentação de grandes quantias sem provocar alerta imediato. Remessa para o exterior Documentos da 5ª Vara Federal de Santos indicam que a Golden Cat concentrava valores arrecadados por plataformas clandestinas de apostas e viabilizava o envio ao exterior. O volume transacionado pela organização teria ultrapassado R$ 260 bilhões. Quebras de sigilo apontam que Xizhangpeng Hao, atual controlador, e Sun Chunyang, antigo administrador, estruturaram a infraestrutura que recebia e redistribuía valores pulverizados por apostadores e sites ilegais. A Justiça autorizou a prisão temporária dos dois e também de Jiawei Lin, apontado como responsável por conectar as remessas a operadores das bancas fora do país. Operação Narco Fluxo: PF desarticula esquema bilionário de lavagem de dinheiro Divulgação/PF Não é a primeira vez que os estrangeiros aparecem em investigações no Brasil. Em 2024, Sun Chunyang foi alvo da Operação Desfortuna, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que investigou a promoção irregular de jogos de azar online, como o “Jogo do Tigrinho”. Dois anos antes, durante a CPI da Manipulação de Partidas de Futebol, Chunyang e Hao foram citados em discussões sobre o mercado clandestino de apostas, mas não foram convocados a depor. Ambos também aparecem vinculados à Cash Pay Meio de Pagamento, registrada no mesmo endereço da Golden Cat em São Paulo, o que reforça a hipótese de conexão entre estruturas usadas para processar recursos de plataformas ilegais. Segundo a PF, artistas e empresários brasileiros atuavam na captação e circulação dos recursos, enquanto a estrutura corporativa controlada pelos estrangeiros garantia a internacionalização do dinheiro. A operação aponta MC Ryan SP como líder e principal beneficiário econômico. O influenciador Mateus Magrini Santana, irmão de Ryan, também foi preso sob suspeita de atuar na recepção de valores e na divulgação de plataformas de apostas. Narco Fluxo: Ao menos R$ 5 milhões em carros de luxo são apreendidos em operação da PF que prendeu MCs Poze e Ryan SP; veja fotos Divulgação: Polícia Federal Os artistas, assim como produtores de funk e influenciadores, são apontados como parte do esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado cerca de R$ 1,6 bilhão em 24 meses. As investigações indicam que o grupo utilizava a “instrumentalização de pessoas físicas”: artistas e influenciadores com grande circulação financeira eram usados para movimentar valores sem despertar suspeitas. O dinheiro ilícito era apresentado como pagamento por publicidade, shows e contratos comerciais, permitindo a aquisição de imóveis, joias e veículos de luxo e a ostentação nas redes sociais, usada como vitrine para atrair novos apostadores. A estrutura incluía transferências fracionadas (“smurfing”), uso de laranjas, empresas de fachada e criptomoedas como o USDT para remessas internacionais. Durante as buscas, foram apreendidos dinheiro em espécie, documentos, equipamentos eletrônicos e um fuzil. Entre os bens sequestrados estão veículos avaliados entre R$ 4,8 e R$ 6,9 milhões, incluindo Land Rover Defender, Porsche Panamera Turbo S, Porsche 911, Porsche Cayenne, Mercedes-Benz Classe C e BMW X1. Prisões mantidas A Justiça determinou o bloqueio de contas bancárias e criptoativos, inclusive em corretoras como Binance, Mercado Bitcoin e Foxbit, além do sequestro de imóveis e outros bens. Operação Narco Fluxo Divulgação: Polícia Federal A 5ª Vara Federal de Santos manteve MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e demais alvos de operação da Polícia Federal em prisão temporária, após eles passarem por audiência de custódia ontem. A única exceção foi a influenciadora digital Débora Paixão, mulher de Chrys Dias e também alvo da operação, para quem foi determinada a prisão domiciliar, com monitoramento eletrônico. Em nota, a Justiça Federal informou que “ao todo, 33 investigados foram apresentados à Justiça, no âmbito das medidas diligenciadas pelas autoridades competentes”. “Demais pedidos ainda pendentes de apreciação serão analisados posteriormente, após a oitiva da Polícia Federal e do Ministério Público Federal (MPF), conforme o trâmite legal”, acrescentou, informando que o caso tramita “sob sigilo absoluto, com acesso restrito às partes envolvidas”. As defesas dos acusados afirmam não ter tido acesso integral ao processo e negam irregularidades, afirmando que as transações citadas são lícitas, que os valores têm origem comprovada e que os tributos foram recolhidos. A defesa de Raphael Sousa sustenta que ele não integra organização criminosa e atua apenas com publicidade digital. A defesa da Love Funk e de Henrique Viana afirmou que ele é um “empresário respeitado nacionalmente na indústria musical”, que “sempre esteve à disposição” e “se manifestará nos autos tão logo tenha acesso integral à investigação, adotando as medidas cabíveis”. Os investigados poderão responder por associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, com penas que podem chegar a 20 anos de prisão. A Operação Narco Fluxo é desdobramento de investigações iniciadas após a apreensão de drogas em um veleiro em 2023 e de fases anteriores que já haviam identificado a atuação do grupo em esquemas de lavagem ligados ao tráfico internacional.

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