Jornal de Brasília
A terapeuta Rosa Griffel analisa o impacto invisível que compromete a identidade e saúde feminina A maternidade atípica é frequentemente analisada sob a ótica estrita do diagnóstico infantil, negligenciando a saúde mental das progenitoras. Estudos indicam que o impacto emocional nessas mulheres é estrutural, não apenas pontual. Segundo o Journal of Autism and Developmental Disorders , mães de crianças com TEA enfrentam níveis de estresse alarmantes em comparação a outros grupos. No Brasil, estimativas sugerem que mais de 60% sofrem de esgotamento emocional contínuo, evidenciando uma crise silenciosa que demanda intervenção e visibilidade urgente. É necessário transpor a barreira do "cuidado técnico" para enxergar a mulher que sustenta toda a estrutura familiar. Para Rosa Griffel , mãe atípica e terapeuta, a estatística ganha rosto e voz. Ela alerta que o maior perigo não reside no laudo médico, mas no apagamento progressivo da individualidade feminina. Em suas palavras: “o maior risco não é o diagnóstico, é o desaparecimento da mulher” . Segundo Rosa, o acúmulo de demandas práticas, como a gestão de terapias e burocracias com planos de saúde, mascara um sofrimento psíquico que é postergado até tornar-se crônico. A mulher abdica de si mesma em prol da função, tornando-se o suporte de um sistema que raramente oferece suporte a ela. A sobrecarga manifesta-se em três pilares fundamentais: culpa, solidão e perda de identidade. A culpa deixa de ser um sentimento esporádico e passa a ocupar um lugar permanente na rotina, manifestando-se até nos raros momentos de descanso. “ Existe uma crença silenciosa de que, se ela para, está falhando. Como se descansar fosse abandonar” , explica Rosa Griffel. Essa dinâmica gera um isolamento emocional profundo, onde, mesmo cercada por profissionais e familiares, a mãe não se sente verdadeiramente compreendida em sua dor, contribuindo para um quadro de exaustão que compromete sua integridade psíquica. A terapeuta Rosa Griffel Esse cenário de esgotamento transborda inevitavelmente para o núcleo familiar, afetando diretamente a relação conjugal e a harmonia doméstica. A rotina intensa e a carga mental constante forçam o casal a operar em "modo de sobrevivência", onde a conexão afetiva é substituída pela gestão logística. Rosa observa que muitos parceiros deixam de ser um casal para se tornarem gestores de crises. “Falam sobre tudo, menos sobre eles”, afirma a terapeuta. O afastamento emocional progressivo reforça o ciclo de solidão, criando um ambiente onde a funcionalidade da mulher esconde uma exaustão interna devastadora. Diante desse quadro crítico, Rosa Griffel desenvolveu a "Jornada Lapidar" , um método focado na reconstrução emocional e no resgate da essência feminina dentro do contexto atípico. O objetivo não é minimizar a responsabilidade materna, mas permitir que a mulher volte a existir independentemente de sua função de cuidadora. Ao trabalhar pilares como autovalor e a ressignificação da culpa, o método propõe uma mudança de posicionamento interno. Quando a mãe recupera seu equilíbrio e autorregulação, há um reflexo positivo imediato em todo o sistema, otimizando o desenvolvimento do próprio filho e a saúde do lar. Rosa Griffel, mãe atípica e terapeuta, É fundamental compreender que o apoio terapêutico deve ser encarado como parte essencial do protocolo de assistência à criança com deficiência. O cuidado com a saúde mental da mãe não é um luxo secundário, mas uma necessidade técnica e humana. A conformidade com normas de privacidade garante que a jornada dessas mulheres seja tratada com a dignidade que o tema exige. A autoridade neste debate passa pela compreensão de que cuidar de quem cuida é uma estratégia de saúde pública essencial para evitar colapsos sistêmicos. Concluímos que o avanço nos diagnósticos infantis precisa ser acompanhado de um suporte robusto e humanizado às figuras maternas. Como enfatiza Rosa Griffel: “Quando a mãe está inteira, ela cuida melhor. Cuidar da mãe é cuidar de todo o sistema” . A maternidade atípica exige mais que tratamentos e laudos; exige que a sociedade e as instituições olhem para a mulher por trás da função. É imperativo que o cuidado não signifique o fim da identidade feminina, garantindo que essas mães possam, finalmente, voltar a existir para além do diagnóstico de seus filhos.
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