Vogue Brasil
Cara leitora, é uma raridade no mundo moderno alguém se ver, de repente, no meio de um caso de identidade trocada digno de uma farsa de Oscar Wilde — mas eis que me vejo confundida. Estou numa situação delicada: milhões de seguidores no TikTok juntaram dois mais dois — isto é, um vídeo viral, um romance e um filme — e concluíram que esta que vos escreve é a verdadeira inspiração por trás de uma das personagens mais esnobes da moda já criadas: Emily, a assistente inglesa cheia de afetação de Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada. Vítima silenciosa, sofri essa difamação em silêncio. Temia que me manifestar — apesar de muitas mulheres corajosas da irmandade da Vogue me incentivarem — só atraísse ainda mais escrutínio cruel das adolescentes intimidantes do TikTok. Mas houve um momento, algumas semanas atrás, num cinema em Londres, que me fez perceber que eu precisava me posicionar. Imagine a cena. Eu acabara de me acomodar em uma poltrona de veludo vermelho no Everyman Cinema, em Bayswater, para assistir O Morro dos Ventos Uivantes com minha filha Tess, de 15 anos, e a amiga dela, Ernie. Elas insistiram em chegar cedo para ver todos os trailers, então me preparei para um cochilo rápido enquanto eles passavam em volume ensurdecedor. Fui despertada quando Tess saltou da cadeira e gritou: “Mãe! É você!” Emily Blunt como Emily em "O Diabo Veste Prada" Divulgação Levantei os olhos e me deparei com Emily Blunt, vestida dos pés à cabeça de Dior, interpretando Emily no trailer de DWP2. “Meus olhos me enganam?”, diz ela com desdém, semicerrando os olhos para Andy, de Anne Hathaway. As duas se reencontram na tão aguardada sequência. “Não seja boba, essa não sou eu, querida”, repreendi Tess. “Não, é sim”, ela insistiu. “Todo mundo na escola sabe que é você.” “O quê? Mas a Emily é tão malvada. Eu não sou malvada.” Ignorando isso, Tess continuou: “Mãe, é você. Eu pesquisei.” “Assume logo, Plum”, acrescentou Ernie. “É um luxo ser a Emily.” Sykes (à direita) em uma festa de inauguração da boutique Alexander McQueen em 2002 Getty Images Depois de um jantar traumático em que as duas listaram todos os dados do Google que “provavam” que eu era Emily, percebi que, se queria recuperar minha inocência, precisava de uma investigação completa. Felizmente, assisti muito CSI: NY nos anos 2000, quando chegava tarde das festas, então sabia exatamente como agir: isolar a cena do crime; localizar testemunhas; entrevistar os envolvidos; fazer uma acusação; montar um júri cuidadosamente escolhido que concordasse comigo. Primeiro, a cena do crime: o prédio da Times Square que abrigava a Condé Nast de um lado e um escritório de advocacia do outro (nenhum falava com o outro, obviamente). No início dos anos 2000, a redação da Vogue foi invadida por uma equipe da BBC fazendo um documentário chamado Boss Women sobre Anna Wintour. Não posso afirmar com certeza, mas suspeito que Anna, sem paciência para câmeras, mandou que me seguissem — e assim apareci no programa falando sobre a importância de usar roupas de coquetel no trabalho, enquanto desfilava pela redação com uma saia de chiffon Dolce. O programa foi ao ar na Inglaterra em 2003: ninguém em Nova York ligou. Mas, décadas depois, trechos viralizaram no TikTok, e começaram a surgir matérias sugerindo que Lauren Weisberger, autora de O Diabo Veste Prada (publicado em 2003, filme em 2006), teria baseado a personagem Emily em mim. A conclusão se apoiava em dois “fatos”: Emily é inglesa (como eu) e foi assistente de Anna (o que eu nunca fui). Plum Sykes em março de 2004 Norman Jean Roy / Vogue Admito: trabalhar na Vogue me deu alguns hábitos “à la Emily”. Eu marcava escovas de uma hora no Bergdorf’s e considerava isso trabalho; só usava salto alto — 10,5 cm, naturalmente — e julgava quem usava sapatilhas; desfilava pelos corredores com cabelo impecável e unhas feitas religiosamente; e acreditava que ir aos desfiles de Paris era o auge — embora, ao chegar lá, quase sempre ficasse doente de exaustão. Passei cerca de metade de algumas semanas de moda de cama, no Hotel Costes, sendo atendida por médicos franceses charmosos. Era praticamente protocolo. Mas eu ainda tinha minhas suspeitas sobre quem seria a verdadeira Emily. A principal