Jornal O Globo
O chefe de gabinete argentino, Manuel Adorni, negou, nesta quarta-feira, ter cometido "qualquer crime" ao comparecer perante o Congresso, onde apresentou seu balanço de gestão. Adorni estava acompanhado pelo presidente, Javier Milei, um sinal de respaldo em meio a suspeitas de corrupção pelo aumento de seu patrimônio. O chefe de gabinete está há quase dois meses no olho do furacão devido a revelações sobre a compra de imóveis em operações com agiotas que omitiu e que estão sendo investigadas pela Justiça. E também por viagens familiares suntuosas e gastos que não condizem com seu patrimônio desde que assumiu seu cargo em dezembro de 2023. Ex-presidente condenada: Justiça argentina confirma ordem para apreender R$ 2,5 bilhões em bens de Cristina Kirchner, filhos e empresário 'Sem precedentes': Governo argentino barra jornalistas na Casa Rosada por suspeita de 'espionagem ilegal' — Não cometi nenhum crime e vou provar isso na Justiça — declarou Adorni ao plenário, enquanto Milei e parte de seu gabinete o aplaudiam das galerias, em uma presença presidencial incomum no Congresso. O presidente tem o defendido sem meias-palavras, mesmo apesar dos efeitos negativos para seu governo. Em meio ao escândalo envolvendo Adorni — considerado braço-direito da secretária geral da Presidência, Karina Milei, irmã do chefe de Estado —, a Casa Rosada recebeu outra péssima notícia em março: a inflação mensal atingiu 3,2%, superando a média de em torno de 2% dos últimos meses. — Os corruptos são vocês, são vocês — respondeu aos jornalistas que o abordaram quando entrou no Congresso e lhe perguntaram por que continuava apoiando Adorni. O governo de Milei, que proclamou “fazer da moral uma política de Estado”, foi sacudido por vários escândalos por suspeitas de corrupção, desde desvios de fundos para deficiência e ocultação patrimonial de vários membros do governo até uma suposta fraude milionária com a criptomoeda Libra, que respinga no próprio presidente. Nesta semana, o próprio chefe da agência arrecadadora de impostos ficou sob suspeita pela suposta omissão de bens no exterior. E o ministro da Economia demitiu seu secretário de coordenação após a descoberta de que ele não havia declarado ao fisco sete apartamentos em Miami. Nesse contexto, o habitual relatório de gestão do chefe de gabinete transformou-se em uma espécie de interrogatório com mais de 4.000 perguntas. Adorni, de 46 anos, considerou todas as acusações “tendenciosas e falsas”. — Como explica que recebe em pesos e gasta em dólares muito mais do que seus rendimentos? — perguntou-lhe a deputada de esquerda Myriam Bregman. Initial plugin text Mais cortes Em sua apresentação do relatório aos parlamentares, o chefe de gabinete ratificou que a política de austeridade e equilíbrio fiscal “é inegociável” e anunciou que continuarão os cortes orçamentários em todos os ministérios. — Eliminamos nove ministérios, 100 secretarias, 25 organismos... Hoje há 65 mil funcionários a menos no Estado. A economia anual supera US$ 2,5 bilhões (R$ 12,49 bilhões, na cotação atual) — afirmou. Adorni também admitiu que o aumento sustentado da inflação nos últimos meses é um dado negativo, mas atribuiu isso a “uma turbulência gerada pelo kirchnerismo, por empresários devedores e por alguns meios de comunicação”, mais do que a fragilidades do plano econômico. Janaína Figueiredo: O inferno astral de Milei Nos arredores do Congresso, o governo montou uma forte operação de segurança. Um punhado de aposentados realizou seu protesto habitual de todas as quartas-feiras por melhorias em seus benefícios e repudiaram o chefe de gabinete. — Estou aqui porque o povo não aguenta mais, há uma crise que nunca vivi na minha vida — disse à AFP a aposentada Ana Martínez, de 76 anos. — Adorni é um ladrão e não tem vergonha, utiliza o dinheiro do povo para viajar, é um delinquente. O caso coincide com sinais adversos: a atividade econômica caiu 2,1% em 12 meses até fevereiro e a confiança no governo recuou pelo quarto mês consecutivo, segundo a Universidade Di Tella.
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