Jornal O Globo
Seria possível que os famosos rituais vikings tenham começado antes mesmo dos vikings? Uma descoberta recente no norte da Noruega está levando arqueólogos a reverem uma das narrativas mais consolidadas sobre o passado escandinavo. Sob o túmulo de Herlaugshaugen, na ilha de Leka, pesquisadores encontraram 29 rebites de ferro e fragmentos de madeira que datam de cerca de 700 d.C., um período anterior ao que se considerava o início dos sepultamentos monumentais em navios na região. A descoberta, divulgada no início de abril por estudos publicados na Nature News e na revista Antiquity, indica que essas práticas podem ter surgido pelo menos um século antes do estimado. Um túmulo que reescreve a cronologia Com mais de 60 metros de diâmetro e até 12,5 metros de altura, o monte de Herlaugshaugen é um dos maiores da Noruega. A análise por radiocarbono dos materiais encontrados, incluindo madeira aderida aos rebites e camadas de carvão, situou o sepultamento entre 656 e 774 d.C. A dimensão e a estrutura do sítio indicam que o navio enterrado tinha mais de 20 metros de comprimento, sugerindo um ritual altamente elaborado. Para os pesquisadores, isso revela não apenas a existência precoce desses enterros, mas também uma sociedade já hierarquizada, com capacidade de mobilizar recursos e mão de obra em larga escala. Poder e prestígio antes da Era Viking A descoberta reforça a ideia de que elites centralizadas e redes de poder estavam estabelecidas na Escandinávia antes do período tradicionalmente associado aos vikings. A construção de um túmulo desse porte, segundo os especialistas, exigiria coordenação política e social significativa. Além disso, a localização estratégica de Leka, com acesso facilitado às rotas marítimas do Atlântico Norte, sugere que a região funcionava como ponto de conexão entre diferentes povos, favorecendo trocas comerciais e culturais. Influências além-mar O achado também aproxima a Escandinávia de outras tradições funerárias do norte da Europa. Monumentos como Sutton Hoo, na Inglaterra, apresentam semelhanças nos rituais, indicando que ideias e símbolos circulavam entre essas regiões muito antes do que se imaginava. Essa conexão reforça a hipótese de que as rotas marítimas não eram apenas vias comerciais, mas também canais de difusão cultural. Assim, práticas funerárias monumentais podem ter se desenvolvido de forma paralela e interligada em diferentes sociedades do Mar do Norte. No fim, o túmulo de Herlaugshaugen não apenas amplia a linha do tempo dos rituais vikings, ele redefine o próprio conceito de quando e como essa cultura começou a se formar.
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