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A diversidade saiu do discurso, mas estaria saindo também das passarelas? | Collector
A diversidade saiu do discurso, mas estaria saindo também das passarelas?
Vogue Brasil

A diversidade saiu do discurso, mas estaria saindo também das passarelas?

Hoje eu estava lendo na Vogue Business o “Relatório de Inclusão de Tamanhos Outono/Inverno” do mês de março deste ano, aliás recomendo a leitura para todos, e me dei conta de que, apesar de avanços pontuais, como a presença de modelos mid e plus size em marcas relevantes como Balenciaga e Givenchy, os dados mais recentes da Vogue Business mostram que a diversidade de corpos nas passarelas não apenas segue marginal, como está em retração. Na temporada Outono/Inverno 2026, 97,6% dos looks foram apresentados por modelos straight size, enquanto apenas 2,1% foram mid-size e 0,3% plus size, uma queda significativa em relação à temporada anterior e o menor nível registrado em três anos. Em choque, concluí que o retrocesso de diversidade e inclusão que tenho acompanhado em grandes empresas desde 2025 pode ter chegado também às passarelas. E não falamos apenas de corpos magros ou gordos, mas também de outros aspectos. Segundo a Essence no artigo “Representação na Passarela: de Ícones ao Tokenismo”, modelos negros são somente 6% dos modelos nos desfiles. Selecionar uma imagem O mais relevante é que o problema não está na ausência de modelos, mas nas decisões das próprias marcas e na limitação dos tamanhos produzidos, e do que segue sendo considerado, ou não belo. O que evidencia um desalinhamento entre discurso e prática. Em um contexto de crescente conservadorismo estético e valorização de corpos cada vez mais magros, brancos, normativos a inclusão, quando acontece, surge de forma isolada e perde força. Difícil compreender, uma vez que somente no Brasil, segundo estudo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX), estima-se que o mercado de moda plus size movimenta cerca de R$ 6 bilhões anualmente. E segundo estudo do Instituto Locomotiva com a Feira Preta negros têm um poder de consumo de R$ 1,9 trilhão por ano. Ou seja, evidentemente não se trata necessariamente de quem tem dinheiro para comprar, ou qual o público alvo, mas de um padrão hegemônico do que é considerado sonho de desejo ou consumo. Assim, mas marcas seguem com um paradoxo entre o que dizem ser, o que gostariam de ser e o que fazem na prática. Esse movimento revela um ciclo vicioso que a própria indústria ajuda a sustentar. Marcas frequentemente alegam responder à demanda do consumidor, mas, na prática, são elas que definem o que é aspiracional, desejável e visível. Ao limitarem corpos, tamanhos e narrativas nas passarelas e nos produtos, moldam o imaginário coletivo, que por sua vez retroalimenta exatamente esses mesmos padrões. Não se trata, portanto, de falta de mercado, mas de falta de decisão. Se a diversidade não se traduz em produto, escala e consistência, ela deixa de ser estratégia e passa a ser narrativa; e é justamente isso que venho há anos chamando de diversitywashing (lavagem da diversidade), termo que cunhei e registrei no INPI para nomear o uso da diversidade como discurso sem transformação real. O que está em jogo não é apenas estética, mas decisão de negócio, alocação de recursos e coragem de liderança. A indústria da moda e, por extensão, todas as empresas precisam escolher se continuarão tratando a inclusão como tendência passageira ou se assumirão seu papel na construção de um mercado que represente, de fato, a sociedade que consome. O convite é claro: sair do discurso, impulsionar estruturas e transformar intenção em prática, porque diversidade não é sobre quem aparece, é sobre quem, de fato, é incluído. Revistas Newsletter Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil. Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

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