Jornal O Globo
Pelo status do WhatsApp, Khivia Kiss avisa: “Você tem o hoje!”. Mas nem sempre a professora universitária defendeu essa urgência de viver. Em 2021, a perda repentina da mãe, Elsa, aos 67 anos, numa cirurgia, a deixou “sem chão”. Sentia-se culpada, revoltada e nem cogitava ir ao velório. Até que recebeu uma ligação de Glenda Agra, sua colega de doutorado e doula da morte, que a convenceu a participar da despedida e prometeu ficar a seu lado todo o tempo. — De forma doce, ela se fez presente, sem forçar ou impor nada. Orientou meus irmãos, meu marido, foi comigo até o caixão. Me senti segura. Eu precisava ver e entender que o ciclo se fechou. Beijei minha mãe, e todos os medos se foram. Transformada pela experiência, Khivia começou a terapia e foi atrás da capacitação para se tornar uma doula da morte. Pouco depois, perdeu dois irmãos e conseguiu lidar de forma mais “suave” — de um deles, vítima de câncer, pôde cuidar até o último momento. Em outro caso, cumpriu seu papel com um pequeno gesto: realizar o último desejo de uma paciente por suco de maracujá e pão de queijo. — Consigo ressignificar a perda da minha mãe cada vez que ajudo alguém que vive a mesma dor. A consciência da morte traz a gente para a vida. Sem regulamentação no Brasil, a categoria tem crescido pelo mundo, com a proposta de auxiliar pessoas sem prognóstico de cura, além de parentes e amigos, a encararem o fim e o luto com conforto e dignidade, sem tabus ou estigmas. Estimam-se, por aqui, cerca de mil atuantes. Os honorários variam por serviço prestado e especialização da contratada. Em 2023, uma associação já extinta propôs que a primeira avaliação ou cada visita, por exemplo, custasse até R$ 450. O valor está defasado. Com associações em países como Canadá, Reino Unido e Estados Unidos, entusiastas do ramo lutam para que o reconhecimento avance no país — outras doulas, as de parto, tiveram o exercício profissional sancionado em lei este mês. A atuação das doulas da morte foi tema da segunda temporada da série médica “The Pitt”, da HBO Max, em que Lena “doulou” o fim da paciente Roxie. Recentemente, a atriz Nicole Kidman revelou numa palestra que iniciou a formação após a morte da mãe, em 2024. — Ela se sentia sozinha, e havia um limite para o que a família podia oferecer. Pensei: “Quem dera houvesse pessoas no mundo que estivessem ali de forma imparcial, para oferecer consolo e cuidado” — afirmou a atriz. Perdas familiares Assim como Nicole, Glenda Agra começou a trajetória depois de uma perda familiar, o suicídio do pai. Além disso, se inquietava ao ver, como enfermeira, pacientes morrendo sem o devido acolhimento. Membro do Comitê de Enfermagem da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) e pesquisadora do tema, ela explica que as doulas da morte não executam atividades clínicas, como ministrar medicamentos ou realizar curativos. A atuação é complementar à das equipes de saúde nos cuidados paliativos, que focam o bem-estar de doentes com quadro grave e são garantidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). — Às vezes, a assistência é permeada de tecnologias duras, com protocolos e procedimentos. Falta um elemento central: sensibilidade. Após o diagnóstico, podemos orientar, mediar conflitos, ajudar em rituais e burocracias. Não nos acostumamos com a morte. Terapia e grupos de apoio ajudam a lidar com perdas. Glenda Agra ‘doulou’ a paciente Cláudia e dedicou a ela sua tese de doutorado Arquivo Pessoal As doulas da morte atuam também na seguridade social (voluntárias em presídios e ONGs) e promovem iniciativas de “educação para a morte”, como cineclubes e cursos de formação. Diretora da AmorTser, escola pioneira no Brasil e na América Latina, Tatiana Barbiere Santana diz que a proposta é discutir o ciclo da vida. — A expectativa tem aumentado, mas a qualidade de vida está precária. Muita gente morre com dor, e os profissionais encaram como um fracasso, de não conseguir salvar. O que é salvar? Uma paciente minha com câncer só queria ver a filha, com quem tinha relação conturbada. Conectei as duas, e ela morreu com a filha. O coração ficou quentinho. Tatiana lembra que as doulas da morte mediam grupos de enlutados, atuam como “personal organizer” para ajeitar a casa e as roupas de falecidos e auxiliam, como advogadas, no registro das diretivas antecipadas de vontade (documento com tratamentos que a pessoa deseja ou não receber). Já há formação para doulagem da morte de pets e suporte a tutores, cujo “luto é invisibilizado”, diz. A especialista cita “portas abertas” nos segmentos funerário e cemiterial, que têm buscado humanizar o atendimento. Tatiana integra projetos que acolhem coveiros —“guardiões de memórias” — e promovem práticas sustentáveis de enterro. Uma das mais de 450 doulas formadas pela AmorTser, Cláudia de Oliveira teve o primeiro contato com a morte ao encontrar seu passarinho na lata de lixo. Fez questão de uma despedida digna. A sensibilidade para o tema acompanhou sua trajetória profissional: por lidar com pacientes terminais, “o que ninguém queria”, chegou a ser chamada de “enfermeira pé na cova”. Antes mesmo da formação de doula, acompanhou os últimos suspiros de uma paciente que lhe avisou: a hora do adeus estava próxima. — Ela pediu para rezar e eu cantar. Mexi nos cabelos dela, dei um banho e só chamei alguém 15 minutos depois. Se a gente prepara tanto o nascimento, por que não ter esse cuidado na morte? Debate sobre a morte Cláudia decidiu estudar Psicologia para cuidar também das emoções dos pacientes e, após a “chacoalhada” da pandemia, em meio a debates com os colegas das aulas de forró, criou o Dançando com a Morte. Uma vez por mês, o grupo se reúne no Rio. Ela frisa que as doulas não vêm para “roubar” o lugar de ninguém. — Nem sempre um profissional de saúde pode passar horas ao lado de paciente que está morrendo, e a doula faz isso. Mas não somos mensageiras do mau agouro. O tabu sempre vai existir, e isso é bom, para não banalizar a morte. O que deixa a vida maravilhosa é o inesperado. Não temos controle, mas podemos planejar e ter uma “boa morte” — diz. Em nota, os conselhos federais de Enfermagem (Cofen) e Psicologia (CFP) citaram a importância da humanização no cuidado no fim da vida, com atuação de equipes multiprofissionais com base em competências técnicas, científicas e éticas reconhecidas. O Conselho Federal de Medicina (CFM) não respondeu ao GLOBO
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