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São Jorge: o santo guerreiro que virou símbolo de fé, resistência e identidade no Rio | Collector
São Jorge: o santo guerreiro que virou símbolo de fé, resistência e identidade no Rio
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São Jorge: o santo guerreiro que virou símbolo de fé, resistência e identidade no Rio

São Jorge: Conheça a história do santo que faz o Rio parar e lota feijoadas pela cidade Padroeiro de países em diferentes continentes e venerado por milhões de pessoas ao redor do mundo, São Jorge é um santo global — mas é no Rio de Janeiro que ele se torna multidão. Celebrado nesta quinta-feira (23), o Dia de São Jorge deve levar milhões de fiéis a igrejas, capelas, terreiros, bares e ruas da cidade, em uma devoção que mistura fé, cultura popular, samba, feijoada e resistência. A programação vai além das missas. Há circuito de feijoadas, rodas de samba e homenagens espalhadas por vários bairros. Mas é em Quintino, na Zona Norte, que a fé atinge seu ápice. Só na tradicional alvorada, a partir das 5h, a expectativa é reunir mais de 600 mil pessoas. Ao longo do dia, o número pode chegar a 1,6 milhão de devotos. Segundo a tradição cristã, São Jorge teria sido um soldado do Exército Romano, nascido na Capadócia — região que hoje faz parte da Turquia — e martirizado no século IV por se recusar a abandonar a fé cristã durante as perseguições do imperador Diocleciano. A história atravessou os séculos cercada de lendas, sendo a mais famosa a do santo que derrota o dragão, símbolo do mal. Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça É essa imagem do guerreiro que ajuda a explicar a força de São Jorge entre os fiéis. “A popularidade de São Jorge envolve os mitos que o colocam combatendo o dragão. Mas o dragão muda conforme a vida de quem acredita. Pode ser a violência, a pobreza, a doença, a injustiça. A rigor, São Jorge combate todos esses dragões”, explica o historiador Luiz Antonio Simas. Igreja de São Jorge, em Quintino, Zona Norte do Rio, nesta terça-feira (23) Nathália Castro / TV Globo Conhecido entre os fiéis por atender pedidos e conceder graças, São Jorge é alvo de devoção e promessas que atravessam gerações. Para muitos, a fé no santo está diretamente ligada a histórias de superação e conquistas pessoais. "Em 2005, minha esposa teve complicações na gravidez. Naquele momento, fiz uma promessa: se meu filho nascesse com saúde, eu realizaria uma festa de agradecimento por dez anos. Com a intercessão de São Jorge, tudo correu bem — e a promessa foi cumprida. A celebração, que inicialmente seria por uma década, acabou se estendendo por 14 anos, reunindo uma legião de cerca de 400 a 500 devotos." Rodrigo Carvalho e Aline Fialho são devotos de São Jorge Arquivo pessoal Reconhecido mundialmente como protetor de soldados, cavaleiros e escoteiros, São Jorge é padroeiro de países como Inglaterra, Geórgia, Etiópia, Líbano e Portugal. No Brasil, também ganhou forte ligação com o futebol — o Corinthians o escolheu como padroeiro, e sua sede, em São Paulo, se chama Parque São Jorge. No Rio de Janeiro, a devoção ultrapassou o campo religioso e virou marca cultural. Sambistas adotaram o santo como protetor, sua imagem virou camisa, tatuagem, música, livro e até tema de novela. O cantor Zeca Pagodinho, devoto declarado, diz que o santo está presente no dia a dia. “São Jorge está sempre com a gente. Nas caminhadas, nas noites, nas manhãs”, afirma Zeca. Desde 2008, o dia 23 de abril é feriado estadual — o Rio é a única capital brasileira com essa folga dedicada a São Jorge. Em 2019, ele foi reconhecido oficialmente como padroeiro do estado. Entre os fiéis, histórias de cura e proteção se repetem — pessoas que atribuem ao santo a superação de doenças graves e momentos-limite da vida. ✝️Sincretismo religioso A força de São Jorge no Rio também passa pelo sincretismo religioso. Durante décadas, o culto às religiões de matrizes africanas foi proibido no Brasil. Para resistir, orixás foram associados a santos católicos. Assim, São Jorge passou a ser sincretizado com Ogum, orixá do ferro, da guerra, da tecnologia e do trabalho. No Mercadão de Madureira, um dos maiores centros comerciais religiosos do