Jornal O Globo
Um militar das Forças Armadas dos EUA foi acusado de usar informações sigilosas sobre o momento da captura do então presidente venezuelano, Nicolás Maduro, para lucrar mais de US$ 400 mil (cerca de R$ 2 milhões) apostando no mercado de previsões da Polymarket, empresa que tem como um de seus investidores e conselheiros Donald Trump Jr., filho do presidente americano. As informações foram divulgadas pelo Departamento de Justiça dos EUA nesta quinta-feira. O GLOBO Responde: 'Por que, apesar de venezuelano, Maduro está sendo julgado nos EUA?' Golpes, pedágio e sanções: Como a guerra no Golfo pôs em evidência a bilionária criptoeconomia do Irã O militar Gannon Ken Van Dyke, de 38 anos, era integrante das forças especiais e estava lotado em Fort Bragg, em Fayetteville, Carolina do Norte, quando participou do planejamento e da execução da Operação Absolute Resolve, esforço militar para capturar Maduro, segundo os EUA. Promotores disseram que, por volta de 26 de dezembro, Van Dyke criou e financiou uma conta na Polymarket e começou a colocar dinheiro em previsões vinculadas à possibilidade de Maduro deixar o poder na Venezuela. Initial plugin text Ele fez cerca de 13 apostas entre 27 de dezembro e a noite de 2 de janeiro, todas assumindo posições de "SIM" em várias questões relacionadas a Maduro propostas pela plataforma, que permite aos usuários apostar no resultado de eventos do mundo real. Segundo os promotores, as questões incluíam: "Forças dos EUA na Venezuela até 31 de janeiro de 2026"; "Maduro fora do poder até 31 de janeiro de 2026"; "Os EUA invadirão a Venezuela até 31 de janeiro?" ou "Donald Trump invocará poderes de guerra contra a Venezuela até 31 de janeiro". Ao todo, Van Dyke teria apostado cerca de US$ 33 mil (aproximadamente R$ 165,8 mil) nesses cenários, obtendo lucros ilícitos de aproximadamente US$ 409,9 mil (mais de R$ 2 milhões) segundo a acusação. Ele responderá a cinco acusações, incluindo três por violar a Lei de Bolsa de Mercadorias, que pode resultar em até 10 anos de prisão, e uma por fraude eletrônica, com pena de até 20 anos. A crescente popularidade dos mercados de previsão tem gerado preocupação generalizada de que essas plataformas são vulneráveis a uso de informação privilegiada. Autoridades israelenses apresentaram acusações em fevereiro contra duas pessoas, incluindo um reservista militar, acusando-as de usar informações confidenciais para apostar na Polymarket. Democratas no Congresso dos EUA têm proposto recentemente novas leis para combater esse tipo de prática nesses mercados. EUA atacam Venezuela, capturam Maduro e retiram líder chavista do país Foto do soldado A acusação não menciona se Van Dyke participou diretamente da operação contra Maduro, mas afirma que, horas após Maduro ser capturado, uma foto de Van Dyke foi tirada e enviada à sua conta do Google, mostrando-o "no que parece ser o convés de um navio no mar, ao nascer do sol, vestindo uniforme militar dos EUA e carregando um rifle, ao lado de outras três pessoas uniformizadas". No mesmo dia da operação, Van Dyke sacou seus ganhos e enviou os valores para um "cofre" estrangeiro de criptomoedas, diz a acusação, antes de pedir à Polymarket que excluísse sua conta. "Mercados de previsão não são um refúgio para o uso de informações confidenciais ou sigilosas obtidas indevidamente para ganho pessoal", disse o procurador federal em Manhattan, Jay Clayton, em comunicado. "O réu supostamente violou a confiança nele depositada pelo governo dos EUA ao usar informações classificadas sobre uma operação militar sensível para apostar no momento e no resultado dessa mesma operação, tudo para obter lucro". Um porta-voz do escritório do procurador disse não ter informações sobre um advogado que represente Van Dyke. A Polymarket afirmou, em uma publicação na rede social X, que identificou um operador usando informações sigilosas, encaminhou o caso ao Departamento de Justiça dos EUA e que cooperou com a investigação. "Uso de informação privilegiada não tem lugar na Polymarket", disse a empresa. "A prisão de hoje prova que o sistema funciona". Van Dyke foi designado ao Comando Conjunto de Operações Especiais dos EUA, que "realiza operações especiais contra ameaças para proteger o território nacional e os interesses dos EUA no exterior". Como parte de sua função, ele assinou um acordo de confidencialidade referente a "Operações no Hemisfério Ocidental", reconhecendo que o governo dos EUA depositava nele "confiança especial" e prometendo "nunca divulgar nada" do que aprendesse. 'Regra Eddie Murphy' A Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA também apresentou uma ação civil paralela contra o militar, marcando a primeira vez que o regulador de derivativos move um caso de uso de informação privilegiada em mercados de previsão. Também foi a primeira vez que a agência utilizou a chamada "Regra Eddie Murphy" em um caso desse tipo. A regra recebe o nome do ator Eddie Murphy, estrela do filme "Trocando as Bolas", no qual personagens usam um relatório governamental roubado sobre a produção de laranja para ganhar milhões apostando em contratos futuros de suco. A Polymarket e sua principal rival, Kalshi, anunciaram recentemente novas políticas para impedir o uso de informações não públicas nas plataformas. Na quarta-feira, a Kalshi informou que multou e baniu três candidatos políticos que apostaram em suas próprias eleições. Forças dos EUA simulam captura de Maduro A Polymarket tem sido alvo de críticas por oferecer contratos ligados a operações militares — algo que a maioria das outras plataformas evita, tanto por questões de segurança nacional quanto pelo risco de uso de informação privilegiada. A Casa Branca e outros órgãos do governo alertaram recentemente funcionários de que não podem negociar nesses mercados usando informações confidenciais. O presidente dos EUA, Donald Trump, foi questionado sobre a prisão e disse a jornalistas: "Vou analisar isso", acrescentando que há muito tempo tem reservas quanto a plataformas de apostas em eventos. Um dos filhos de Trump, Donald Trump Jr., é conselheiro tanto da Kalshi quanto da Polymarket e investidor na Polymarket por meio do fundo 1789 Capital, do qual é sócio.
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