Vogue Brasil
Aos 48 anos, Anderson Baumgartner, mais conhecido como Dando, é um dos principais nomes do mercado de modelos. Natural de Itajaí (SC), se mudou para São Paulo aos 20 anos e começou como booker na agência Marilyn, antes de fundar a Way Model, em 2007, que foi responsável por alavancar as carreiras de tops como Carol Trentini [que é cunhada do empresário], Alessandra Ambrosio e Ana Claudia Michels. Em 2018, criou o braço de gerenciamento de talentos da agência, a Way Star, que cuida de profissionais como Mônica Martelli e Tatá Werneck. Juliana Montesanti, fundadora da Coolab, veste jaqueta, camisa e calça MONDEPARS, e brincos e anéis HSTERN. Anderson Baumgartner, fundador da Way Model Management, usa blazer e calça MONDEPARS e camiseta COMME DES GARÇONS Vogue Brasil/ Jonathan Zamora A paulistana Juliana Montesanti, de 34 anos, faz parte de uma nova geração de managers. Começou sua carreira na Vogue como estagiária de jornalismo de moda e teve passagens pelo Grupo Veste (ex-Restoque) e Ferraz Moda, antes de criar, há sete anos, a Coolab, ao lado dos sócios Kauê Lombardi e Martin Maggio. Inicialmente fundada com foco em relações públicas, a agência atua hoje de forma multidisciplinar na gestão de talentos, na produção de conteúdo para pessoas e marcas e como agência de comunicação. Fazem parte do portfólio celebridades como Bruna Marquezine, Sasha Meneghel e Fernanda Paes Leme, e marcas como Meta, Estée Lauder e Dyson. Abaixo, confira o encontro da dupla: Dando: Ju, te conheci quando você trabalhava na Vogue, 15 anos atrás. De onde surgiu a vontade de dirigir carreiras? Juliana: Nunca tive o sonho de empreender, foi uma consequência das minhas escolhas. Comecei como estagiária na Vogue e percebi que fui me desenvolvendo no traquejo social, em lidar com as pessoas. E, quando o digital surgiu, foi algo pelo qual me interessei. Passei por várias empresas, agências, marketing de grandes marcas, sempre dentro da moda, e acabou sendo uma consequência criar algo que fosse mais a minha cara. Dando: Eu só trabalhava com modelos e, há oito anos, o Paulo Gustavo me fez ter vontade de trabalhar com talentos [hoje, a Way Model possui também o departamento Stars] e eu amei. Juliana: Quais são as principais diferenças na hora de cuidar de um influenciador ou talento e de uma modelo? Dando: São carreiras diferentes. Com a modelo, trabalhamos desde o início da trajetória dela. Ela chega com 16 anos, crua, e a gente faz todo um desenvolvimento. Uma estrela já chega enorme, com uma dimensão e uma responsabilidade gigantesca. Com a new face, evoluímos de degrau em degrau. Já uma celebridade, ela sabe muito bem o que quer, tem a carreira consolidada. Juliana: Com a internet, imagino que o papel da modelo também tenha mudado. Hoje, as mídias sociais acabam fazendo o papel do portfólio, do composite, que antes era físico? Dando: Mudou de 8 para 80. Quando comecei, falávamos: “Olha, se tu tá num set com o fotógrafo X, o stylist Y, só fala se te chamarem, só responde se te perguntarem. Entra quietinha, faz o teu trabalho e vai embora”. Hoje é o oposto, né? As pessoas querem entender o lifestyle dessa menina: o que ela ouve, come, de onde vem. Porque a gente vende imagem, desejos. Se eu vejo que aquela pessoa não tem absolutamente nada a ver comigo, eu não vou comprar o produto ou serviço que ela está apresentando. Juliana usa blazer FRANCESCA, calça LOUIS VUITTON e brincos e anéis HSTERN Vogue Brasil/ Jonathan Zamora Revistas Newsletter Juliana: Dentro do seu trabalho de estratégia com as modelos, faz parte construir um pouco dessas personas digitais? Dando: Muito! Tenho um departamento na agência para preparar pessoas para o digital e fazer conteúdo. Se uma modelo ou atriz está em um set, tenho pessoas que vão até lá produzir conteúdo para ela entregar nas próprias redes. Contribuímos para que tenham as ferramentas para suprir as necessidades deles e dos clientes, que é ter as redes movimentadas. Juliana: Quando comecei na Vogue, você já era o “Dando da Way”, que cuidava da Carol [Trentini], das grandes modelos. Você nunca perdeu esse lado muito humano e generoso. Dando: Quando comecei, em uma agência francesa, me disseram: “Anderson, você é bonzinho demais. Nesse mercado, tem que ser um pouco mais malicioso”. Pensei: “Meu Deus, o que eu respondo?”