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Falta de planejamento e de mão de obra, os entraves para o Brasil transformar transição energética em desenvolvimento
Jornal O Globo

Falta de planejamento e de mão de obra, os entraves para o Brasil transformar transição energética em desenvolvimento

Planejamento de longo prazo, fomento à inovação, ajustes regulatórios, racionalização de subsídios e formação de mão de obra são os elementos cruciais para que o Brasil transforme seu potencial na transição energética em resultados concretos para o desenvolvimento econômico. Esses elementos são também necessários para que o país alcance a neutralidade de emissões de gases de efeito estufa até 2050, compromisso estabelecido perante o Acordo de Paris e reforçado pelo Plano Nacional de Transição Energética (Plante), lançado pelo governo federal nesta quarta-feira. O país já parte de uma posição privilegiada, com abundância de recursos naturais e um alto percentual de fontes renováveis tanto na matriz elétrica quanto energética, segundo especialistas que participaram do segundo painel do evento “O Brasil como potência na energia limpa”, iniciativa do Valor Econômico e do Globo. Transformar as vantagens comparativas em competitividade, contudo, passa por olhar o planejamento do setor elétrico e de combustíveis não só pela ótica da oferta de energia, mas também pela demanda. — Hoje, com os conflitos geopolíticos em curso, os países estão olhando com mais carinho para a eletrificação, para reduzir a dependência da importação de combustíveis fósseis — diz Bruna Mascotte, senior partner na Catavento Consultoria. Embora o perfil brasileiro de emissões de gases de efeito estufa seja muito diferente em relação ao global — aqui, mudanças de uso da terra e desmatamento correspondem a cerca de 40% das emissões e energia 20%; no mundo, em média, energia responde por cerca de 70% — no Brasil a transição energética também é parte da estratégia de descarbonização, na visão de Bruna. — Podemos avançar no transporte rodoviário, em manter a alta renovabilidade do setor elétrico, entrando com baterias para lidar com as fontes intermitentes, e eventualmente termelétricas, mas sem voltar atrás no que já avançamos — diz. Os incentivos tributários e tarifários voltados a fontes renováveis, especialmente a solar, cumpriram seu papel de diversificar a matriz elétrica brasileira, antes fortemente dependente de hidrelétricas e termelétricas, mas hoje o cenário mudou. A sobreoferta de energias renováveis, sobretudo a expansão da geração distribuída (GD) de energia solar, tem causado problemas como o corte de geração (curtailment, no jargão do setor) para garantir a estabilidade da rede. Repensar incentivos Na avaliação dos especialistas, é hora de repensar e reavaliar os mecanismos de incentivo e fazer ajustes regulatórios. — Um dos problemas estruturais hoje é a legislação ter permitido uma inserção brutal de energia solar da geração distribuída. Pode soar polêmico, mas controlar a GD ou acoplar baterias são remédios importantes para regular a expansão — diz Erick Lima, diretor de Estratégia e Gestão Corporativa da Casa dos Ventos. Segundo ele, o Plano Decenal de Energia (PDE) de 2026, elaborado em 2016, previa 7 gigawatts (GW) de energia solar de geração centralizada e nada de distribuída. Passados dez anos, o Brasil gera o dobro de solar centralizada e 40 GW de distribuída. Para Clinger Barros, chefe de Energia da startup Lemon, a falta de planejamento está na raiz dos problemas recentes. Segundo ele, os Planos Decenais de Energia (PDE) e Planos Nacionais de Energia (PNE) trazem previsões sobre os rumos do setor elétrico, mas não um planejamento de longo prazo. — Não temos, nem do ponto de vista de Estado, nem de governos, qualquer diretriz nacional sobre o setor elétrico que queremos no Brasil — afirma. Falta de coordenação A falta de direcionamento e coordenação é perniciosa e afeta ainda a forma como a legislação sobre o setor se desenvolve, com “puxadinhos” que refletem interesses diversos e não uma visão de futuro para o país, na avaliação de Barros. As crises envolvendo GD e o corte de geração são exemplos disso — mesmo com o fim dos subsídios destinados à GD, fica evidente a falta de estrutura para lidar com a nova realidade da geração de energia no Brasil. — Não será mais possível falar de energia renovável sem pensar no planejamento dos data centers ou da mineração. Precisamos usar a energia que está sobrando para algum projeto de Brasil que a gente queira alcancar. No campo da inovação, o desafio atual é fomentar novos negócios que ultrapassem as portas da academia e se convertam em soluções tecnológicas palpáveis para o setor de energia. Iniciativas como o Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) — que obriga concessionárias de energia a investirem parte de sua receita líquida em projetos tecnológicos — são importantes, mas não têm sido suficientes para gerar inovação em escala. — O dinheiro que vem sendo aplicado pelas concessionárias não se reflete hoje em novos negócios. E as empresas que nascem digitalmente têm dificuldades de conseguir investidores e se sustentar — diz Barros, da Lemon. Carência de mão de obra A startup, que funciona como um marketplace de energia solar, tem cinco anos de mercado e já é considerada “longeva”, segundo os padrões de mortalidade de empresas no setor. Para Bruna Mascotte, da Catavento, o alto custo de capital no Brasil é um dos motivos que fazem a inovação ficar restrita ao ambiente acadêmico — faltam recursos e direcionamento para a pesquisa aplicada. Na prática, as empresas do setor de energia que buscam inovações acabam tendo que criar processos direcionados, como desafios de startups e iniciativas de venture capital corporativo para fomentar a inovação. — Mas não basta olhar apenas para o micro, pois fatores macroeconômicos, como a taxa de juros alta, impactam o custo de capital e são um empecilho para atrair recursos — diz. A expansão do setor elétrico e das fontes renováveis também enfrenta desafios de qualificação da mão de obra, que vão do chão de fábrica até o nível corporativo e executivo. — A carência é brutal — diz Lima, da Casa dos Ventos. A empresa, com 2 GW de parques eólicos em construção, tem recorrido à formação de profissionais de nível operacional, por meio de parcerias com o Sistema S. Entre os profissionais mais requisitados, estão os de nível técnico — eletricistas, de manutenção e de segurança. Mas faltam também engenheiros e administradores. — Diferentemente dos setores mais tradicionais, como óleo e gás, em renováveis não existem tantos profissionais à disposição do mercado — afirma o executivo. Iniciativas como o novo campus do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) no Ceará, com formação em engenharia de sistemas, devem ajudar o setor de renováveis a superar esse gargalo. O debate foi a primeira edição presencial do projeto Transição Energética, iniciativa do GLOBO e do Valor Econômico, com patrocínio da Vale.

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