Jornal O Globo
A aprovação pela Câmara dos Deputados do projeto lei que proíbe a produção e a comercialização de alimentos que envolvam a prática de alimentação forçada animal, como é o caso do foie gras, virou o prato do dia de alguns chefs do Rio. "Sofrimento animal só tem no foie gras?", questiona o chef Elia Schramm, do Babbo Osteria e Franchese, um dos mais indignados com o veto e que vê o decreto como demagogo e eleitoreiro. "Pegaram o foie gras de bode expiatório. Os frangos ficam nas granjas engordando em gaiolas até a hora do abate. E o consumo de foie no Brasil é ínfimo. Nós, os poucos chefs que servimos o produto, é que saímos prejudicados" Schramm e Villard são contra a proibilção: "maus tratos animal é só com foie 'gras'? Divulgação Para o chef Roland Villard , a decisão sobre o consumo de produtos de foie gras deveria caber ao cliente. Defende que a liberdade de escolha é um princípio essencial, especialmente em se tratando de gastronomia e cultura alimentar. "É importante reconhecer que existem preocupações legítimas em relação ao bem-estar animal. No entanto, essa discussão não pode ser só em torno do foie gras. Hoje, grande parte da produção de proteínas animais — como suínos e aves — ocorre em sistemas intensivos que também são frequentemente criticados sob o ponto de vista ético e ambiental." pondera. Focar exclusivamente no foie gras, segundo ele, pode parecer incoerente, se não houver uma reflexão mais ampla sobre todo o modelo de produção alimentar. "O debate deveria ser mais global, envolvendo transparência, condições de criação, rastreabilidade e informação ao consumidor. Restringir essa liberdade, sem abordar o conjunto da cadeia produtiva, pode abrir um precedente questionável e limitar a diversidade cultural e gastronômica." pondera João Paulo Frankenfeld, da Casa 201, uma estrela Michelin acha que se fosse na França, o efeito seria uma bomba, "é um ingrediente bastante relevante, já aqui, nem tanto. Usei bastante também, mas está saindo muito caro e hoje, estou cada vez mais usando produtos brasileiros. Se a lei passar, não puder usar mais, é vida que segue. Não fará muita diferença na minha cozinha" . Flávia Quaresma: já provou foie gras produzido sem sofrimento animal Divulgação Flávia Quaresma, chfe Cordon Bleu, com formação francesa, vê com preocupação o veto, mas admite que é uma questão delicada e sensível " porque tocamos no bem estar animal e é uma tristeza pensar nesse sofrimento". Mas acena com novidades. "Já existem produtores abrindo mão da alimentação forçada. As aves engordam naturalmente consumindo azeitonas, figos, ervas silvestres e cúrcuma que dá uma coloração. E o fígado aumenta de tamanho de forma natural. Provei e gostei" O decreto, aprovado ontem na Câmara dos Deputados, segue agora para sansão presidencial. Caso seja aprovado, o Brasil será o segundo país da América da Sul a vetar consumo e produção do produto. Na Argentina já vigora a proibição.
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