Jornal O Globo
A atuação das chamadas gangues “quebra-vidros” — temida por diversos paulistanos — mudou a dinâmica de roubos de celular pela cidade de São Paulo em 2025. Locais como a Avenida Paulista, antiga conhecida dos paulistanos como epicentros desse tipo de crime, deram espaço para vias como a Avenida do Estado — com poucos pedestres e congestionamentos quilométricos — que chegou ao pódio dos roubos pela primeira vez no ano passado, com 279 ocorrências reportadas. Os dados são da ferramenta interativa Mapa do Crime, exclusiva do GLOBO, que mostra as marcas dos celulares, carros, motos e demais objetos levados pelos criminosos nos roubos da capital paulista. CLIQUE AQUI E VEJA NO MAPA DO CRIME A SITUAÇÃO DOS ROUBOS NA SUA RUA Uma investigação realizada pela polícia paulista revelou que quadrilhas especializadas em fraudes bancárias fomentam a expansão da chamada gangue do “quebra-vidros”. O inquérito foi desencadeado a partir do roubo do celular de um procurador do estado, que teve o vidro de seu carro quebrado em julho de 2025, no Viaduto do Glicério, que passa sobre a Avenida do Estado. Com base nas quebras de sigilo dos receptadores, a polícia descobriu que eles encomendavam aos ladrões aparelhos com a tela desbloqueada. A demanda por celulares prontos para serem acessados levou os criminosos a mudarem o modo como praticavam os assaltos: ao invés de abordarem pedestres com facas ou armas, passaram a quebrar os vidros dos carros e surpreender as vítimas com os aparelhos em uso. VEJA TAMBÉM O MAPA DO CRIME DO RIO Após os crimes, os aparelhos eram levados imediatamente ao QG do bando para que começasse a fase do desfalque financeiro. Já os assaltantes eram pagos com uma porcentagem do valor retirado das contas das vítimas. Num caso em que os criminosos conseguiram transferir R$ 19.800, o ladrão ficou com R$ 9.360 — e ainda reclamou do valor, queria a metade do total. Ao todo, a quadrilha causou um prejuízo de quase R$ 1 milhão a pelo menos 25 vítimas identificadas — 19 delas foram roubadas por criminosos que quebraram o vidro de seus carros. Em outubro do ano passado, seis dos integrantes da quadrilha viraram réus na Justiça de SP. A atuação das gangues “quebra-vidros” também mudou o padrão de horários de roubos de celular. Pouco mais de um quinto do total de casos registrados na Avenida do Estado em 2025 aconteceu num intervalo de apenas três horas, entre as 18h e 21h, horário da volta para casa — e de congestionamentos quilométricos, que, segundo a polícia, facilitam o trabalho desses criminosos. Já em 2023, o pico de casos na via recordista, a Paulista, acontecia entre 20h e 23h, quando o fluxo de pessoas pela via diminuía. VEJA TAMBÉM O MAPA DO CRIME DE NITERÓI Procurada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informa que trata o combate ao roubo do tipo “quebra vidro” como prioridade. Segundo a pasta, a atuação envolve “policiamento ostensivo direcionado em eixos viários críticos, análise de padrões de horário e local”, além de ações voltadas à identificação de autores reincidentes e à repressão da receptação, “especialmente quando os aparelhos são usados para golpes financeiros”, diz a secretaria. Segundo a pasta, desde 2023 as polícias civil e militar prenderam mais de 50 mil suspeitos desse tipo de crime e afirma que os roubos de celular apresentaram queda de 20% no primeiro bimestre de 2026, enquanto os roubos em geral caíram 28,6% “atingindo os menores patamares dos últimos 25 anos”. A prefeitura de São Paulo informa que a Guarda Civil Metropolitana tem intensificado as ações de patrulhamento em eixos viários da região central com objetivo de coibir modalidades como o “quebra-vidro”. O que é o Mapa do Crime de São Paulo? O Mapa do Crime de São Paulo foi produzido a partir de microdados de 330 mil boletins de ocorrência disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado. Ao contrário do Rio, São Paulo torna públicas as coordenadas e os nomes das ruas das ocorrências. O levantamento cobre roubos ocorridos entre 2023 e 2025. Diferentemente do governo paulista, O GLOBO usou a data do fato — e não a do registro na polícia. Assim, um roubo ocorrido em 31 de dezembro e registrado no dia seguinte é contabilizado no ano correto. Erros de grafia e inconsistências nos dados foram corrigidos com auxílio de inteligência artificial. Disponível no site do jornal, com acesso pelo computador, celular ou tablet, a ferramenta permite navegar por uma compilação inédita de dados de roubos na capital, com filtros sobre tipos, marcas e cores dos bens subtraídos. Para usá-la, busque o endereço da sua casa, do trabalho ou de qualquer outro ponto da cidade e escolha um dos quatro tipos de crime disponíveis: roubo de celular, de carro, de moto e de rua — esse último inclui carteiras, colares, alianças e relógios levados de pedestres. Cada ponto no mapa corresponde a uma ocorrência e, ao ser clicado, mostra detalhes do crime e dados sobre a rua: total de casos em 2025, série histórica dos últimos três anos, bens mais roubados ali e um mapa de calor com horários e dias de maior incidência. Também é possível refinar as buscas por tipo, marca e cor do bem roubado — para descobrir, por exemplo, quantos HB20 brancos foram roubados em determinada via — ou navegar por um ranking de ruas.
Go to News Site