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Baterias ficam mais baratas e começam a dominar sistemas elétricos mundo afora
Jornal O Globo

Baterias ficam mais baratas e começam a dominar sistemas elétricos mundo afora

Em todo o mundo, uma onda de mega instalações de baterias está se alinhando para ser conectada às redes de transmissão neste ano — de polos de usinas solares no Texas (EUA) a pastagens no interior da Mongólia e ao local de uma antiga usina termelétrica a carvão, ao norte de Sydney (Austrália). Em alta: Em meio a abalo global, Brasil se destaca no radar de investidores internacionais Governança estatal: Magda se equilibra entre efeitos da guerra nos combustíveis e objetivos da Petrobras A queda dos custos e a crescente demanda de energia por datacenters já haviam preparado o terreno para um crescimento rápido. A guerra no Oriente Médio ajudou a acelerar a tendência, ao elevar a demanda por alternativas aos combustíveis fósseis, que ficam mais caros com a disparada nas cotações do petróleo. Conflito: Navios de cruzeiros deixam o Golfo Pérsico após breve reabertura do Estreito de Ormuz Analistas da BloombergNEF, serviço da agência de notícias sobre transição energética, já esperavam que as instalações aumentassem cerca de um terço neste ano, lideradas pela expansão na Europa, no Oriente Médio, na África e na América Latina. Esse impulso pode ser ainda maior se as interrupções no fornecimento de combustíveis que dependem da matéria-prima do Oriente Médio continuarem. Fabricante chinês vê lucro em alta Sinais dessa aceleração já estão surgindo. Um fabricante chinês de baterias previu um forte aumento no lucro do primeiro trimestre, à medida que a demanda global cresce. No Vietnã, um desenvolvedor busca aprovação para substituir um projeto planejado de gás natural liquefeito (GNL) para geração de energia por renováveis combinadas com armazenamento, citando a alta nos custos de combustível ligada à guerra. — Agora chegamos a um ponto em que, sempre que alguém pensa em investir no sistema elétrico, as baterias são uma das opções mais atraentes — disse Brent Wanner, chefe da unidade do setor elétrico da Agência Internacional de Energia. — Os sistemas de armazenamento em baterias continuarão a crescer no futuro previsível. Investimento: Weg vai construir fábrica de grandes baterias que poderão armazenar energia de fontes renováveis Em mercados inundados por energia solar e eólica — tecnologias que se expandiram significativamente desde a última crise energética, em 2022, por causa da invasão da Ucrânia pela Rússia — operadores de baterias podem comprar eletricidade quando ela está barata e vendê-la quando a demanda atinge o pico. Onde as redes antes dependiam de carvão e gás quando a produção renovável caía, a tecnologia de armazenamento agora está se tornando barata e rápida o suficiente para fazer diferença no funcionamento do sistema. Os custos médios caíram cerca de 75% entre 2018 e 2025, segundo a BloombergNEF, e devem cair mais 25% até 2035. Impacto nos sistemas elétricos Há projetos de baterias em construção grandes o suficiente para impactar o funcionamento dos sistemas elétricos. No interior da Mongólia, três grandes instalações foram recentemente ativadas com capacidade combinada de 7,4 gigawatts-hora (GWh), suficiente para rivalizar com várias grandes usinas por curtos períodos. Na Escócia, duas enormes fazendas de baterias vizinhas, no local de uma antiga mina de carvão, começarão a operar neste ano. A Austrália — maior mercado de baterias do mundo em termos per capita — oferece um vislumbre de como o boom está remodelando os sistemas elétricos. Pouco depois de um grande projeto conhecido como Waratah Super Battery ter sido parcialmente ativado em Nova Gales do Sul, no ano passado, as baterias forneceram mais energia à rede principal durante o pico da noite do que usinas a gás. O local deve estar totalmente operacional em 2026. O armazenamento também está ajudando a adiar uma esperada escassez de gás à medida que os campos domésticos se esgotam, destacando seu papel na segurança energética do país. Para investidores, um dos principais motivos pelos quais os projetos se tornaram mais atraentes é a rápida queda nos custos. Waratah, por exemplo, custaria cerca de 20% menos para ser construído hoje do que quando sua construção começou, há quatro anos, segundo Nick Carter, CEO da Akaysha Energy, dona do projeto. — Se você tivesse o mesmo projeto hoje, a economia seria significativamente melhor — disse ele, mesmo com os fortes retornos do Waratah não deixando “nenhum arrependimento”. O papel da China No centro do boom global de armazenamento de energia está o papel da China na produção desses equipamentos. Anos de investimento em sua cadeia de suprimentos de veículos elétricos criaram um excesso de baterias, reduzindo os preços e inundando os mercados globais. Pioneirismo: Cemig inaugura primeira planta de energia solar com sistema de baterias em Minas Gerais O país responde pela grande maioria da capacidade global de fabricação, bem como por cerca de metade das instalações de baterias em escala de rede existentes. Isso se deve em parte a uma exigência de 2021, que obrigava projetos renováveis a incluir armazenamento de energia — a regra foi posteriormente revogada. O padrão espelha o ciclo da indústria solar após 2021, quando o aumento da demanda desencadeou uma onda de investimentos que levou ao excesso de oferta, queda de preços e, finalmente, adoção