Revista Oeste
Todos os anos nós temos a divulgação do prognóstico da temporada de furacões no oceano Atlântico, evento muitas vezes marcado por alardes, quando deveria ser apenas um indicativo de como estão as condições oceânicas e atmosféricas pelo planeta, as quais interferem no desenvolvimento de ciclones tropicais nesta bacia oceânica. Contudo, no mesmo período desta importante divulgação, também são lançados os possíveis cenários estatísticos para o Pacífico e o Índico. Claramente, as atenções ficam voltadas para o Atlântico porque vários países ficam na sua rota final, como é o caso dos EUA, uma das maiores economias do planeta, mas não podemos esquecer que esses fenômenos podem ser devastadores, especialmente quando atingem países com pouca infraestrutura para suportar a força dos ventos, água e marés, como foi o caso recente observado na ilha de Madagascar, Sudoeste do oceano Índico. O que poucos sabem é que o oceano Pacífico pode apresentar até o dobro de casos de ciclones tropicais observados no Atlântico. Eles também recebem nomes diferenciados. Se sua origem for próximo da costa dos EUA (Pacífico Nordeste), ainda receberão o nome de furacão, quando mantiverem ventos iguais ou acima de 119 quilômetros por hora (km.h -1 ; ou 64 nós, kt), neste caso, a categoria 1 (CAT-1) avaliada pela Escala de Ventos de Furacões Saffir-Simpson, adotada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM-ONU). Saindo da área Nordeste, o setor do Pacífico central até a região entre o Sul do Japão e Norte das Filipinas, será afligido pelos Tufões. Esses geralmente são ciclones tropicais de grandes proporções e chegam com mais regularidade ao máximo da escala. Essa “facilidade” deve-se ao fato principal de que uma região oceânica imensa e com atmosfera livre, apresente as condições ideais para o desenvolvimento das mais fabulosas máquinas convectivas naturais de alta complexidade que são esses fenômenos. Nesta área praticamente não existem obstáculos para a presença de grandes bolsões de águas quentes, logo ao Norte da linha do Equador, enquanto que a atmosfera pode apresentar pouquíssimo cisalhamento de vento na vertical (o sentido do vento quase não varia em altitude). Ao Sul da linha do Equador, os fenômenos são mais raros, devido ainda à influência da corrente fria de Humboldt que chega a atingir até a região central do Pacífico. Já bem para o Oeste, durante o verão do hemisfério Sul, eles voltam a ocorrer, também pegando a região ao Sul do Equador, incluindo novamente a área das Filipinas. No corredor oceânico entre o Pacífico e o Índico, alguns distúrbios tropicais, célula inicial dos ciclones tropicais, fomentarão esses fenômenos nesta conexão dos oceanos. Ao Norte da Austrália, algumas citações da literatura mais antiga chegaram a chamar os ciclones tropicais bem formados pelo nome de Willy-willy . Contudo, essa adequação regional caiu em desuso porque os Willy-willies referem-se aos redemoinhos de poeira ( Dust Devil ou Saci, aqui no Brasil), sendo este, um nome dado pelos aborígenes australianos a um fenômeno visível de vórtices simples de microescala. De qualquer forma, o Pacífico pode apresentar ciclones tropicais praticamente o ano inteiro, conforme a estação sazonal do hemisfério em questão. Finalmente chegamos ao Índico. Diferentemente dos outros oceanos, este, além de menor, concentra a maior parte da sua massa no hemisfério Sul. Por ser um oceano geralmente mais quente que os outros, ele tende a apresentar ciclones tropicais durante todo o ano. Isto ocorre devido a uma circulação mais fechada, uma conexão tropical com fluxos de Leste provenientes da região equatorial do Pacífico e por possuir apenas uma saída polar ao Sul. Contudo, há uma distribuição regional dos fenômenos, além de valores bem inferiores em ocorrências e em potência, mas não necessariamente em severidade. Embora um fenômeno possa ser menos potente, apresentando força de ventos dentro de categorias 1 ou 2, os danos podem alcançar níveis devastadores, análogos aos furacões