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Antissemitismo cresce mesmo com o fim da guerra em Gaza
Revista Oeste

Antissemitismo cresce mesmo com o fim da guerra em Gaza

O fim dos combates em Gaza, a partir da trégua de outubro de 2025, não trouxe a redução esperada nos episódios de antissemitismo. Pelo contrário. Nos meses seguintes, entre outubro e dezembro de 2025, foram registrados 588 incidentes, acima dos 492 contabilizados no mesmo trimestre de 2024. O dado, obtido por pesquisadores da Universidade de Tel Aviv, aparece no relatório anual sobre o estado do antissemitismo no mundo, divulgado nesta semana. A pesquisa revela também um aumento expressivo de agressões físicas contra judeus em vários países. + Leia mais notícias de Mundo em Oeste Segundo o levantamento, quatro ataques em três continentes deixaram 20 judeus mortos em 2025, o maior número de vítimas fatais em atentados antissemitas em mais de três décadas. Em diversos países também aumentaram as agressões físicas, como espancamentos e ataques com pedras. https://www.youtube.com/watch?v=hDkeg884l1Q Apesar de o volume total de incidentes variar de país para país, o panorama geral permanece elevado. Entre as hostilidades se incluem vandalismo, ameaças verbais e ofensas nas redes sociais, Em algumas nações houve aumento moderado em relação a 2024; em outras, pequenas reduções. Ainda assim, em todo o Ocidente os números seguem muito acima dos registrados em 2022, período anterior à guerra em Gaza. Para o professor Uriya Shavit, editor-chefe do relatório de 152 páginas, os dados indicam que níveis elevados de antissemitismo podem estar se tornando parte da rotina. “Os dados levantam a preocupação de que um alto nível de incidentes antissemitas esteja se tornando uma realidade normalizada", declarou. "O pico no número de incidentes foi registrado imediatamente após o ataque de 7 de outubro, depois do qual começamos a ver uma tendência de queda, mas, infelizmente, essa tendência não continuou em 2025." Ele ressaltou, porém, que o aumento acentuado no número de casos de violência grave não é surpreendente. "A regra que se aplica a todos os tipos de crime se aplica aqui também: quando as autoridades responsáveis pela aplicação da lei são indiferentes a pequenos crimes, o resultado são crimes grandes.” Publicado desde 2001, o relatório anual da Universidade de Tel Aviv tornou-se uma das principais referências internacionais sobre o tema. O estudo reúne dados de autoridades policiais, comissões especializadas, comunidades judaicas, reportagens da imprensa e pesquisas de campo conduzidas pelos próprios pesquisadores. A publicação é realizada pelo Centro para o Estudo do Judaísmo Europeu Contemporâneo e pelo Instituto Irwin Cotler para Democracia, Direitos Humanos e Justiça. Entre os países analisados, a situação da Austrália aparece como especialmente preocupante. O país registrou uma série de agressões violentas, incluindo o massacre ocorrido durante o Chanucá (festa judaica das luzes) nas proximidades de Sydney, no qual 15 judeus foram assassinados. No total, foram contabilizados 1.750 incidentes antissemitas em 2025, ligeiramente acima dos 1.727 registrados em 2024. Em comparação com anos anteriores, o aumento é expressivo: 1,2 mil casos em 2023 e apenas 472 em 2022. O Canadá apresentou tendência semelhante. O número total de ocorrências passou de 6.219 em 2024 para 6.800 em 2025, mais que o triplo do registrado em 2022. No Reino Unido, o crescimento foi mais moderado. O país registrou 3,7 mil incidentes em 2025, frente aos 3.556 do ano anterior. Ainda assim, o patamar permanece muito acima dos 1.662 casos contabilizados em 2022. Também ali o período posterior ao fim da guerra em Gaza trouxe aumento nas ocorrências: entre outubro e dezembro de 2025 houve 1.078 registros, contra 741 no mesmo trimestre de 2024. Índices relacionados ao antissemitismo Os episódios classificados como violência grave dobraram no período, passando de dois para quatro. Outras agressões, como arremesso de pedras, diminuíram de 202 para 170, enquanto casos de vandalismo aumentaram de 157 para 217. Na França, o total de incidentes caiu de 1.570 em 2024 para 1.320 em 2025. Apesar disso, os ataques com violência física aumentaram de 106 para 126. A França é o país onde vive a terceira maior população judaica do mundo (cerca de 500 mil pessoas), atrás apenas de