Jornal O Globo
Diferentemente da maioria das capitais brasileiras, onde o roubo de celular é fomentado sobretudo pela revenda local de peças e aparelhos subtraídos, em São Paulo, o ciclo do crime é mais complexo. Investigações da Polícia Civil e do Ministério Público revelam que o mercado paulistano de receptação de celulares não abastece somente desmanches de peças e mercados populares, mas também quadrilhas especializadas em fraudes financeiras, transporte e revenda dos aparelhos para outros continentes. CLIQUE AQUI E VEJA NO MAPA DO CRIME A SITUAÇÃO DOS ROUBOS NA SUA RUA Parte considerável dos celulares roubados na capital, sobretudo os subtraídos na modalidade "quebra-vidros", são remetidos a grupos criminosos que atuam com golpes bancários e encomendam aparelhos já desbloqueados aos ladrões. Já outra porção vai parar a mais de 3 mil quilômetros do território brasileiro, enviados principalmente para países da África, da Ásia e do Caribe, onde o bloqueio do IMEI (número de identificação do aparelho) pelas operadoras de telefonia daqui não impede o uso dos celulares. Esse seria o destino de 390 celulares roubados ou furtados em diversas localidades de São Paulo encontrados por agentes da Receita Federal do Aeroporto de Guarulhos em oito malas que seriam despachadas para o Senegal, em fevereiro de 2020. Na ocasião, seis senegaleses que tentavam embarcar com eles foram presos. Desde então, já foram interceptados outros carregamentos de aparelhos que seriam remetidos, pelo aeroporto, para o Senegal e outros países como Catar e República Dominicana. VEJA TAMBÉM O MAPA DO CRIME DO RIO A dinâmica de assaltos de celulares na cidade de São Paulo vive uma transformação nos últimos anos, angariada fortemente pelo aumento de roubos de iPhones na capital. Enquanto, em toda a capital, ocorrências envolvendo aparelhos da Apple regrediram 1,8% (de 21.703 em 2024 para 21.320 em 2025), três distritos da Zona Sul estão entre os cinco de toda a cidade com os maiores aumentos de roubos de celulares da marca. É o que revelam os dados do Mapa do Crime, ferramenta interativa do GLOBO com dados inéditos sobre crimes cometidos na capital paulista. No Jardim Herculano, os casos quase dobraram: passaram de 171 para 333 em 2025. Já no Parque Santo Antônio e no Capão Redondo, os aumentos foram de, respectivamente, 63,9% e 45,4%. Neste último, foi justamente a explosão de casos com iPhones que determinou o aumento no total de roubos de celulares no distrito, uma vez que ocorrências envolvendo outras marcas despencaram: roubos de aparelhos da Samsung caíram 20,5%, e os da Motorola, 19,1%. VEJA TAMBÉM O MAPA DO CRIME DE NITERÓI Questionada pelo GLOBO sobre os aumentos de casos envolvendo iPhone nos distritos da Zona Sul, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) respondeu, em nota, que as análises estatísticas das polícias paulistas “não são estruturadas por marca ou modelo de aparelho”. “Sempre que são identificadas variações nos indicadores criminais, inclusive em regiões periféricas, há reavaliação operacional, com possíveis reforços de policiamento, ajustes no patrulhamento e intensificação de investigações, conforme a necessidade local”, diz a pasta. Sobre ações contra receptadores dos aparelhos, o delegado Daniel Borgues, da 1ª Delegacia Seccional (Centro), indicado pela SSP para responder sobre o assunto, alegou que a Polícia Civil realiza operações de supressão de pontos de comércio ilegal de componentes eletrônicos e também tem focado em mapear rotas, intermediários e organizações envolvidas no escoamento ilegal de celulares para outros países. Já a prefeitura de São Paulo informa que a Guarda Civil Metropolitana realiza ações com foco no reforço do patrulhamento preventivo, “especialmente nas zonas Sul e Leste”. O que é o Mapa do Crime de São Paulo? O Mapa do Crime de São Paulo foi produzido a partir de microdados de 330 mil boletins de ocorrência disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado. Ao contrário do Rio, São Paulo torna públicas as coordenadas e os nomes das ruas das ocorrências. O levantamento cobre roubos ocorridos entre 2023 e 2025. Diferentemente do governo paulista, O GLOBO usou a data do fato — e não a do registro na polícia. Assim, um roubo ocorrido em 31 de dezembro e registrado no dia seguinte é contabilizado no ano correto. Erros de grafia e inconsistências nos dados foram corrigidos com auxílio de inteligência artificial. Disponível no site do jornal, com acesso pelo computador, celular ou tablet, a ferramenta permite navegar por uma compilação inédita de dados de roubos na capital, com filtros sobre tipos, marcas e cores dos bens subtraídos. Para usá-la, busque o endereço da sua casa, do trabalho ou de qualquer outro ponto da cidade e escolha um dos quatro tipos de crime disponíveis: roubo de celular, de carro, de moto e de rua — esse último inclui carteiras, colares, alianças e relógios levados de pedestres. Cada ponto no mapa corresponde a uma ocorrência e, ao ser clicado, mostra detalhes do crime e dados sobre a rua: total de casos em 2025, série histórica dos últimos três anos, bens mais roubados ali e um mapa de calor com horários e dias de maior incidência. Também é possível refinar as buscas por tipo, marca e cor do bem roubado — para descobrir, por exemplo, quantos HB20 brancos foram roubados em determinada via — ou navegar por um ranking de ruas.
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