Jornal O Globo
A citação ao coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, em um inquérito que investiga o elo de agentes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) com o Primeiro Comando da Capital (PCC) tem sido usada pela oposição como estratégia para atacar as pré-candidaturas do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que mira a reeleição, e do deputado federal Guilherme Derrite (PP), que tentará o Senado. Racha na direita: Nikolas chama Jair Renan de ‘toupeira cega’ e amplia atrito com família Bolsonaro após embate com Eduardo 'Impossível não se indignar': Janja rebate falas de aliado de Trump que chamou brasileiras de 'raça maldita' A onda de postagens alusivas ao tema nas redes sociais inclui políticos que integram a pré-campanha de Fernando Haddad (PT), principal oponente de Tarcísio nas urnas, além de uma conta oficial do partido do ex-ministro da Fazenda. Apesar disso, os envolvidos negam se tratar de um movimento coordenado. Dois dos vídeos compartilhados usam inteligência artificial para narrar o conteúdo, que critica desde o volume de furtos de celular no estado até a suspeita sobre Coutinho e o avanço do crime organizado. “Tem muita coisa errada em São Paulo. Por que quem tem a responsabilidade pela segurança dos paulistas deixou chegar a esse ponto?”, pontua uma das peças, em meio à trilha sonora de suspense. Coordenador da campanha de Haddad, o deputado estadual Emídio de Souza (PT) foi um dos mais engajados na pauta. Ele levou ao seu perfil, entre outros materiais, uma gravação que questiona a relação de Tarcísio com um empresário de funk preso na Operação Narco Fluxo. Os dois tiraram fotos juntos durante um jantar na casa do cantor Latino. “Diga-me com quem andas que eu te direi quem és”, escreveu o parlamentar. — É um tema que estamos trazendo, sim. Aumento de feminicídio, furto de celular, a destruição de uma família como a da menina que morreu baleada por uma policial. Mas não é, digamos assim, uma ação deliberada de campanha, nem em termos de bancada — pontua o deputado estadual Maurici (PT). Derrite é amigo próximo de Coutinho, que saiu da chefia da PM na semana passada para dar lugar à coronel Glauce Anselmo Cavalli, primeira mulher a assumir o posto máximo da corporação. O oficial foi instrutor do agora deputado federal e ex-secretário estadual de Segurança Pública na Academia do Barro Branco e, depois, os dois atuaram juntos na Rota. Foi na gestão de Derrite que Coutinho foi nomeado subcomandante e chegou ao topo da corporação. Na semana passada, quando o coronel deixou o posto, mas ainda não se tinha o conhecimento da citação no inquérito, Derrite agradeceu a Coutinho nas redes sociais “pelos relevantes serviços prestados à frente da instituição, contribuindo para o fortalecimento da Polícia Militar”. Um ano antes, quando assumiu o comando da PM paulista, Coutinho prometeu à tropa que seria um “comandante leal”, mas sem ser “benevolente com aqueles que transigirem nossos deveres e valores”. ‘Reputação ilibada’ Após o caso vir à tona, Tarcísio negou que a troca de comando da PM tenha sido motivada pelas menções ao coronel no inquérito. O governador defendeu o ex-comandante, que teria pedido para deixar o cargo. — O coronel Coutinho tem uma reputação ilibada, é uma pessoa que sempre prestou excelente serviço na Polícia Militar. Essas trocas são comuns. Eu acho que o coronel cumpriu muito bem o papel dele. Pelo lado de Tarcísio e Derrite, o impacto sobre a imagem do governo é minimizado. Segundo um aliado da base, com cargo de direção, uma possível implicação de um amigo do ex-secretário, mesmo que colocado por ele no principal cargo da corporação, não deve recair sobre os pré-candidatos, pois não há indiciamentos, acusações formais e “muito menos processo”. Outra figura próxima, que atuou com Derrite na Secretaria de Segurança Pública, questiona o tempo e a forma como as revelações surgiram, pois, segundo sua avaliação, o promotor Lincoln Gakiya “tinha a informação e não fez nada”. O membro do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público prestou depoimento sigiloso à Corregedoria e comunicou o comando da PM sobre vazamentos que beneficiaram o PCC. Considerado uma referência nacional em investigações envolvendo a facção paulista, Gakiya relatou ter informado pessoalmente ao ex-chefe da tropa de elite da PM sobre um vazamento na Rota que teria contribuído para a fuga do, na época, número 1 da quadrilha fora da cadeia, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta. Na mesma ocasião, o promotor teria contado a Coutinho sobre uma gravação ilegal, feita por agentes da Rota, de uma reunião com o MP, vendida posteriormente a Tuta por R$ 5 milhões. Não há informações sobre procedimentos investigativos ou outras medidas por parte do oficial após o contato de Gakiya. Segundo a Procuradoria de Justiça Militar do Ministério Público de São Paulo, Coutinho pode responder por prevaricação e condescendência criminosa, tipificações do Código Penal Militar, por não ter tomado providências e ter se omitido diante de supostas irregularidades praticadas por subordinados. O depoimento de um sargento implicado no inquérito, suspeito de prestar serviço de segurança para a Transwolff, empresa de ônibus investigada por elo com o PCC na capital paulista, também fez alusão ao ex-comandante. De acordo com esse relato, Coutinho tentou convencê-lo a permanecer na Rota mesmo depois de o superior imediato pressionar para que ele fosse transferido a outro batalhão. A acusação é do sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, preso no dia 4 de fevereiro. A defesa de Coutinho afirmou em nota que o coronel tem “absoluta idoneidade” em sua conduta à frente da tropa, alegando que ele jamais foi alvo de “qualquer processo ou investigação por irregularidades ao longo de sua trajetória profissional”. O texto diz ainda que “a mera citação em procedimento investigativo não implica, por si só, qualquer juízo de responsabilidade ou envolvimento em irregularidades, tratando-se de medida comum no âmbito de apurações preliminares”. A Secretaria de Segurança Pública declarou, também por meio de nota, que não comenta investigações em curso conduzidas pela Corregedoria, “tendo em vista o sigilo legal que recai sobre os procedimentos”, mas ressaltou que eventuais apurações “são conduzidas com rigor técnico, observância ao devido processo legal e respeito às garantias individuais” e geram as “medidas cabíveis sempre que houver indícios de desvios de conduta”.
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