Jornal O Globo
Os chamados looksmaxxers — em sua maioria homens heterossexuais obcecados com a própria aparência —, que passaram a dominar as redes sociais com seu vocabulário de gírias e vídeos com legendas praticamente indecifráveis, parecem ter abandonado completamente a ideia de relacionamentos. Pressão arterial: Estes são os nove vegetais que ajudam a reduzi-la e os motivos para consumi-los Osteopenia: perda de densidade mineral óssea afeta 40% dos adultos; aqui está o que você precisa saber Incels de nova geração, formados no niilismo da era Donald Trump, pouco socializados por causa da pandemia e radicalizados pela “machosfera” — são obcecados em melhorar a aparência por qualquer meio necessário. Falam de estética como destino e da atratividade (debatida com extrema minúcia) como medida do valor humano. Braden Peters, streamer de 20 anos conhecido como Clavicular, tornou-se a grande estrela do movimento. Ele afirma ter começado a injetar esteroides aos 14 anos para melhorar o físico, experimentou metanfetamina para suprimir o apetite e promove a técnica de bater no próprio rosto com um martelo (chamada de “bonesmashing” no vocabulário dos looksmaxxers, e há vídeos dele fazendo isso) para acentuar as maçãs do rosto e criar uma mandíbula mais definida. Mas com qual objetivo? Em um desabafo, Clavicular descreveu sua vida como um “inferno”, mas disse que precisava fazer looksmaxx para “lidar com o fardo que as mulheres no atual mercado de relacionamentos hipergâmico” colocaram sobre ele. Mais recentemente, confessou que saber que poderia fazer sexo com uma mulher talvez fosse melhor do que o ato em si. “Economiza muito tempo”, disse. Não seria absurdo se perguntar se os looksmaxxers são obcecados pelo sexo oposto ou se têm medo dele. Ao focarem em si mesmos e se afastarem de experiências reais, os looksmaxxers intensificam a forma como a Geração Z encara o romance — ou a ausência dele. Essa geração atingiu a maioridade em um ambiente social fragmentado, com normas de cortejo em colapso — um cenário que tornou o sexo assustador, o namoro difícil de entender e substitutos para a intimidade facilmente disponíveis. Para muitos, a pornografia online foi uma introdução precoce ao sexo, estabelecendo o distanciamento emocional e o antagonismo de gênero como padrão. O movimento #MeToo, apesar de sua importância, também gerou ansiedade generalizada entre jovens. O isolamento social imposto pela Covid durante seus anos de formação tornou quase impossível praticar habilidades de relacionamento no mundo real, e o crescimento dos aplicativos de namoro garantiu que os jovens da Geração Z continuassem a enxergar possibilidades românticas através do celular, mesmo que preferissem o contrário. Conselhos de internet Os pais também tiveram um papel, incentivando os filhos a priorizar educação e desempenho, mas negligenciando orientações sobre amor. E, online — onde passam uma parcela cada vez maior do tempo — conteúdos de relacionamento feitos para gerar indignação e “conselhos” polarizados ocuparam esse espaço. Influenciadores no TikTok, Instagram, YouTube e plataformas de streaming oferecem alertas sobre pessoas com muitos parceiros sexuais, explicações sobre a importância do “body count” (número de pessoas com quem alguém já se relacionou) e os perigos de “pagar pau” (ser excessivamente atencioso ou submisso a alguém que não tem interesse), criando categorias inteiramente novas para classificar e julgar potenciais parceiros. Some-se a tudo isso uma sensação mais ampla de instabilidade e ansiedade em relação ao futuro e ao próprio lugar no mundo, enquanto caminhos tradicionais para estabilidade e status parecem cada vez mais distantes. Dentro dessa lógica, faz mais sentido voltar-se para si mesmo do que se tornar vulnerável e realmente tentar encontrar o outro. Nos homens, isso passa a se manifestar como uma espécie de autoaperfeiçoamento autocentrado — uma forma de exercer controle e, ao mesmo tempo, evitar o sexo oposto por medo, o que acaba se expressando em ressentimento e misoginia. As mulheres são reduzidas a “foids” (abreviação de female humanoids, no jargão dos looksmaxxers) — melhor insultá-las do que se envolver com elas. E as mulheres, por sua vez, estão se afastando do físico, celebrando o desejo e a idealização em vez de relacionamentos presenciais, descentralizando os homens e romantizando a própria vida de forma individual. Na edição mais recente da revista The Point, a escritora da Geração Z Mana Afsari relatou ter encontrado homens com essa mentalidade em uma festa em Washington: “Eles tiveram as férias para buscar oportunidades na vida real, mas os discursos de gênero que ofereciam conforto eram mais gratificantes, ou familiares, do que a chance de conhecer mulheres reais e receptivas. Em vez disso, falavam de mulheres abstratas, arquétipos que haviam visto online, que inevitavelmente os machucariam. Em vez de esclarecer padrões ou criar expectativas no amor, o discurso online se apoiou em décadas de guerra de gênero para deixar a Geração Z estranha entre si, com medo e sozinha”, diz ela. Mais sozinhos Diversos estudos mostram que os jovens estão namorando menos, tendo menos relações sexuais e formando menos parcerias. Uma pesquisa com jovens adultos, feita pelo Institute for Family Studies e pelo Wheatley Institute da Universidade Brigham Young, constatou que apenas 30% dos entrevistados estavam realmente namorando, apesar de cerca de metade demonstrar interesse em ter um relacionamento. Eles apontaram falta de confiança no que os pesquisadores chamam de “capacidade de se sair bem em um namoro”: menos de 40% se consideravam atraentes para potenciais parceiros ou se sentiam confortáveis em falar sobre seus sentimentos. Apenas cerca de um quarto se sentia confiante para abordar alguém ou para manter uma atitude positiva após frustrações amorosas — como rejeição, um encontro ruim ou um término. Se essas tendências continuarem, um em cada três adultos hoje com 20 anos nunca se casará, contribuindo para uma epidemia de solidão que já é marcante nessa geração. Para os jovens adultos, o romance se transformou em algo a ser debatido, teorizado e otimizado — mas não necessariamente vivido. À medida que a Geração Z se volta para dentro de si enquanto finge focar no outro, a distância entre os sexos aumenta mais. * Emba é colunista de opinião e autora de “Repensando o Sexo: Uma Provocação”.
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