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'Entraram dezenas de soldados com fuzis; fomos para debaixo das mesas'; leia relato de jornalista presente ao evento de Trump | Collector
'Entraram dezenas de soldados com fuzis; fomos para debaixo das mesas'; leia relato de jornalista presente ao evento de Trump
Jornal O Globo

'Entraram dezenas de soldados com fuzis; fomos para debaixo das mesas'; leia relato de jornalista presente ao evento de Trump

O jantar da Associação dos Correspondentes da Casa Branca é um evento anual que os jornalistas que trabalham em Washington sempre esperam com ansiedade. Mas esse tinha algo de especial. Pela primeira vez, Donald Trump havia confirmado presença. Até o primeiro mandato de Trump, a ida do presidente americano ao jantar era uma tradição centenária praticamente incontornável. Desde 1924, todos os presidentes compareceram pelo menos uma vez ao longo do mandato; a maioria não perdeu um único ano. Ausências foram sempre pontuais por motivo de saúde ou compromissos políticos inadiáveis. Investigação: Atirador 'tinha como alvo membros do governo' e 'possivelmente Trump', diz secretário de Justiça interino Discurso de ódio: Trump diz que suspeito de disparos em jantar de imprensa escreveu manifesto anticristão Mas Donald Trump, um presidente de relação conflituosa com a imprensa, esnobou o evento durante todo o primeiro mandato. Por isso, foi uma surpresa para toda a imprensa quando, desta vez, no primeiro ano de seu segundo mandato, Trump disse que compareceria. Havia outra novidade importante prevista para a noite deste sábado em Washington. Há 40 anos, na década de 80, nascera uma tradição dentro da tradição: um humorista passou a fazer parte do programa do jantar, convidado a satirizar o presidente na presença dele - para deleite dos jornalistas. Com Trump, dessa vez, o humorista seria substituído por um “mentalista”, alguém que “leria a mente” do presidente americano diante de todos nós. O resultado desta ousadia, por enquanto, nós vamos ficar sem saber. Suspeito 'fura' bloqueio de segurança na Casa Branca e é ferido por agentes de segurança O jantar deste sábado também foi o primeiro ao qual eu, que não faço parte da Associação de Correspondentes da Casa Branca, pude ir. A coincidência entre a data do jantar e uma viagem pessoal aos Estados Unidos combinada à gentileza de um convite da Agência de Notícias Reuters permitiram que eu pontualmente, às 19h, passasse pela recepção do Washington Hilton com um pequeno convite na mão para a checagem de ninguém. Esse foi o primeiro espanto. O Hilton é um hotel de mil quartos. O evento da associação de correspondentes previa 2500 convidados. No subsolo do hotel, agências de notícias e outros órgãos da imprensa americana organizavam badaladas festas de “aquecimento” para o jantar. À exceção de uma breve espiada de um guarda metropolitano ainda na parte externa do hotel, não foi necessário apresentar o convite. Também não houve detector de metal ou revista até a antessala do International Ballroom, o imenso salão onde ocorreria o jantar. Foi só ao chegar a este ponto que Cole Tomas Allen sentiria necessidade de acelerar o passo, atravessar correndo armado a barreira de segurança, para então ser alvejado e detido. Tiros em Washington: O que se sabe sobre disparos no jantar dos correspondentes da Casa Branca Atingido: Agente do Serviço Secreto baleado nos EUA recebe alta do hospital, diz porta-voz da agência Antes disso, no interior do International Ballroom tudo seguia o script. A presidente da Associação dos Correspondentes da Casa Banca Weijia Jiang, da CBS News, abriu o evento celebrando a Primeira Emenda da Constituição e a presença inédita de Donald Trump. O Presidente e o vice, JD Vance, tomaram seus lugares em um palco armado à frente das mesas. Uma banda performou o hino americano. Uma salada de burrata com pepino foi servida. Lideranças do governo Trump e jornalistas se misturavam em centenas de mesas justapostas no salão. Meus colegas da Globo Nova York Raquel Krahenbuhl, Deni Navarro e Anna Camanducaia estavam numa mesa com outros colegas estrangeiros que cobrem a Casa Branca. Mark Rubio, Scot Bessent, Pete Hegseth e outros integrantes do gabinete de Trump espalhados por mesas com estrelas do jornalismo americano. Na mesma mesa em que eu estava, o senador democrata por Rhode Island, Sheldon Whitehouse. Era com ele e com o diretor-executivo da Reuters, Alphonse Hardel, que eu começava a conversar sobre as eleições parlamentares americanas de novembro e a presidencial brasileira de outubro quando algo estranho aconteceu. Foi uma sequência de estampidos secos, que depois eu entenderia serem os tiros, mas que no ato me pareceram ruídos produzidos pela queda de objetos muito pesados em chão de madeira. Correria após tiros serem disparados durante jantar de correspondentes da Casa Branca em Washington Danny KEMP and AFPTV teams / AFP A dúvida de que algo grave estava acontecendo se dissipou quando dezenas de soldados armados com fuzis entraram pelo salão. Fomos todos para debaixo das mesas. Houve gritaria, mas não pânico. É ruim ver soldados de roupa camuflada apontando rifles num salão. Trump e JD Vance foram retirados do palco rapidamente. E todas as autoridades nas mesas também. O serviço secreto sabia onde estava cada um deles. Um ou mais agentes iam até a mesa, pegavam sem delicadeza no braço da autoridade e a conduziam para fora. Por cerca de meia hora ficamos apenas nós lá. Dois mil e quinhentos jornalistas. Sem saber o que tinha se passado do lado de fora do salão. Um frenesi de apuração por telefone com internet ruim. Muitos repórteres para pouca informação. Soube-se em sequência que era apenas um atirador; que era da California; que estava preso; que não havia vítimas; que talvez o evento continuasse como programado. Era a determinação do presidente. Agentes do serviço secreto fazem buscas após disparos em jantar de correspondentes Yuri Gripas/Abaca/Bloomberg Mas não deu. Àquela altura, a disrupção era grande demais para seguir o script. Foram as autoridades policiais que decretaram que o evento estava encerrado sem os discursos, sem a leitura da mente de Trump pelo mentalista, sem a palavra do Presidente, com a salada de burrata com pepino mal servida nas mesas. A presidente da Associação voltou ao palco e repetiu uma máxima do jornalismo: “Quando há uma emergência, a gente corre em direção à crise, não para longe dela.” É isso que distingue os jornalistas das outras pessoas. Do lado de fora do Hilton, depois de tudo, uma demonstração. Repórteres ainda no black-tie mandatório para o encontro, no frio de 10 graus, informando ao vivo para câmeras, microfones e telefones, um ao lado do outro, o que tinham acabado de testemunhar. Ninguém ali correu da notícia. * Ricardo Villela é diretor de jornalismo da TV Globo

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