Vogue Brasil
O imaginário coletivo sempre associou a criação de empresas à juventude. Startups disruptivas, founders na casa dos 20 e 30 anos, energia inesgotável… Mas a realidade dos números vem mostrando um movimento transformador: as mulheres acima dos 50 anos estão moldando o futuro do empreendedorismo. Dados recentes do Global Entrepreneurship Monitor (2024/25) mostram que o crescimento do empreendedorismo feminino segue acelerado — especialmente entre mulheres de 45 a 64 anos. No Brasil, levantamento do Sebrae indica que o empreendedorismo por oportunidade aumenta após os 45, refletindo um movimento de reinvenção profissional impulsionado pela longevidade. Nos Estados Unidos, o movimento parece estar mais consolidado, segundo dados de 2024 da Kauffman Foundation , que apontam que a faixa de 55 a 64 anos já lidera a criação de novos negócios. “Esse fenômeno vem crescendo por várias razões, mas a principal é que nesse determinado momento da vida, essa mulher, que sofre duas linhas de barreiras, que é o sexismo e o etarismo, encontra dificuldade em estar inserida no mercado corporativo. Então, a saída para ela é empreender”, analisa Cléa Klouri, especialista em longevidade e estudos estratégicos da Economia Prateada, e cofundadora do Data8, hub de pesquisa, tendência e inovação. A maturidade como vantagem competitiva O mercado ainda insiste na relação inovação e juventude, mas pesquisas apontam que não é bem assim. Um estudo recente da Harvard Business Review e do National Bureau of Economic Research mostrou que fundadores na faixa dos 50 anos criam startups de alto crescimento duas vezes mais do que os na faixa dos 30. Pesquisas do MIT, por sua vez, mostram que fundadores de 50+ têm maior probabilidade de contratar estrategicamente e construir negócios duradouros. E a explicação é simples: a maturidade acaba se traduzindo em repertório, redes de contato sólidas, credibilidade e capital humano acumulado. Isso se mostra ainda mais forte quando colocamos uma lupa no empreendedorismo feminino. “A natureza da mulher é ser uma empreendedora de nascença. Ela administra a casa, a família, cuida para que haja interligação entre todos, fazendo uma gestão intergeracional… À medida que as demandas familiares vão diminuindo, ela canaliza essa energia produtiva e criativa para outras áreas”, diz Cléa. É a médica que decide abrir uma clínica própria após décadas em grandes hospitais; a executiva que transforma experiência corporativa em consultoria estratégica; a profissional liberal que identifica carências no mercado de consumo maduro e cria soluções inovadoras. “É um processo praticamente natural.” A especialista ainda ressalta dois pontos importantes: no Brasil, as mulheres continuam sendo maioria no ensino superior. Dados do Censo da Educação Superior 2024 (amostra mais recente) mostram que elas representam cerca de 60% dos estudantes matriculados. “Então, estão muito preparadas quando passam dos 50 anos. O outro ponto é a saúde. Como a mulher tem uma rotina de cuidados ao longo da vida, ela envelhece melhor, de forma mais saudável. Sem falar da saúde social, que são as amizades, a rede de apoio. Tudo isso as deixam mais preparadas para continuar atuando em alta performance”, pondera Cléa. São esses movimentos que estão redefinindo não só quem empreende, mas para quem se empreende. Empreender para um mercado que também envelhece O crescimento da população 50+ no Brasil e no mundo amplia ainda mais esse fenômeno. São mulheres maduras criando empresas para atender um público que compartilha suas experiências, seus desejos e suas dores. Ao abrir negócios que dialogam com bem-estar, saúde, finanças, consumo consciente e longevidade, essas empreendedoras estão não apenas ocupando espaço, mas criando novos segmentos de mercado. Ao pavimentar esse caminho, estão mostrando que o futuro dos negócios pertence a quem encontrou uma forma de transformar isso em sabedoria estratégica. O fato é: empreender aos 50 não é mais exceção, é tendência. E empresas e investidores que continuarem presos ao paradigma de que apenas a juventude é sinônimo de inovação perderão oportunidades valiosas de crescimento e impacto.
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