em massa, segundo a consultoria Trivium China. O que chama atenção é que a queda nos preços das baterias está ocorrendo mesmo com o aumento dos custos da maioria das outras tecnologias de energia limpa. Isso significa que a lógica econômica dos projetos está mudando rapidamente. Em meados de 2024, a australiana AGL Energy iniciou a construção de uma grande bateria em Nova Gales do Sul. Seis meses depois, aprovou outro projeto no mesmo estado com cerca de metade do custo por megawatt-hora (MWh), segundo o CEO Damien Nicks. Rapidez na construção faz diferença Nos Estados Unidos, a velocidade de construção é um fator importante. Datacenters do Texas ao Tennessee estão recorrendo à energia solar combinada com baterias, porque usinas tradicionais não podem ser construídas com rapidez suficiente, já que a escassez de turbinas e gargalos na rede atrasam cronogramas. Perto de Memphis, no Tennessee, a empresa de inteligência artificial xAI, de Elon Musk, instalou fileiras de baterias Megapack, da Tesla, em sua instalação de supercomputação Colossus, para gerenciar apagões e picos de demanda elétrica. Espera-se que as baterias respondam por mais de um quarto da capacidade recorde de geração que os EUA devem adicionar em 2026, segundo a Administração de Informação de Energia. — Muitas pessoas ainda veem a história das baterias como uma tecnologia de energia limpa — disse Jeff Monday, diretor de crescimento da Fluence Energy Inc. — Vimos uma evolução. A tecnologia de baterias agora é vista como construção de resiliência da rede. Novas tecnologias Essa dinâmica também está dando origem a uma nova classe de tecnologias além do íon-lítio, projetadas para estender o armazenamento de horas para dias. Empresas como a Form Energy estão propondo baterias capazes de manter datacenters funcionando durante escassez prolongada, substituindo efetivamente o fornecimento da rede. Diferentemente das células de íon-lítio, a tecnologia da Form depende da oxidação do ferro para armazenar e liberar energia por até 100 horas, 25 vezes mais do que a maioria das baterias conectadas à rede. Na Europa, o desafio é diferente. Uma rápida expansão de energia eólica e solar está pressionando redes que não foram projetadas para grandes variações na oferta, aumentando a volatilidade dos preços e forçando operadores a desligar sistemas quando a geração supera a demanda — o chamado curtailment, problema que também afeta o setor elétrico do Brasil. Só a Alemanha deve perder € 3,7 bilhões (US$ 4,4 bilhões, ou R$ 22 bilhões) neste ano devido à limitação da produção renovável. O armazenamento deve crescer rapidamente no continente, com a capacidade prevista para aumentar cerca de cinco vezes até o fim da década, segundo relatório da Aurora Energy Research. Efeitos da guerra As oscilações de preços de energia provocadas pela guerra no Irã aumentam as receitas de arbitragem e reforçam o argumento para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, segundo a BloombergNEF. — Diante do aumento dos preços do gás com a guerra no Irã e das flutuações gerais do mercado, o armazenamento pode servir como proteção contra a volatilidade dos preços de energia, que está se tornando mais frequente — disse Allison Feeney, analista de armazenamento de energia da Wood Mackenzie. — Isso vai revolucionar a forma como nossa rede opera, quando atingirmos altos níveis de penetração. A tecnologia também está ganhando força em outros lugares. A Índia acelerou seus leilões de projetos de armazenamento enquanto corre para equilibrar um sistema elétrico que recebe mais energia renovável variável. O Brasil também está preparando seu primeiro leilão para baterias em escala de rede. No Egito, a maior instalação híbrida de energia solar e baterias da África foi parcialmente ativada no início deste ano e deve estar totalmente operacional em meados do ano. A dependência da China O avanço, porém, não ocorre sem limitações. Grande parte da indústria ainda depende da cadeia de suprimentos da China, criando vulnerabilidades à medida que tensões geopolíticas aumentam e tarifas comerciais dos EUA entram em vigor. Embora os EUA agora tenham capacidade de produzir 100% de seus sistemas de armazenamento internamente, segundo relatório de março da US Energy Storage Coalition, os equipamentos chineses ainda são mais baratos que os componentes fabricados nos EUA. Implantar baterias em grande escala também exige enfrentar os mesmos gargalos do setor elétrico em geral. Atrasos na conexão à rede, obstáculos regulatórios e regras de mercado em evolução podem desacelerar projetos, mesmo com a demanda em alta. — Para instaladores na Europa, o hardware representa talvez apenas 50% do custo, mas também há custos de conexão à rede e instalação — disse Eva Zimmermann, pesquisadora sênior da Aurora. Taxas de juros mais altas, resultantes de perturbações de preços ligadas à guerra, também podem complicar a viabilidade econômica de projetos intensivos em capital. Ainda assim, mesmo com essas limitações, poucos esperam que o boom das baterias desacelere. Carter, da Akaysha, que começou sua carreira em petróleo e gás antes de migrar para renováveis, vê o atual impulso se estendendo bem além desta década: — A demanda por energia está aumentando, datacenters estão entrando em operação, mais renováveis estão sendo construídas, o carvão está saindo. Quando você combina tudo isso, a necessidade de armazenamento cresce.

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