estado, abril é o mês mais movimentado do ano. A procura por imagens de São Jorge e Ogum dispara. “Os dois têm muita saída. Tem gente que vem pelo santo católico, outros pelo orixá. Mas no dia 23, São Jorge Guerreiro é campeão”, conta a comerciante Conceição da Silva. Essa convivência entre crenças é celebrada tanto por lideranças religiosas quanto pela Igreja Católica. “São Jorge é de todos. Ele conversa com todas as religiões”, afirma o padre Celso Copetti, capelão da Igreja de São Jorge, em Quintino, que considera a data “a maior festa religiosa do Rio” — e sonha que ela se torne a maior do Brasil. A tradição da feijoada no Dia de São Jorge também nasceu nos terreiros. O feijão representa o grão da terra, a força do trabalho e da sobrevivência — valores ligados a Ogum. Com o tempo, a feijoada saiu dos quintais e ganhou os bares, especialmente no subúrbio carioca. “São Jorge é um santo muito da rua, dos botequins”, resume Simas. Entre altares improvisados nos bares, bandeiras vermelhas e brancas, samba no fundo e pratos de feijoada na mesa, São Jorge segue sendo mais do que santo. No Rio, ele é identidade, proteção e esperança cotidiana — um guerreiro que luta, todos os dias, ao lado do seu povo. Artistas que são devotos do Santo Guerreiro A fé em São Jorge também é compartilhada por muitos nomes conhecidos do público. Artistas como Zeca Pagodinho, Jorge Ben Jor, Regina Casé, Giovanna Antonelli, Seu Jorge e Alcione já declararam sua devoção ao Santo Guerreiro, seja em músicas, homenagens públicas, figurinos ou na presença constante nas celebrações do dia 23 de abril. No universo artístico, São Jorge inspira canções que viraram hinos, personagens de novelas, símbolos usados no corpo e no palco, além de rituais pessoais de proteção e agradecimento. "São Jorge representa caminho, representa luz”, resume o cantor Xande de Pilares. A imagem do cavaleiro que vence o dragão atravessa a arte brasileira e reforça a ligação entre fé, cultura popular e identidade. ⛪ Quais são as igrejas de São Jorge As principais igrejas dedicadas a São Jorge na cidade do Rio de Janeiro estão localizadas no Centro e em Quintino Bocaiúva. Embora existam 25 capelas ou templos dedicados ao santo guerreiro em toda a cidade, os pontos de maior devoção são: Igreja Matriz de São Jorge em Quintino Bocaiúva é a mais popular e a única paróquia oficialmente consagrada apenas ao santo na cidade. A paróquia é famosa pela tradicional Alvorada de São Jorge no dia 23 de abril. Alvorada de São Jorge na igreja dedicada ao santo em Quintino, na Zona Norte do Rio Reprodução/TV Globo Santuário de São Jorge e São Gonçalo Garcia fica no coração do Saara, esta igreja histórica do século XVIII foi recentemente reconhecida como santuário oficial dedicado a São Jorge. É um ponto de fácil acesso para quem está no centro comercial da cidade. Confira os endereços: Igreja Matriz de São Jorge — na Rua Clarimundo de Melo, 769, em Quintino, Zona Norte; Santuário de São Jorge e São Gonçalo Garcia — na Rua da Alfândega, 382, Centro; Paróquia São Jorge — na Rua Adolfo Konder, 141, Realengo, Zona Oeste; Capela de São Jorge — na Rua Eng. Roberto Magno de Carvalho, 77, Deodoro, Zona Norte  Capela São Jorge na Paróquia Santa Luzia — na Avenida das Lagoas, 12, Gardênia Azul, Zona Sudoeste  ✍23 curiosidades sobre o Santo Guerreiro 1 - Pouco se sabe do Jorge antes de virar santo. Mas historiadores acreditam que ele nasceu por volta do ano 280 na Capadócia (Turquia) e foi morto em 23 de abril de 303, em Lida (Israel). 2 - Ele se alistou no Exército do Império Romano e logo foi promovido a capitão. Ascendeu a tribuno, a ponto de integrar a guarda pessoal de Diocleciano. 3 - Diocleciano era pagão e exigiu a execução de cristãos. Jorge se revoltou e, diante do imperador, declarou sua fé em Cristo. Acabaria preso, torturado e morto por decapitação. 4 - Histórias de sua força e coragem se espalharam pela Europa. Nos séculos 6 e 7, já havia padres o mencionando. Jorge se tornou referência para mártires cristãos. 5 - Jorge também virou símbolo de exércitos e de conquistas na Espanha (contra os mouros), em Portugal (contra os espanhóis) e na Inglaterra (contra os vikings e os franceses). 