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Trem do Choro cruza a cidade e termina em festa gratuita na Zona Norte | Collector
Trem do Choro cruza a cidade e termina em festa gratuita na Zona Norte
Jornal O Globo

Trem do Choro cruza a cidade e termina em festa gratuita na Zona Norte

O cavaquinho e o bandolim anunciam o clima antes mesmo da chegada à estação. Dentro do trem, músicos transformam o trajeto em palco e antecipam o que o público vai encontrar em Olaria. Na próxima quinta-feira (23), a partir das 11h, a Praça Ramos Figueira recebe a Ocupação Reduto Pixinguinha, com programação gratuita que reúne shows, literatura, gastronomia e atividades culturais, em celebração ao Dia Nacional do Choro. A iniciativa é do Instituto Cultural Grupo 100% Suburbano. Em Ramos: Samba suburbano ganha festa com roda especial e histórica Cultura acessível: Entre livros e cinema negro, Maré vive nova fase cultural com projetos gratuitos A abertura começa no Centro, com o Trem do Choro saindo da Central do Brasil. A viagem segue até a estação Olaria/Zé da Velha, onde o cortejo continua pelas ruas do bairro até a praça. — O percurso, além de festivo, carrega um sentido simbólico, reconectar o gênero a um território que foi fundamental para sua história — diz Carlos Monteiro, integrante do Instituto Cultural Grupo 100% Suburbano. A poucos metros dali viveu por cerca de 30 anos Pixinguinha, referência da música brasileira. Foi nesse entorno que nasceram encontros marcantes entre grandes artistas. O reduto cultural que leva seu nome foi criado no dia 21 de abril de 2013, quando o primeiro Trem do Choro chegou a Olaria e fincou ali sua pedra fundamental. Na estreia, a roda reuniu músicos como o trombonista Zé da Velha, homenageado desta edição, e o cavaquinista Mestre Siqueira. A partir da esquerda: Hamilton de Holanda, Joel Nascimento e Mestre Siqueira, na edição de 2025 Divulgação/Flávio da Silveira Desde então, as rodas promovidas pelo Instituto Cultural Grupo 100% Suburbano acontecem no terceiro domingo de cada mês e transformaram a Praça Ramos Figueira em um ponto de encontro cultural. Em 2023, o espaço foi reconhecido como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Povo Carioca. A programação do dia 23 reunirá nomes como Joel Nascimento, Siqueira, Dorina e Zé Luis do Império, além de feira de arte, exposição fotográfica sobre samba e choro e atividades para crianças. No feriado de São Jorge, a celebração também incluirá feijoada. Após morte de motociclista: Prefeitura do Rio inicia substituição de juntas metálicas na Linha Vermelha Um dos destaques é o lançamento do livro “Conexões: Leopoldina, choro e samba”, às 14h. A obra, escrita por Carlos Monteiro e Claudio Jorge Soares, será distribuída gratuitamente. Serão 300 exemplares impressos destinados a escolas e bibliotecas públicas, enquanto a versão digital ficará disponível para download a partir de quinta-feira. Resultado de dois anos de pesquisa, o livro investiga como as transformações urbanas do Rio, entre o fim do século XIX e o início do XX, influenciaram diretamente o surgimento e a expansão do choro e do samba. A narrativa mostra como esses gêneros nasceram do encontro entre a música negra presente nos quintais e as práticas culturais de origem europeia. Durante a construção da obra, os autores identificaram uma forte presença suburbana nessa história, muitas vezes pouco reconhecida. — Ao pesquisar, percebemos que não faltam lugares e personagens suburbanos fundamentais para o choro, como o próprio Pixinguinha, sua casa e o bar Suvaco de Cobra, na Penha Circular, que foi um reduto importante nas décadas de 1960 e 1970 — afirma Carlos Monteiro. — Essa dissociação entre choro e subúrbio é resultado de um apagamento da memória, alimentado por um estigma que associa esses lugares apenas à carência e à violência. Após tragédia: Corte de árvores para fazer ciclovia no local onde mãe e filho foram atropelados na Tijuca provoca críticas De acordo com ele, o projeto nasce justamente como resposta a esse processo histórico. — Enquanto em outros países o subúrbio está ligado à ideia de qualidade de vida, no Rio ele foi marcado por desigualdades a partir das transformações urbanas do fim do século XIX e início do XX. A ocupação existe para combater esse olhar reduzido — afirma. Músicos e público seguem em cortejo pelas ruas de Olaria após a chegada do Trem do Choro, na edição do ano passado Divulgação/Flávio da Silveira O livro também traz histórias pouco conhecidas, como rivalidades entre comunidades removidas da Zona Sul e reassentadas na Zona Norte, além de perfis de personagens como Heitor dos Prazeres Filho. Outra curiosidade: embora a Pequena África seja frequentemente apontada como berço do samba e do choro, Monteiro lembra que muitas redes culturais fundamentais foram mantidas por mulheres e mães de santo espalhadas pelo subúrbio, responsáveis por criar espaços de sociabilidade e resistência. Era só um banho: Capivara aparece em canal da Tijuca, mobiliza moradores e subprefeitura, mas não estava em perigo; veja vídeo Monteiro também ressalta que a proposta da Ocupação Reduto Pixinguinha vai além da música e busca ampliar o entendimento de cultura como experiência coletiva. — Desde o início, pensamos cultura de forma abrangente — explica. — Com o tempo e com apoio de parceiros como a Fiocruz, esses encontros se tornaram referência para a produção criativa da região. O que queremos é promover o congraçamento comunitário, em praça pública, com arte, comida e conversa. O trajeto do Trem do Choro reforça esse movimento de reconexão. Saiba quem é a artesã agredida por agentes da Seop em Ipanema: 'Foi uma crueldade', diz ela, que relata dores e cogita ir à Justiça — A Zona da Leopoldina foi um dos grandes berços do choro no Rio. Muitos músicos viveram e tocaram ali — diz. — Como Pixinguinha morou em Olaria, o bairro concentra essa representatividade. O trem simboliza esse retorno do choro ao lugar onde ele floresceu. Ao ocupar a praça, o evento também altera a dinâmica do espaço, ainda que por algumas horas. O que costuma ser lugar de passagem se transforma em ambiente de permanência, convivência e troca, frisa Monteiro. — É uma ressignificação — afirma. — As pessoas param, se sentam, conversam. As crianças brincam. É uma forma de recuperar esse jeito de viver. Como diz Paulinho da Viola, “A toda hora rola uma história e é preciso estar atento ao movimento dos ventos”. Na Zona Norte, muitas dessas histórias ganham corpo em encontros como esse, entre rodas, música e convivência. Initial plugin text

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