Jornal O Globo
A Polícia Civil de São Paulo apura a utilização do heliponto do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, por um empresário investigado por lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) e preso neste ano por tráfico de drogas. O caso ocorreu em março de 2022, no último mês da gestão do então governador João Doria, e ganhou novo desdobramento nos últimos dias após mensagens revelarem um suposto pedido de dinheiro para a liberação do pouso. Entenda: Investigado por atuação para o PCC usou heliponto do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de SP, em 2022 A apuração do GLOBO mostrou que o local foi usado por João Gabriel de Melo Yamawaki, apontado pelos investigadores como um dos principais operadores financeiros da facção. Após desembarcar no heliponto do palácio, ele seguiu para o estádio do Morumbi, a menos de um quilômetro dali, para assistir a um jogo entre São Paulo e Palmeiras. Segundo a investigação, quem conseguiu a autorização para o pouso foi o ex-vereador de Santo André Thiago Rocha de Paula, também preso e apontado como articulador político da organização criminosa. De acordo com mensagens obtidas pelo portal Metrópoles, a negociação durou menos de seis horas e incluiu um pedido de pagamento. “Quero mais dois mil reais caralho”, escreveu Thiago a Yamawaki às 14h33 de 10 de março de 2022, poucas horas depois de receber o pedido para viabilizar o uso do heliponto. A mensagem foi enviada logo após a confirmação da autorização, por meio de um e-mail assinado pelo Núcleo de Aviação da Casa Militar, segundo revelou o Metrópoles. Antes disso, Thiago teria afirmado que usaria a informação de que uma suposta “delegação do Japão” estaria a bordo do helicóptero para facilitar o acesso ao Palácio dos Bandeirantes. A justificativa também chamou atenção da Polícia Civil, que passou a investigar se houve falha de checagem ou eventual conivência de servidores públicos. Polícia apura possível conivência Em trecho do inquérito obtido pelo GLOBO, os investigadores afirmam ser “extremamente grave” que apenas com a informação sobre uma “delegação do Japão” tenha sido possível autorizar o pouso dentro da sede do governo paulista. O documento também destaca a rapidez do processo: as tratativas começaram às 8h58 e a autorização foi concedida às 14h23. “O que resta saber é se as informações dadas acerca dos motivos para pouso da aeronave foram minimamente verificadas”, registra a investigação, que também aponta a necessidade de apurar se houve “conivência de um ou mais servidores públicos que trabalham no Palácio dos Bandeirantes” . Procurado, João Doria não quis comentar o caso. Pessoas próximas ao ex-governador afirmam que autorizações de pouso e decolagem não chegam ao governador e são tratadas pela Casa Militar. Já o Palácio dos Bandeirantes, atualmente sob gestão de Tarcísio de Freitas, informou que o episódio ocorreu em 2022 e “não tem qualquer relação com a atual gestão”, acrescentando que a liberação de pousos segue critérios técnicos e operacionais determinados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O caso faz parte da Operação Contaminatio, deflagrada pela Polícia Civil nesta semana. A ação investiga um esquema de infiltração do PCC em prefeituras para lavar dinheiro do tráfico de drogas e movimentar recursos públicos por meio de contratos, fintechs e estruturas financeiras ligadas a municípios. A ofensiva resultou no bloqueio judicial de mais de R$ 513 milhões em bens e ativos dos investigados.
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