Israel (80% em uma população de cerca de 10 milhões de habitantes) e dos Estados Unidos (cerca de 7,5 milhões de pessoas). Leia também: "O estudante e o soldado" , reportagem de Eugenio Goussinsky publicada na Edição 318 da Revista Oeste A Alemanha registrou redução no número geral de ocorrências, de 6.560 para 5.729. No entanto, quando se observam apenas agressões físicas, a queda foi mínima: de 148 para 144. Na Bélgica ocorreu movimento inverso. O número total de incidentes quase dobrou, passando de 129 para 232. As agressões físicas também cresceram, de 27 para 32 registros. Nos EUA, os dados analisados referem-se a denúncias registradas pela polícia, o que tende a excluir episódios menores ou assédio nas redes sociais. Em Nova York, a maior cidade judaica do mundo (a região metropolitana tem cerca de 1,9 milhão de judeus), houve leve redução anual, de 344 incidentes em 2024 para 324 em 2025. Contudo, no último trimestre do ano, depois do fim da guerra em Gaza, os registros voltaram a subir, passando de 68 para 80. Chicago apresentou trajetória semelhante. O total de ocorrências caiu de 79 para 47, mas os ataques com violência física aumentaram de oito para dez. O relatório também traz críticas duras à atuação do governo israelense no combate global ao antissemitismo. Os pesquisadores defendem ainda o fechamento do ministério responsável pelo tema, argumentando que seus recursos deveriam ser transferidos para embaixadas e consulados, que manteriam contato direto com comunidades judaicas, autoridades policiais e educadores em diversos países. Um estudo inédito incluído no relatório analisou milhares de documentos judiciais e reportagens para traçar o perfil de autores de ataques antissemitas julgados entre 2020 e 2025 nos quatro países com maior população judaica, EUA, França, Canadá e Reino Unido. O pesquisador Carl Yonker, responsável pela análise, afirma que os resultados ajudam a explicar por que é tão difícil prevenir esse tipo de violência. “O estudo deixa claro por que é tão difícil prevenir ataques antissemitas", afirmou. "Uma análise de dezenas de acusações formais e decisões judiciais mostra que muitos dos agressores são ‘lobos solitários’ que não operam dentro de qualquer estrutura organizacional de direção.” Segundo ele, os agressores costumam surgir de polos ideológicos opostos: de um lado, supremacistas brancos cristãos; de outro, muçulmanos antissionistas. Entre os envolvidos há grande diversidade de idade, origem geográfica e origem étnica, embora seja comum a presença de pessoas desempregadas ou socialmente marginalizadas. O relatório também reúne dados de países com comunidades judaicas menores. No México foram registrados 70 incidentes em 2025, contra 53 no ano anterior. Na África do Sul houve queda, de 128 para 95. A Itália contabilizou 963 casos, acima dos 877 de 2024, incluindo 11 agressões físicas. No Chile os registros caíram de 51 para 27, enquanto a Espanha passou de 193 para 207. Na Nova Zelândia houve 143 incidentes, cinco deles agressões físicas. A Bulgária registrou 55 ocorrências, ante 50 no ano anterior. O ex-ministro da Justiça do Canadá Irwin Cotler foi outro a afirmar que os dados indicam uma escalada preocupante. “Estamos testemunhando não apenas uma explosão global sem precedentes nos incidentes de antissemitismo desde que auditorias começaram a ser feitas na década de 1970, mas, de forma ainda mais perturbadora, uma explosão sem precedentes de crimes de ódio que têm judeus como alvo.” Segundo ele, embora representem apenas cerca de 1% da população canadense, judeus são alvo de 72% dos crimes de ódio registrados no país. Yonker também alerta para a expansão do antissemitismo em setores conservadores nos EUA. Segundo ele, a difusão de ideias como negação do Holocausto ou admiração pelo ditador Adolf Hitler em correntes políticas tradicionais representa motivo de grande preocupação. Para o pesquisador, a influência das redes sociais torna o combate ao fenômeno especialmente difícil. No relatório constam ainda uma entrevista com o historiador Christopher Browning, um dos principais especialistas em Holocausto nos EUA e uma análise sobre manifestações de antissemitismo em sistemas de saúde de países ocidentais. O post Antissemitismo cresce mesmo com o fim da guerra em Gaza apareceu primeiro em Revista Oeste .

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