. Falei: “Cara, se o mercado me aceitar do jeito que eu sou, está tudo certo. Senão, volto para Itajaí e está tudo bem também”. Juliana: Não tem mais espaço para essa postura antiquada, né? Ficou cafona. * Dando: Comecei a Way Star como Paulo Gustavo. Eu ia cuidar dele e da Mônica Martelli, só dos dois. De lá para cá, mudou muita coisa, Paulo faleceu... Acho que a Way tem um diferencial: muita ligação com a moda. E a Coolab também. Admiro o trabalho de vocês, porque as pessoas que representam têm um lugar muito especial com moda, bom gosto e posicionamento. Juliana: Antes, cada uma dessas personalidades tinha espaços específicos: a influenciadora, a modelo, a atriz... Hoje a gente vê um overlap de funções. Como você enxerga isso? Dando: Sou a favor. A modelo pode estar na arte, a atriz pode estar na moda... Mas as pessoas têm que se profissionalizar. Não dá para se aventurar. Também não dá para tirar todas as modelos e colocar só influenciadoras, o que estava acontecendo. Mas se uma influenciadora vai fazer um desfile, tem que fazer moda de passarela. É igual a uma modelo invadir um palco de um teatro sem preparação. Todo mundo pode tudo, mas temos que entender o que estamos fazendo, por respeito aos profissionais da área. Juliana: Qual critério diferencia alguém que é o rosto do momento de alguém que veio para marcar a história? Anderson veste blazer e camisa THE ROW e calça JW ANDERSON Vogue Brasil/ Jonathan Zamora Dando: Personalidade. Sempre foi, né? Mas hoje mais do que nunca, por causa das redes. Gisele, Carol Trentini, Alessandra Ambrosio, Shirley Mallmann conquistaramtudo sem rede social. Elas estavam ali vendo o estilista pessoalmente, desfilando para ele, mostrando que eram boas, trabalhando com grandes fotógrafos. As supermodels do momento são meninas que vieram coma força das redes sociais: Kendall Jenner, Gigi Hadid, Bella Hadid. Quando elas começaram a ser chamadas para grandes desfiles e campanhas, era porque já traziam público. As redes podem ajudar esse processo a ser mais rápido, mas a modelo tem que ser boa. Aprender, se aperfeiçoar, se entregar. Juliana: Muitos diretores de elenco se pautam através disso. Buscam um número como se ele garantisse um sucesso. Dando: Já ouvi falar de diretores de casting que mandam mensagens assim: “Quero atrizes com 100 mil seguidores, no mínimo”. Juliana: E no fim é isso. Você precisa reter aquele público. Mas não necessariamente quem te segue quer ver você num outro papel. Dando: Como administrar para que o teu time tenha a tua personalidade? A Coolab e a Way têm muito do nosso DNA. Juliana: Brincamos que lá o corpo expele quem não tem uma sinergia cultural com a empresa. A melhor maneira de conseguir criar essa sinergia é sendo presente. Dando: E tu sente que às vezes tem alguém do time que se deslumbra por estar no set com a Bruna Marquezine e trata o cliente diferente? Juliana: Sim, e isso é tão difícil. Costumo me envolver no processo seletivo para essas vagas específicas de agenciamento. Mas nem sempre é garantido, tem muita gente que é muito boa de entrevista. Muita gente me pergunta: “Como é ser a empresária da Bruna Marquezine?”. Eu falo: “Eu ‘estou’ empresária da Bruna Marquezine”. O trabalho da Coolab não resume toda a minha essência, né? É parte de quem sou, mas isso não me faz melhor ou pior do que ninguém. A melhor maneira de trazer isso é estar presente e dar o exemplo. Estou sempre presente. Juliana: Qual foi uma situação que você viveu e pensou: “Nossa, o Dando de 18 anos jamais imaginaria”? Dando: Foram muitas. Imagine um menino que se apaixonou pelas supermodels aos 15 anos, que não tinha dinheiro para comprar uma revista. Fiquei melhor amigo do dono da banca de Itajaí, passava lá toda tarde depois da escola para folhear a Vogue. E nunca me esqueço daquele menino. Aí eu me vejo tipo no CFDA Fashion Awards, sentado em uma mesa como meu nome marcando o lugar, como dono da Hermès de um lado, Marc Jacobs do outro, a Donatella Versace não sei onde, a Anna Wintour na minha frente. Tenho muita gratidão por estar onde estou, por tudo que já fiz. E tu? Qual foi o momento que tu falou: “Cacete! A Juliana! Olha!”