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Luisa Lima e os seis anos dentro de "Os Outros": "Acompanhar esses personagens é acompanhar a mim mesma" | Collector
Luisa Lima e os seis anos dentro de
Vogue Brasil

Luisa Lima e os seis anos dentro de "Os Outros": "Acompanhar esses personagens é acompanhar a mim mesma"

Luisa Lima entrou na TV Globo como assistente de direção há mais de duas décadas. Passou por O Rebu, Justiça, Onde Nascem os Fortes, séries que moldaram sua linguagem antes de ela ocupar, pela primeira vez, o lugar de diretora artística em Onde Está Meu Coração. Foi ali, numa história sobre dependência química protagonizada por Leticia Colin, indicada ao Emmy Internacional pela atuação, que ela entendeu o que queria dizer com o seu trabalho. Os Outros, que estreou no Globoplay em 2023 e chegou agora à terceira temporada, é o desdobramento mais ambicioso dessa descoberta. A série, escrita por Lucas Paraizo, saiu de um condomínio de classe média no Rio para um de casas milionárias e chegou, nesta nova fase, ao interior: uma comunidade serrana onde Cibele (Adriana Esteves) e Marcinho (Antonio Haddad) tentam reconstruir a vida após fugirem com o dinheiro do cassino de Sérgio (Eduardo Sterblitch). O cenário mudou; a espinha dorsal, não. "A mudança de ambiente mostra como a intolerância e os conflitos sociais estão em toda parte", diz Luisa à Vogue Brasil. "Assim como o indivíduo carrega consigo seus segredos, traumas, dilemas e está sujeito aos imponderáveis acontecimentos da vida." Para ela, a fuga de Cibele para o campo não é apenas uma virada narrativa, é consequência de uma lógica que a série persegue desde o início: personagens que escapam de si mesmos e, no entanto, chegam ao mesmo lugar. "Cibele e Roberto se encontram com forte identificação. Ambos se sentem perdedores e tentam uma nova chance na vida." São seis anos dentro desse universo. E Luisa fala sobre esse tempo com a precisão de quem acompanhou, de perto, uma transformação que é também a sua. "Acompanhar esses personagens é acompanhar a mim mesma, os atores, nosso país e o mundo nesse período de tempo", reflete. "Todos nós nos desenvolvemos e crescemos enquanto pessoas, artistas e realizadores ao longo dessas três temporadas." Um caso que ela destaca com particular cuidado é o de Antonio Haddad, que interpreta Marcinho desde os 16 anos e hoje tem 20. A referência que vem à cabeça é Richard Linklater. "Admirei Linklater pelo Boyhood, que atravessa a história de uma família com passagens de tempo da infância à juventude de um filho. Os atores em fases muito diferentes de vida encarnando esses personagens. É muito rico." Luisa Lima Divulgação Esse mergulho prolongado nos personagens, ela explica, satisfaz algo que vai além da direção. "Satisfaço um pouco o desejo de ser cientista social e terapeuta. É uma espécie de estudo aplicado, uma viagem profunda sobre como um indivíduo se transforma e reage diante de acontecimentos que envolvem intolerância, violência, amor, separação, desemprego, trauma, medo, dilemas afetivos e morais." O que interessa a Luisa não é o julgamento, mas a observação. Esse olhar ela atribui, em parte, a Onde Está Meu Coração. "Me estimulou a olhar para o outro e para mim mesma com menos, ou sem, julgamento moral. Esmiuçar as contradições e as ambivalências humanas, em face ao que se deve ser diante das regras e papéis sociais e o que de fato somos ou conseguimos ser." A construção dessa linguagem própria também passou pela experiência coletiva de Histórias (Im)possíveis, projeto em que ela dividiu o set com outras diretoras e trabalhou sobre temas como racismo, etarismo e uberização pela perspectiva da mulher. "Foi um encontro entre muitas mulheres, pautado pela diversidade e com intercâmbio entre artistas de diferentes regiões, etnias, classes sociais, ofícios", ela conta. "Compreendi melhor meu papel enquanto artista brasileira e mulher no audiovisual e na cultura como um todo." Nomes como Renata Martins, Grace Passo e Everlane Moraes ficaram marcados nesse processo. A trajetória entre o trabalho colaborativo e o voo solo deixou marcas distintas. "Dirigir um projeto, dar os primeiros passos na linguagem, em encontro com os próprios desejos estéticos, é uma experiência que me possibilita mais autoralidade", ela avalia. "Por outro lado, a responsabilidade gigante, o mergulho vertiginoso, o volume de trabalho e o desejo do sucesso também provocam muito sofrimento e tensão." O prêmio APCA, conquistado já na primeira temporada de Os Outros, não alterou essa equação. "O prêmio legitima e fortalece, mas é bom esquecer dele e nunca perder o frescor, as incertezas, a coragem e a humildade. Sem deixar de arriscar jamais." Luisa Lima Divulgação Revistas Newsletter Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

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