ou tufões de alta intensidade, devido ao tipo de terreno continental, condições naturais e as habitações humanas dos países atingidos. Particularmente, na bacia do Índico, os fenômenos recebem normalmente apenas a designação de ciclones , fazendo referência direta aos ciclones tropicais. Essa “abordagem”, geralmente é justificada por eles apresentarem, na maioria das vezes, uma morfologia diferente da aparência clássica. Além de serem mais fracos, geralmente observa-se um longo período no estágio de tempestade tropical (que já é considerado um ciclone tropical). Quando passa a ter ventos análogos a um furacão CAT-1, recebe o nome de “ciclone”. Essa nomenclatura também pode ser encontrada para nomear os ciclones tropicais que ocorrem no Sudoeste do Pacífico, área oceânica adjacente à Austrália Oriental. Mesmo quando o fenômeno atingiu este estágio maduro, é possível observar que ele apresenta, às vezes, apenas duas bandas de nebulosidade em espiral e, não raramente, com falhas visíveis estruturais, ou seja, há um grande espaçamento entre as nuvens Cumulonimbus dentro das bandas que sustentam o sistema como um todo. Isto é mais visível nos ciclones que estão bem ao Sul, por exemplo, que se formam na área oceânica nas adjacências da ilha de Madagascar. O escoamento de ventos em superfície sobre o oceano Índico é um dos fatores cruciais para o desenvolvimento e posicionamento dos ciclones. Sobre o oceano, os ventos Aliseos , soprando de Leste na faixa equatorial, geralmente são menos intensos e apresentam particularidades regionais e sazonais. Durante o verão do hemisfério Norte, eles estão pouco presentes no setor Oeste do oceano Índico, e quase não contribuem para a entrada de umidade no continente africano. Entre junho a setembro, por toda a área costeira da Índia, ao Norte do Equador, eles praticamente não existem ou às vezes até se invertem, podendo esta condição se estender até ao Noroeste das ilhas da região do Sudeste asiático. Isto ocorre por causa do fenômeno da Monção Indiana, uma das maiores circulações secundárias da Terra que exerce predominância sobre a circulação de ventos neste setor equatorial, desde o mar da Arábia à baía de Bengala. Nestas condições, qualquer distúrbio que evoluir para um ciclone tropical poderá se formar e adentrar países próximos como Bangladesh e Mianmar (antiga Birmânia). Mais distante da circulação de Monções, ainda durante o verão do hemisfério Norte, no setor Leste do oceano Índico ao Sul do Equador, os ventos tendem a soprar do sentido de Sudeste para Noroeste, contornando as ilhas mais à Oeste das Filipinas, alinhando-se depois até alcançar a baía de Bengala. Neste caso, a ocorrência de ciclones é possível, dependendo da temperatura da superfície da água do mar e do cisalhamento do vento. Deve-se observar a circulação geral de ventos sobre o mar porque esta poderá conduzir ciclones tropicais bem desenvolvidos para cima da região continental. Aqui começam a entrar os outros fatores que descrevemos que podem aumentar a severidade de um ciclone do Índico que, mesmo apresentando intensidade de um furacão CAT-1, poderá transformar um país em um caos, com elevado número de óbitos, desaparecidos e grande destruição material e patrimonial. Por exemplo, podemos citar Mianmar. O país tem uma extensa faixa continental composta predominantemente de planícies, muitas vezes alagadas naturalmente pela formação de pântanos ou áreas de rizicultura. Essas regiões apresentam águas paradas, normalmente com altas temperaturas. Quando um ciclone índico se desloca, saindo do mar em sentido ao continente, seu suprimento de umidade proveniente de águas quentes, antes vindo do mar, não será cortado, pois as áreas alagadas continuarão a fornecer a umidade necessária para manter o ciclone ainda muito ativo. Este é um problema altamente preocupante, pois a intensidade do fenômeno ainda perdura por horas passando sobre o continente. Ademais, como há um predomínio de vilas de agricultores, com residências pouco robustas para