Revista Oeste
“Onde não há lei, não há liberdade” (John Locke) O escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821–1881), na obra Os irmãos Karamázov , apresenta um texto fictício chamado de O Grande Inquisidor . Trata-se de uma narrativa sobre o retorno de Cristo à Terra, em plena Inquisição, na Espanha . O messias é reconhecido quando caminha entre a multidão, mas acaba preso pela própria Igreja. Encarcerado, recebe a visita do Grande Inquisidor. “Sei que vieste perturbar-nos”, diz o cardeal, ao acusá-lo de conceder aos homens a liberdade. Para o líder religioso, os seres humanos não querem ser livres, pois a liberdade traz dúvida, angústia e responsabilidade. “Amanhã mesmo te condenarei e te queimarei como o pior dos hereges.” + Leia mais notícias de Política em Oeste O advogado Rodrigo Marcial apresenta um conto parecido no livro Dossiê Moraes: o que os autos não mostram e o sistema tentou apagar . A obra foi publicada pela editora Kankei. A Constituição, segundo o jurista, toma forma humana. É a Justiça viva, plena, diante do Grande Inquisidor representado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. “Por que vieste perturbar-nos os trabalhos”, indaga o magistrado à Carta Magna, na história fictícia. “Tu apenas olhas enquanto sustentamos o peso das instituições em nossas togas. Pois sabes que nós te corrigimos sem alterar uma só de tuas letras.” Os crimes de responsabilidade atribuídos a Moraes O Ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes em sessão plenária do STF (4/9/2024) | Foto de Ton Molina/NurPhoto Nas páginas do Dossiê Moraes estão listados mais de 150 crimes de responsabilidade atribuídos ao magistrado. A ideia de escrever o livro nasceu dos casos sistematizados no site dossiemoraes.com . A plataforma recebeu mais de mil denúncias de cidadãos que estão indignados com as decisões de Moraes. Em entrevista a Oeste , o advogado conta que submeteu as acusações à rigorosa verificação. “Juntamos todas as denúncias, assinadas por mais de 68 mil brasileiros, e as levamos a Brasília”, diz o jurista. “O documento fundamentou o pedido de impeachment do ministro. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), pode pautá-lo a qualquer momento." Livro Dossiê Moraes: o que os autos não mostram e o sistema tentou apagar | Foto: Revista Oeste O livro compara as decisões do ministro com obras da literatura, do cinema, do Direito, da filosofia e das Sagradas Escrituras. Na Grécia Antiga, em 424 a.C, o político Cleon aplaudia e premiava o comediante Aristófanes enquanto este o ridicularizava nos teatros. No Brasil atual, lembra Marcial, o comediante Fugazza foi preso por piadas na internet. “A Atenas democrática compreendia que a virulência da sátira contra o poder não era uma ameaça à democracia, mas a prova de sua vitalidade.” A seguir, os principais trechos da entrevista com Rodrigo Marcial: Como surgiu a ideia de comparar o caso do humorista Fugazza com Aristófanes? No caso de Fugazza, fiz uma interpretação a partir da história. Aristófanes, na Grécia Antiga, fazia comédias que ridicularizavam o homem mais poderoso da época, Cleon — e ele assistia às peças. Estamos falando de quase 2,5 mil anos atrás. Naquele tempo, a sátira era vista como crítica legítima ao poder. Hoje, vemos um comediante sendo punido por opiniões e comentários ácidos. Foi esse contraste que me levou a traçar o paralelo. Qual é a proposta do livro ao fazer essas comparações históricas e literárias? A plataforma surgiu com um viés jurídico, como base para um pedido de impeachment . Mas o livro vai além. Sempre me incomodei com a esterilidade do Direito, distante da cultura. Então busquei na literatura, na história e até nas escrituras formas de interpretar os fatos. Não queria um livro técnico e monótono, mas algo que traduzisse essas situações para o público geral. Como surgiu a ideia de usar o “Grande Inquisidor”, de Dostoiévski? Naquele conto, Cristo volta à Terra e é preso pelo Grande Inquisidor, que o acusa de atrapalhar a ordem estabelecida. É um monólogo pesado, em que o inquisidor se coloca como alguém que sabe mais do que o próprio Cristo. Adaptei essa ideia: tirei Cristo e coloquei a Constituição; tirei o inquisidor e coloquei Alexandre de Moraes. É um recurso literário para ilustrar o conflito entre poder e limites institucionais. Como nasceu o site que deu origem ao livro? A ideia começou em 2022, quando reuni casos que, na minha visão, afrontam a Constituição. Com o tempo, passei a receber denúncias e a sistematizar tudo. Em 2025, depois de novas decisões que considerei abusivas, percebi que notas de repúdio não tinham mais impacto. Então decidi criar uma plataforma com uma listagem exaustiva de possíveis crimes de responsabilidade de Moraes. Qual é o objetivo do projeto daqui para frente? Espero a responsabilização. Ainda há uma parcela grande da população que não conhece esses casos. Muitas pessoas acreditam que tudo foi feito para proteger a democracia. O objetivo do site e do livro é justamente oferecer informação para que cada um possa avaliar o que ocorre na Suprema Corte. E há um ponto importante: um livro na casa das pessoas é muito mais difícil de censurar do que um site ou uma rede social. Como foi o processo de transformar o material do site em livro? O site reuniu os casos ao longo de cerca de seis meses. Já o livro foi escrito em três meses, com muitas madrugadas e bastante esforço. O caminho mais fácil seria simplesmente copiar o conteúdo do site, mas optei por ir além. Busquei dar forma literária às análises, acrescentar interpretações e tornar o conteúdo mais acessível para quem não é do meio jurídico. O senhor teve dificuldades para publicar o livro? Algumas editoras demonstraram interesse, elogiaram o conteúdo, mas recusaram a publicação por receio de repercussões jurídicas. Disseram isso de forma explícita. Só depois encontrei editoras dispostas a assumir o projeto. Isso mostra, na prática, o ambiente de insegurança que existe hoje. Qual foi o principal impacto do site até agora? O que mais me chamou atenção foi a adesão ampla. Pessoas de diferentes correntes políticas se uniram em torno da crítica. Não ficou restrito a um grupo específico. Até figuras fora do campo conservador compartilharam o conteúdo. Isso mostra que o tema ultrapassa divisões ideológicas e toca em uma questão mais ampla, que é o respeito a direitos e garantias. Leia mais: "Punição excessiva e impagável" , reportagem de Rachel Díaz publicada na Edição 315 da Revista Oeste O post Autor fala sobre livro que lista mais de 150 razões para impeachment de Moraes apareceu primeiro em Revista Oeste .
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