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Entenda como o Leicester foi de campeão da Premier League à rebaixado para a terceira divisão em dez anos
Jornal O Globo

Entenda como o Leicester foi de campeão da Premier League à rebaixado para a terceira divisão em dez anos

Dez anos depois do título improvável da Premier League, o Leicester City foi do céu ao inferno no futebol inglês e amargou o seu segundo rebaixamento para a terceira divisão nacional em 142 anos de história. A queda foi sacramentada, na última terça-feira, após o empate com o Hull City por 2 a 2, no King Power Stadium, pela 44ª rodada da Championship. Com o resultado, o Leicester foi a 42 pontos, permanecendo na 23ª e penúltima colocação da Championship 2025/26, e sem a possibilidade de alcançar o Blackburn, 21º colocado e primeiro time fora da zona de rebaixamento. Outrora impensável, a queda dos Foxes é fruto de uma mistura de ambições exageradas, problemas financeiros e má gestão de seus donos. — Pode-se dizer que foram ambiciosos demais. Ainda assim, houve muita má gestão, decisões ruins, troca constante de treinadores, cada um com uma filosofia diferente. Os jogadores não foram bons o suficiente, o recrutamento falhou, e agora o clube enfrenta essa situação. Falta liderança no elenco, há jogadores que queriam sair e não conseguiram. Esse é o cenário — analisou Rob Tanner, jornalista do The Athletic, que cobre o clube inglês desde 2016. Leicester foi campeão da Premier League em 2016 ADRIAN DENNIS / AFP Após a conquista histórica da Premier League e a campanha, na temporada seguinte, que os levou às quartas de final da Liga dos Campeões, os donos do clube passaram a mirar voos mais altos e queriam bater de frente com as potências do futebol inglês. A meta era se consolidar na elite da Inglaterra e garantir presença constante na principal competição europeia. Essa ambição, inclusive, foi registrada nos relatórios financeiros nos anos seguintes ao título. Para sustentar esse projeto, o Leicester precisou aumentar significativamente seus investimentos — passou a gastar mais em contratações e oferecer contratos maiores aos atletas. O clube inglês até conseguiu manter uma equipe relevante e competitiva por alguns anos, mas esse movimento foi apenas o ponto de partida para uma enorme crise financeira. Nessa época, o time inglês teve bons resultados: terminou na quinta colocação da Premier League nas temporadas 2019/20 e 20/21, se classificando para a Liga Europa, e conquistou a Copa da Inglaterra 2020/21. No entanto, a pandemia da Covid-19 afetou enormemente as finanças do clube. Isso porque a principal fonte de renda do King Power Group, empresa proprietária do Leicester, era concentrada em lojas "duty free" nos aeroportos e, com a suspensão dos voos, o faturamento caiu drasticamente. — O Leicester passou a recompensar jogadores com contratos maiores, salários mais altos. Tentava atrair jogadores e treinadores melhores, e chegou a um ponto em que, quando contrataram Brendan Rodgers em 2019, fizeram dele o técnico mais bem pago da história do clube — afirma Rob Tanner. Mesmo com a queda de receita, o clube manteve sua política de altos gastos. Em 2022, o Leicester não vendeu nenhum ativo e ainda assim gastou muito com jogadores como, por exemplo, Patson Daka, Boubakary Soumaré e Jannik Vestergaard (foram gastos 54 milhões de libras nestas três contratações). O resultado foi um desequilíbrio financeiro e problemas com as regras de Lucro e Sustentabilidade (PSR). Quando caiu pela primeira vez para a Championship, em 2023, o Leicester tinha a sétima maior folha salarial da Premier League. Na época, teve um decréscimo de 48% na folha, mas ainda representava a maior da história da Championship. Depois de voltar à Premier League em 2023/24, o time foi novamente rebaixado na temporada seguinte. — Eles já sabiam que teriam problemas com as regras de lucro e sustentabilidade, que limitam o prejuízo permitido em um ciclo de três anos (na Premier League, cerca de 35 milhões de libras por ano, e no Championship, 13 milhões). Em certo momento, o gasto deles era 116% da receita. Gastaram demais, pagaram salários altos, e depois não conseguiram vender esses jogadores porque nenhum outro clube queria assumir esses salários — explicou Rob. O Leicester errou, sobretudo, ao não se preparar para a queda de receitas após o rebaixamento à segunda divisão. Na Premier League, os times de pior desempenho recebem entre 100 e 110 milhões de libras em direitos de transmissão, enquanto na Championship esse valor cai para cerca de cinco milhões — uma queda de quase 95%. A pá de cal foi a punição com a perda de seis pontos na Championship por descumprimento de regras financeiras. O clube infringiu as normas de lucro e sustentabilidade da liga inglesa. A sanção foi imposta por uma comissão independente, que julgou infrações que correspondem a um período de três anos e termina na temporada 2023/24. Agora, o clube acumula três rebaixamentos em quatro temporadas e se junta a Swindon Town, Wolverhampton, Sunderland e Luton Town no grupo de times que caíram da Premier League para a League One sucessivamente. A partir da próxima temporada, os clubes da League One ficarão limitados a gastar 60% de sua receita extra proveniente do futebol — como prêmios em dinheiro, ganhos em copas ou taxas de transferência recebidas — em despesas relacionadas a jogadores. Com muitos atletas ainda no clube recebendo salários astronômicos, para os padrões da terceira divisão, será difícil para o Leicester operar dentro desses parâmetros. Outro lado da moeda Enquanto isso, a ascensão meteórica do Wrexham A.F.C ajuda a enxergar ainda melhor como o ecossistema de alta competitividade do futebol inglês funciona: um lugar onde o passado pesa pouco e o presente dá as cartas na mesa. O clube, comprado em 2021 pelos astros de Hollyood Ryan Reynolds e Rob McElhenney conseguiu três acessos seguidos desde 2023 e obteve grande valorização em valor de mercado. Segundo o Bloomberg, a equipe galesa valia £100 milhões (R$ 678,18 milhões) no ano passado, cerca de 5.000% a mais do que valia há 5 anos, quando foi adquirido. Uma parte desse crescimento econônomico e aumento da relevância no cenário internacional vem da série documental “Welcome to Wrexham”, lançada em 2022. Os episódios acompanham a trajetória do time desde a 5ª divisão do futebol inglês até o momento atual. A série gerou receitas diretas de $ 3,2 milhões (R$ 16 milhões) ao clube e ampliou significativamente a base de torcedores nas redes sociais. Com lançamento previsto para maio, a 5ª temporada da série vai focar na trajetória da equipe na EFL Championship, segunda divisão do futebol inglês, onde o clube joga atualmente. Nesta domingo (26), o Wrexham, atualmente sexto colocado e dentro dos Playoffs, inicia caminho final para tentar garantir a vaga na fase final da competição. O clube de Reynolds jogará contra o Coventry City, campeão da liga e com acesso garantido para a Premier League, e contra o Middlesbrough, quinto colocado. Ao fim da EFL Championship, os clubes da terceira posição até a sexta, disputam uma vaga de acesso na Premier League. Os dois primeiros colocados conseguem vagas diretas para a primeira divisão inglesa.

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