? Juliana: Ter ido com a Bruna [Marquezine] ao Oscar foi algo que me marcou. Acompanhar toda a trajetória dela e ter participado ativamente dessa construção de imagem, de carreira, e estar lá, sentada em um lugar que tem seu nome, enquanto passam todos os atores e atrizes que você mais admira... Cara, que insano. Vogue: Dando, como você vê o uso da inteligência artificial? Dando: Sou do tempo da fotografia com filme. O fotógrafo fazia uma Polaroid. Na Polaroid, se via a luz, a maquiagem, a roupa. Se estivesse tudo certo, ele clicava. Ninguém mais via aquilo, só quando fosse revelado. Saímos do analógico para o digital e com ele veio o Photoshop. E veio o peso do Photoshop. Ninguém mais tinha poros, olho escuro. Todo mundo estava modificado. E depois vieram asmulheres falando: “Não! Devolvam minhas expressões, devolvam meus poros”. Porque as outras mulheres estavam adoecendo, olhando aquilo. Juliana: Inalcançável. Dando: Logo em seguida, vieram os filtros. Psiquiatras falavam que as adolescentes estavam adoecendo porque elas não teriam nunca aquela boca, aquele olho, aquele cabelo. Fez-se uma nova campanha porque as pessoas estavam adoecendo. Aí o mundo muda com a pandemia, todo mundo quer ser visto. A mulher plus size quer ser representada. A mulher de 60 anos não quer mais comprar o produto antirrugas vendido por uma menina de 22. Mais modelos pretas, mais modelos plus size, mulheres mais velhas. A gente veio nessa onda maravilhosa, do real, do consumidor se ver. Agora tu vai sair disso para algo que não existe, com modelos criadas por inteligência artificial? * Vogue: Como lidar com um possível cancelamento dos talentos nas redes sociais? Juliana: Infelizmente, isso é uma consequência do trabalho com mídias sociais e acontece. A primeira coisa que falo para um talento quando a gente começa a trabalhar juntos é que ele precisa entender o tamanho do seu privilégio, que é diretamente proporcional à responsabilidade. Ter responsabilidade sobre o que posta, fala e compartilha, e ter humildade para reconhecer os erros. Muita gente começa jovem e sofre pressão para se posicionar sobre fatos sobre os quais não tem bagagem. É preciso levar muito a sério quais bandeiras levantar, porque você precisa sustentar aquilo para além da internet. Quando um cancelamento acontece, o primeiro ponto é juntar o máximo de pessoas na mesa, entender de onde isso vem e como se comportar. Não deixar isso te definir, mas usar como aprendizado para se posicionar melhor, com mais cautela. Sou desse time de olhar para dentro de casa e reconhecer as possíveis falhas. Dando: É muito difícil, temos muitos juízes na internet. Entendo que tem cancelamentos que a pessoa mereceu, porque foi lá e falou algo absurdo.Mas tem também o cancelamento que vem de um lugar que não prevemos, ou por consequência de outro fato. Juliana: E, às vezes, os talentos acabam sendo responsabilizados pela postura de marcas que se posicionam mal ou que têm ações controversas. Dando: Até que ponto o artista tem responsabilidade quando uma marca é cancelada? Juliana: Tem muitas propostas interessantes comercialmente, mas se você não tiver afinidade de valores, princípios e propósitos com aquela marca, em algum momento isso vai dar ruim. As pessoas pegam no ar. O consumidor está muito mais sagaz e inteligente. Dando: Obviamente, se o talento está na campanha de uma marca aparentemente “correta”, e ela sofre uma cancelamento depois da campanha já feita, ele não tem culpa nenhuma. Lá na Way, a gente pesquisa e tenta entender: com essa marca vale a pena se envolver? Ou ela acredita em princípios que são o oposto dos quais acreditamos? Senão seguimos, um beijo, está tudo certo. Juliana: O talento tem livre arbítrio, acabou essa coisa de o agente ser o tomador de decisão. Mas eu sempre tento trazer a clareza da responsabilidade, das consequências de cada escolha. Para você, até onde vai o nosso papel como agentes, até para defender os talentos deles mesmos em algumas situações? Dando: Nosso papel é ter uma conversa muito honesta e mostrar a nossa opinião. Eu sempre dou a minha opinião. “A escolha é tua, mas eu não acho coerente fazer isso.” Cada um tem vontade própria, desejo, necessidades, sonhos. Às vezes o cachê é absurdo. Eu falo: “Eu acho que não deveríamos fazer, mas vai de ti”. Se der errado, estou ali para apoiar. Mas nunca vou deixar alguém se envolver com uma imagem agressiva ou desonesta, nunca. Juliana: Daí, é hora de dizer: “Então talvez você vá sozinho”. Dando: “Nós temos caminhos diferentes.” Mas, se foi algo feito com boa intenção e deu errado, estou ali para segurar a mão e resolver os problemas. Assim como em uma crise, que acontece o tempo todo. Internet é isso. Não tem como agradar todo mundo.
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