Jornal O Globo
Ninguém desta geração viu o que começa a emergir das paredes do Parque Lage. Sob sucessivas camadas de tinta branca, aplicadas ao longo de décadas, pinturas, texturas e elementos decorativos voltam à superfície em um processo quase cirúrgico. Com investimento superior a R$ 24 milhões e mais de 60% das obras concluídas, a restauração do palacete, conduzida pelo Governo do Estado, revela um espaço que será novo não por transformação, mas por resgate. O que acontece dentro do palacete está longe de uma obra convencional. Em visita às obras, o GLOBO acompanhou de perto um trabalho em que cada centímetro é tratado como peça única. Espátulas finas, bisturis, pincéis delicados e solventes específicos substituem ferramentas pesadas. O processo exige precisão milimétrica e, como descrevem os próprios técnicos, “paciência de Jó”. — O restauro é, por natureza, um processo minucioso e demorado. Cada etapa exige estudo e definição criteriosa das técnicas — explica o arquiteto e urbanista Igor Carneiro, da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Obras Públicas. A técnica de decapagem, retirada gradual das camadas de tinta, é feita aos poucos, revelando o que está por baixo sem apagar vestígios do tempo. Portas, janelas, gradis, alisares e portais passaram por esse processo. — Foram removidas sucessivas camadas até alcançar a superfície original desejada, preservando ao máximo os vestígios históricos — detalha. À frente da recuperação das pinturas e elementos decorativos, a restauradora Alice Medina coordena uma equipe que atua quase como em laboratório. — As surpresas acontecem no início, quando abrimos as primeiras “janelas” na pintura. É ali que começamos a ver a qualidade do material e o que pode ser recuperado — explica. Segundo ela, mais do que descobrir as pinturas, o impacto foi perceber sua resistência ao tempo: — A maior surpresa foi ver a qualidade desses materiais e como conseguiram se preservar ao longo das décadas. Antes da obra: infiltração, apagamento e perda Ao assumir a gestão do restauro, Igor encontrou um cenário distante do que o público via da área externa, conhecida pelo café e pela piscina. — Como tantas pessoas, eu também já tomei café ao lado da piscina. Mesmo com elementos deteriorados, o palacete já impressionava pela imponência — lembra. Por dentro, porém, a realidade era outra. Registro do “antes”, evidenciando acúmulo de sujeira e fuligem impregnadas nas paredes devido ao uso do espaço como restaurante e ao desgaste do tempo. Alexandre Cassiano / O GLOBO — O cenário era desafiador: muita sujeira, estruturas improvisadas, fiação exposta e todas as paredes completamente brancas, ocultando as características originais. As infiltrações, agravadas inclusive pela área da piscina, que passou cerca de dez anos sem troca de água, comprometeram parte significativa das obras artísticas. — Essas infiltrações foram responsáveis por perdas em pinturas murais, texturas e elementos tridimensionais, como as estrelas nas paredes e o anjo no teto do quarto de Gabriela. Registro do “antes” da fachada e das esquadrias. Alexandre Cassiano / O GLOBO A obra Projetado pelo arquiteto italiano Mario Vodret, o palacete começou a ser erguido na década de 1920 e levou cerca de seis anos para ser concluído. A construção foi encomendada pelo empresário Henrique Lage com um objetivo claro: fazer com que sua esposa, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni, se sentisse em casa no Brasil. O resultado é uma residência que segue o estilo eclético com forte influência italiana, concebida como um verdadeiro cenário artístico, onde arquitetura, pintura e elementos decorativos refletem o gosto da família por arte, simbologia e cenografia. As pinturas decorativas são atribuídas ao artista brasileiro Salvador Pujals Sabaté, responsável por integrar arte e arquitetura nos ambientes. Nos aposentos, elementos simbólicos reaparecem: estrelas douradas, que serão novamente aplicadas com folha de ouro, e composições ligadas ao céu e à contemplação. No antigo salão de jogos, hoje biblioteca, surgiram pinturas geométricas complexas, com cores, linhas e ornamentos que estavam completamente invisíveis. — A gente conseguiu preservar texturas muito delicadas e elementos que estavam completamente escondidos. Isso é muito satisfatório — diz Alice. Nada é feito de forma improvisada. Cada intervenção passa por validação de órgãos como o IPHAN e o INEPAC. — Tudo que é identificado passa por análise e aprovação. Desenvolvemos protótipos, testamos soluções e só depois executamos — explica Igor. Esse processo inclui desde a definição de cores até a recomposição de materiais. Para restaurar elementos de pedra, por exemplo, a equipe moeu pedras originais encontradas no próprio local, misturando pigmentos e carvão para atingir a tonalidade exata. — Foi necessário desenvolver diferentes traços de argamassa, ajustados conforme cada peça, respeitando as características originais. A obra reúne cerca de 120 profissionais, entre restauradores, artistas plásticos e técnicos especializados. Diferente do padrão da construção civil, a presença feminina é marcante. A gestão da obra pela construtora está sob responsabilidade da engenheira Camila Terra, além de arquitetas e restauradoras em posições-chave. — A presença feminina é significativa, inclusive na liderança. Isso se reflete no cuidado com os detalhes e na condução das atividades — afirma Igor. O que já foi revelado Durante a visita na obra, o GLOBO identificou uma série de descobertas e recuperações: Pinturas murais com cores originais sob tinta branca Pinturas murais com cores originais sob tinta branca Alexandre Cassiano / O GLOBO Estrelas, elementos decorativos e texturas nos quartos Estrelas, elementos decorativos e texturas nos quartos. Alexandre Cassiano / O GLOBO Rodapés com tonalidade original amarelada Rodapés com tonalidade original amarelada Alexandre Cassiano / O GLOBO Gradis e portões com bronze revelado Gradis e portões com bronze revelado Alexandre Cassiano / O GLOBO Esquadrias restauradas com ferragens originais Esquadrias restauradas com ferragens originais Alexandre Cassiano / O GLOBO Esculturas recuperadas com moldes e próteses Esculturas recuperadas com moldes e próteses Alexandre Cassiano / O GLOBO Salão de jogos com pinturas geométricas detalhadas Salão de jogos com pinturas geométricas detalhadas Alexandre Cassiano / O GLOBO História História Alexandre Cassiano / O GLOBO Construído na década de 1920, o palacete integra um espaço cuja história começa ainda em 1811, como engenho de açúcar. Ao longo do século XX, tornou-se residência, depois parque público e, desde 1975, sede da Escola de Artes Visuais, um dos principais polos culturais do país. Hoje, recebe cerca de 1,3 milhão de visitantes por ano, muitos atraídos pela piscina aos pés do Cristo e pelo café que virou cartão-postal. A restauração, no entanto, promete mudar essa percepção. — Ao devolver integridade estética ao palacete, reafirmamos o valor desse patrimônio como parte viva da paisagem carioca — diz Igor. O que ainda pode surgir O trabalho ainda está em andamento, e, com ele, a possibilidade de novas descobertas. — Tivemos grandes surpresas ao revelar pinturas e texturas escondidas. O público encontrará um novo palacete quando tudo estiver concluído — afirma a restauradora Alice Medina. Além do restauro artístico, o projeto inclui uma modernização da infraestrutura do palacete, com atualização dos sistemas elétrico e hidráulico, melhorias no saneamento e implantação de climatização. Também está prevista a construção de um anexo com elevador, medida que amplia a acessibilidade e adaptação ao prédio. Até a conclusão, prevista para o final de 2026, o palacete seguirá sendo reconstruído com a mesma lógica que revelou seus segredos: devagar, camada por camada, como quem reaprende a olhar para o passado.
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