enfrentar constantes e velozes ventos, a perda de vidas humanas e a destruição generalizada se tornam assustadoramente grandes. Se o ciclone apresentar maiores intensidades, o estado de devastação é total. Um exemplo ocorreu neste mesmo país entre os dias 2 e 3 de maior de 2008. O ciclone Nargis rapidamente se formou, atingindo o limiar inferior da CAT-4, com ventos de 210km.h -1 (113kt), medida estimada por observação satelital, mas adentrou o continente no dia 03/05/2008, já como uma tempestade tropical, ou seja, um ciclone bem mais fraco. Essa visão de satélite da tempestade Nargis foi obtida pelo Espectro-radiômetro de Imagem de Resolução Moderada (MODIS) a bordo do satélite Terra da NASA. Linhas irregulares de tempestades espreitam acima das outras nuvens em várias áreas, lançando sombras em nuvens mais baixas, evidência de sistemas de chuva intensa dentro da tempestade. No momento em que a MODIS adquiriu essa imagem em 03 de maio, às 10h55, horário local (4h25 UTC), o ciclone havia enfraquecido para a força da tempestade tropical. Embora a estrutura espiral ainda seja evidente, o olho é mal definido e as nuvens preenchem o espaço entre os braços espirais, caracterizando uma tempestade tropical menos intensa (Fonte: NASA, 2008) As vastas planícies de inundação apresentavam águas aquecidas naquele final da primavera do HN, permitindo que o fenômeno se mantivesse ativo por mais tempo, pois foi possível ainda observar sua estrutura espiral, mesmo sendo “apenas” uma tempestade. Com a falta de aviso preventivo mínimo para a população, o desastre só escalou. Por ser uma população basicamente rural, com habitações bastante simples, muita vegetação de porte para cair e ainda, sem aviso preventivo das “autoridades”, pois o Estado é uma balbúrdia, a destruição causada foi análoga aos seus 76 anos de guerra civil ininterrupta. Casas voaram, árvores serviram como projéteis e os campos viraram um mar. As pessoas simplesmente foram destruídas, soterradas ou afogadas. As imagens foram chocantes! Segundo as notícias da época, o número de mortos alcançou 84.500, com 54 mil desaparecidos (óbitos presumidos) e mais de um milhão de desabrigados. O governo na ocasião era composto por uma junta militar que governava a Birmânia desde 1988, mudando o nome do país no ano seguinte. Seu líder, o General Sênior, Than Shwe, foi acusado de omissão, pois recebeu as informações oferecidas pelas agências internacionais de monitoramento meteorológico de emergência, como a NOAA, de que o país seria atingido, mas não emitiu nenhum alerta geral para a população. Após o evento, ainda restringiram drasticamente o recebimento de ajuda humanitária internacional. Curiosamente, haveria um referendo popular previamente agendado para se estabelecer uma nova Constituição no dia 10 de maio (apenas sete dias depois). A junta militar não adiou o referendo, mesmo com tamanha crise nacional, mantendo o pleito no dia 10 para todo o país, exceto as áreas afetadas que o realizou no dia 24 de maio, data considerada muito próxima. Nargis, em 2008, foi um dos ciclones Índicos mais mortíferos da história recente, só perdendo para o evento de 1991, em Bangladesh que levou 143 mil pessoas a óbito. Isto mostra a diferença entre uma população preparada preventivamente e com recursos, de uma que carece de qualquer auxílio, seja um mínimo alerta antecipado. No próximo bloco trataremos da condição do oceano Índico quando é verão no hemisfério Sul. Nesta estação, a área de atuação dos ciclones tropicais vai mudando para o setor Sudoeste do oceano, atingindo as áreas adjacentes à ilha de Madagascar. É neste setor onde observamos com mais clareza as diferenças estruturais morfológicas, quando não híbridas, destes fenômenos tropicais da escala sinóptica, os quais nós classificamos por apenas “ciclones”. Até lá. Leia também: "Eleição sob suspeita" , reportagem publicada na Ediçã 319 da Revista Oeste O post Ciclones índicos apareceu primeiro em Revista Oeste .
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