suspeita era Kate Young. Sempre achei, em segredo, que Kate — então uma das assistentes de Anna e hoje uma das stylist de celebridades mais bem-sucedidas de Hollywood — havia inspirado a personagem. Fazia sentido: Kate era impecavelmente arrumada, seu cabelo loiro rivalizava com o de Carolyn Bessette, e ela geralmente aparecia perfeitamente vestida de Helmut Lang ou Chanel. Kate Young em 2007 Juliana Sohn / Vanity Fair Guardava a entrada do escritório da editora como se fosse uma verdadeira fortaleza humana; falava com um leve e elegante sotaque inglês, adquirido durante seu ano de intercâmbio na Universidade de Oxford; e tinha um namorado inglês. Além disso, era absolutamente intimidadora. Kate Young Getty Images Esta semana, finalmente perguntei a Kate diretamente. “Eu nunca fui assustadora, fui?”, respondeu ela, claramente em negação. “Eu era uma faz-tudo. Fazia café, almoço, lavanderia, compras, organização de festas, cuidava das crianças, da logística, do book, saía correndo pelo corredor para buscar pessoas para reuniões.” Ela se descreveu de forma bem mais modesta do que realmente era: “Eu passava muito tempo fumando nos escritórios dos editores mais descolados quando a Anna não estava fisicamente presente, para tentar entender como ser mais como eles.” Em seguida, afirmou ter uma prova concreta de que não era a verdadeira Emily: “Eu nunca fui a primeira assistente, então a Emily definitivamente não foi baseada em mim. Fui segunda por um ano. A Leslie era a primeira quando a Lauren era a segunda.” (Assim como no livro e no filme, existe uma hierarquia de assistentes que é muito real.) Leslie? Leslie Fremar, de quem eu me lembrava como uma morena bonita, porém austera, era certamente uma pessoa de interesse. Fiquei me perguntando como poderia localizar Leslie, que hoje é, coincidentemente, outra stylist de Hollywood extremamente influente. Amy Astley in 2005 Abbey Drucker (Teen Vogue) Enviei rapidamente uma mensagem para minha colega ex-Voguette Amy Taran Astley, que havia sido diretora de beleza na minha época e hoje é editora-chefe da Architectural Digest. “Juro pela minha extensa coleção de Manolos dos anos 1990 que nunca me passou pela cabeça que você pudesse ser a Emily”, ela disse. Fiquei aliviada — momentaneamente — até que continuou: “Você pode ter desenvolvido alguns looks com vibe de festa de coquetel. Pode ter passado de zero manutenção para alta manutenção num piscar de uma extensão de cílios. E o que você e a Emily têm em comum é um sotaque elegante, cabelo castanho e serem afiadas e inteligentes. Ok, tem um pouco de Plum na Emily.” Interrompi ali mesmo. Amy estava chegando perto demais da verdade para o meu gosto. E quanto à Leslie, que era a primeira assistente quando Kate Young era a segunda (e ainda é melhor amiga da Amy)? perguntei. “No geral, eu achava as assistentes da A.W. muito intimidadoras”, respondeu Amy. “Elas eram muito ocupadas e protegiam muito o sigilo do escritório. A vibe era ‘você não pode sentar com a gente’. Eu resolvia o que precisava com elas e saía rapidinho.” Depois acrescentou: “Acho que a Leslie pode ter influenciado bastante a Emily. Ela gosta que as coisas sejam feitas do jeito certo.” Leslie Fremar Getty Images O depoimento de Amy foi definitivo. Localizei Leslie, que, sob intenso interrogatório, deu uma declaração por e-mail: “Lauren trabalhou para mim e, infelizmente, tudo bate (exceto a parte da maldade)”. Exceto a parte da maldade? Emily é praticamente só maldade. Eu não estava nem um pouco mais perto de uma resposta. Voltei para Tess com minhas conclusões: a verdadeira Emily teria sido inspirada por várias Voguettes, mas “a parte da maldade” — bem, essa eu não consegui atribuir a ninguém. Tess, agora juíza e júri, me lançou um olhar cansado por trás do dever de química. “A questão é que todo filme precisa de um vilão”, suspirou. “E, mãe, eles têm que ser ingleses.” Obrigada, Tess. Entendi. Caso encerrado. P.S.: Quando entrei em contato com o escritório de Lauren Weisberger para um comentário, não houve resposta. Esta matéria foi originalmente publicada na Vogue britânica com o título: Plum Sykes: Am I The Inspiration For Emily From The Devil Wears Prada?
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