Collector
Diretor Julio Medem relembra traumas políticos da Espanha e lamenta ascensão da extrema direita: 'Um momento terrível' | Collector
Diretor Julio Medem relembra traumas políticos da Espanha e lamenta ascensão da extrema direita: 'Um momento terrível'
Jornal O Globo

Diretor Julio Medem relembra traumas políticos da Espanha e lamenta ascensão da extrema direita: 'Um momento terrível'

Na Espanha de 1931, duas crianças de bairros vizinhos nascem no mesmo dia: Octavio e Adela. Em meio ao surgimento da Segunda República espanhola, os bebês vêm ao mundo em situações extremas, diante de complicações sofridas pelas mães e pelas mãos do mesmo médico. Este é o ponto de partida de “Oito décadas de amor”, novo filme do diretor espanhol Julio Medem, conhecido pelo trabalho em “Lúcia e o sexo” (2001). O longa integra a programação da 2ª edição do Festival de Cinema Europeu Imovision, evento que acontece simultaneamente em mais de 20 cidades brasileiras até o próximo dia 29. Taylor Swift, Bad Bunny e Drake: Spotify divulga lista de artistas e músicas mais tocados de todos os tempos 'Michael': Entre empolgação e silêncio, filhos de Michael Jackson têm reações opostas com cinebiografia do pai; entenda Em visita ao Brasil, onde participou de atividades em Niterói e São Paulo, Medem conversou com O GLOBO sobre o novo filme, que parte da relação entre seus dois protagonistas para fazer um panorama político da Espanha ao longo dos últimos oitenta anos, passando pela Guerra Civil (entre 1936 e 1939), a ditadura de Franco (entre 1939 e 1975), a redemocratização, os movimentos separatistas da Catalunha e a pandemia da Covid-19. Ana Rujas e Javier Rey em cena de "Oito décadas de amor", de Julio Medem Divulgação — Diferentemente de minhas outras histórias, comecei a escrever este roteiro de forma mais inconsciente, quase selvagem. Escrevi sobre o nascimento desses dois personagens sem saber onde iria chegar — conta o cineasta de 67 anos, que dividiu sua trama em oito capítulos, cada um retratando um momento importante da história do país e dos dois protagonistas. Desolado com a situação política na Espanha dos dias de hoje, com a ascensão de nomes da extrema direita, Medem destaca a oportunidade de revisitar a história do país como forma de mostrar para os mais jovens as mazelas de regimes não democráticos. — A Espanha vive um momento terrível, em que o fascismo ganha força e vemos muitas pessoas suavizando o franquismo. Hoje, vemos muitos jovens entre 18 e 25 anos preferindo os partidos de extrema direita. É reflexo de um trauma que não superamos. A Guerra Civil espanhola foi um movimento que acabou com famílias, em que irmão matava irmão. E foi seguida pelos anos do franquismo, que as pessoas parecem esquecer — lembra o diretor. — O cinema é importante para preservar essa memória viva e para oferecer alternativas. Sinto que a Espanha pode acabar em um lugar muito sombrio se seguirmos como estamos hoje. Por isso, no filme, prefiro não seguir esse caminho que parece natural e criar uma utopia. Me interessa mais falar de perdão e amor. Após a passagem pelo Festival de Cinema Europeu Imovision, “Oito décadas de amor” entra em cartaz nos cinemas nacionais no dia 4 de junho. Primeira vez no Brasil Apesar de visitar o país pela primeira vez, Medem tem história no Brasil. Em 1999, seu drama “Os amantes do círculo polar” foi o grande vencedor do Festival de Gramado, deixando o evento com cinco Kikitos, incluindo melhor filme latino, melhor direção e melhor filme da crítica. — Sempre fui fascinado pelo Brasil, mas esta foi a primeira vez que conseguir vir. E já quero voltar em breve — destaca o cineasta. — Sou apaixonado pelo cinema e pela música brasileira. Agora, estou em um ponto turístico (o cinema Reserva Cultural de Niterói, complexo projetado por Oscar Niemeyer), mas tenho a vontade de conhecer cenários menos turísticos, como as favelas. “Cidade de Deus” foi um filme que me marcou muito quando assisti. Adoraria visitar a favela para ver se ainda é daquele jeito que está no filme.

Go to News Site