6 - E o dragão? Essa é uma das lendas de São Jorge e surgiu quase mil anos após a morte dele. Uma cidade na Líbia era assolada por uma criatura num pântano. Para saciá-lo, habitantes entregavam cabritos e até jovens — até que uma princesa foi escolhida para o sacrifício. Jorge veio e matou o monstro. 7 - E a Lua? Uma versão dessa mesma história diz que a batalha contra o dragão do pântano se estendeu pelo firmamento até a Lua. As crateras lunares seriam rastros da contenda. 8 - A inspiração em batalhas europeias elevou Jorge a padroeiro de Portugal e da Inglaterra. Os lusos o têm como santo de devoção desde 1385. Dom João I diz que Jorge intercedeu contra o Reino de Castela. Não por acaso, Lisboa tem no alto de uma de suas colinas as ruínas do Castelo de São Jorge. 9 - O rei Eduardo III fez dele o padroeiro da Inglaterra em 1350. As faixas vermelhas sobre o fundo branco da bandeira inglesa representam “George”. A Union Jack, pavilhão do Reino Unido, é a sobreposição das cruzes de São Jorge, de São Eduardo (Escócia) e de São Davi (Gales). 10 - Então, pense duas vezes ao apelar para São Jorge quando a Seleção topa com o English Team, porque o Guerreiro é padroeiro deles também. 11 - Quase todos os serviços funerários da família real britânica são realizados na Capela de São Jorge, lugar histórico no Castelo de Windsor — onde a rainha Elizabeth II morou e agora está enterrada. 12 - O príncipe Harry e Meghan Markle também se casaram lá, em 2018. São Jorge, então, abençoou a união dos agora nem tão “reais”. 13 - E não é preciso lembrar que o santo é cultuado pelo Corinthians — vide o Parque São Jorge — e pela Gaviões da Fiel. 14 - Ainda sobre a Inglaterra: reza a lenda que William Shakespeare nasceu e morreu num 23 de abril. O bardo também pôs o padroeiro em sua obra. Em “Henrique V”, William descreve um grito de guerra contra os franceses: “Deus combata por Henrique, Inglaterra e São Jorge!” 15 - Jorge também acabou adotado por ferreiros, cuteleiros e barbeiros portugueses da Irmandade de São Jorge de Lisboa, fundada no século 14. Quase 200 anos mais tarde, com a vinda da Corte para o Rio, o culto a São Jorge, de quem Dom João VI era devoto, cresceu muito, assim como a tradição do patrono dos ferreiros. 16 - Na tradição nagô e iorubá, Ogum também é cultuado pelos ferreiros. Com a diáspora africana, surgiram semelhanças entre o orixá dos escravizados e o santo dos colonos, e o sincretismo começava a fluir. 17 - A mistura de santidades não é unânime no Brasil. Leonel Monteiro, presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia, afirma que os escravizados perderam todas as liberdades possíveis e passaram a cultuar suas divindades de forma disfarçada, durante celebrações de santos católicos. “O sincretismo é consequência da escravidão, assim como o racismo religioso”, sustenta. 18 - O professor e historiador Luiz Antônio Simas contrapõe. “A guerra aproxima Ogum e São Jorge. Mas a metalurgia e os cultos secretos dos iniciados nos mistérios do ferro e das lâminas dos cutelos, fazedores de faca, pode perfeitamente ser o elo no cruzo entre o santo e o orixá”. 19 - O historiador e pai de santo Guilherme Watanabe lembra ainda que o culto aos santos católicos por parte de religiões africanas “é anterior à própria diáspora”. Alguns reinos da África Central foram reinos católicos que incorporaram a religião cristã”, ensina. 20 - O Vaticano retirou São Jorge do santoral oficial da Igreja Católica em 9 de maio de 1969. Muita gente achou que a Santa Sé tinha “cassado” o santo. “Na falta de notícias sobre a sua vida, a Igreja mudou sua celebração: de festa litúrgica passou a ser memória facultativa”, alega. 21 - Na época, muitos padres tiraram as imagens de Jorge e levaram para casa. Como o povo não engoliu essa, o guerreiro acabou voltando aos altares com o passar dos anos. 22 - São Jorge foi um dos tantos santos enaltecidos pelo Papa João Paulo II nas celebrações do Jubileu em 2000. Isso foi visto por observadores como uma espécie de reabilitação oficial. 23 - Cassado ou não, Roma segue considerando Jorge o “padroeiro dos cavaleiros, soldados, escoteiros, esgrimistas e arqueiros”. E quase todo carnaval bate ponto na Sapucaí, como no desfile da Vila Isabel em 2022.

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