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Destaque em 'Os outros', Docy Moreira ganha projeção na TV após 40 anos de teatro e estranha se promover nas redes: 'Não sou especial por ser atriz' | Collector
Destaque em 'Os outros', Docy Moreira ganha projeção na TV após 40 anos de teatro e estranha se promover nas redes: 'Não sou especial por ser atriz'
Jornal O Globo

Destaque em 'Os outros', Docy Moreira ganha projeção na TV após 40 anos de teatro e estranha se promover nas redes: 'Não sou especial por ser atriz'

Depois de Jair Bolsonaro ser anunciado vencedor da eleição presidencial de 2018, a atriz de Belo Horizonte Docy Moreira foi pesquisar as cidades em que o político havia recebido menos votos. Uma delas era Luís Correa, no litoral do Piauí, para onde ela se mudou de “mala e cuia”. Morou lá por apenas dois meses porque apareceu um trabalho, mas tempo suficiente para arrumar como melhor amiga, numa coincidência política, uma professora chamada Dilma. Vilão em 'Os outros 3': Bruno Garcia reflete sobre 'distopia' da série e seus vídeos nas redes contra misoginia Bella Campos diz que está rica: 'E pretendo ficar mais' Esta história ilustra bem o espírito libertário desta artista mineira de 59 anos — bem diferente da personagem Domingas, uma das protagonistas da terceira temporada de “Os outros”, do Globoplay. Na série de Lucas Paraizo, cujos episódios finais entraram na plataforma na semana passada, quem aparece na tela é uma mulher fincada na terra. Viúva, ela tem uma vida marcada por traumas e solidão e dedica aos animais de seu sítio (ao ganso Ari, à cabra Dorinha, ao porco Jurandir...) o carinho e o cuidado que não consegue dar ao filho, Diego (o ator Adanilo). —Como ela passou todo o olhar, a maternidade e o amor para os bichos, com medo de olhar para a própria criação, Domingas faz essa humanização deles — diz a atriz, citando uma semelhança entre si e a personagem. — A gente vai ficando mais velha e vira louco com planta e bicho. Adotei uma cachorra na pandemia. Antes não tinha ninguém, agora tenho ela. Docy Moreira em cena de 'Os outros 3' com Adanilo Divulgação A sugestão do nome de Docy para “Os outros” veio de Marcella Bergamo, produtora de elenco da série e longa parceira profissional da diretora artística Luisa Lima. — Quando Marcella me mostrou a Docy, gostei na mesma hora — relembra Luisa. — Ela passeou com muito talento por todos os tons, da ironia ao suspense, do drama à comédia, do horror à aventura. Sempre comemoramos e nos abraçamos muito a cada cena. E Docy também se tornou logo uma musa para todos nós. Caçula de uma família de nove mulheres, Docimar (Docy é nome artístico, e a sílaba tônica está no “do”) começou a carreira ainda jovem, na cena teatral de Belo Horizonte, onde construiu a maior parte de suas quatro décadas como atriz. Na TV Globo, fez poucas participações, a principal delas em “A favorita”, novela de João Emanuel Carneiro exibida em 2008. No Canal Brasil, estrelou a série “Hit parade”, exibida em 2019. O mercado do streaming tem sido desbravado aos poucos. Em 2025, esteve no elenco de “Pssica”, da Netflix. — Aprendi o ofício no palco, como uma boa carpinteira — diz Docy. — Tenho achado maravilhosa essa distinção entre as interpretações do teatro e do audiovisual. No primeiro é completamente diferente o domínio que se tem do trabalho. No segundo, você é uma pequena parcela do que vai ser apresentado. Não é uma questão de ego, mas, no teatro, você coloca uma obra em pé e sabe tudo dela. Dentre as mais de 15 peças da carreira, ela considera a biográfica “A botocuda” como a mais importante. É uma obra em que reflete sobre si e como se moldou às expectativas da sociedade, com um título que faz referência a uma etnia indígena de Minas Gerais, de onde vem parte da sua família. — Fiz 50 anos e bateu uma crise. Um amigo falou: “Calma, vai para a sala de ensaio.” Passeis seis meses sozinha, depois com o (diretor) Guilherme Morais, criando esse espetáculo. Ali eu comecei a me ver como dona do meu nariz. E também o audiovisual se abriu para mim — diz ela, que ganhou menção honrosa de melhor atriz no Festival do Rio do ano passado por “Espelho cigano”, de João Borges, e está em “Vicentina pede desculpas”, aguardado longa de Gabriel Martins (de “Marte um”) para a Netflix. Prestes a completar 60 anos, Docy ainda estranha a forma como atores precisam alimentar redes sociais para crescer e aparecer. Antes da estreia de “Os outros”, por exemplo, tinha apenas um perfil no Instagram fechado. Hoje, já tem uma conta aberta numa espécie de portfólio digital. — Queria que o trabalho de ator ficasse longe do marketing, mas uma coisa se misturou com a outra e não tem nada a ver. É como Shakespeare falava: “Não se pode confundir a plateia, tem que sair pela porta de trás.” Hoje em dia tudo virou celebridade. Não sou especial por ser atriz, é só minha profissão — diz, antes de emendar, em tom jocoso, um sonho. —Queria fazer o AA, Atores Anônimos, mas nenhum colega topou até hoje. A artista, no entanto, não é refratária a mudanças. Se o novo sempre vem, ela está pronta para recebê-lo: —Talvez eu precise mudar. Estou começando, aos quase 60, e está muito bom. Se tem que aprender, vamos aprender.

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