Jornal O Globo
A rua é uma sala de aula. Em Belém, no Pará, o professor de História Michel Pinho reúne quase duas mil pessoas em aulas públicas sob o sol forte. Aqui no Rio, também debaixo de um calor sem piedade, o historiador Luiz Antonio Simas arrasta um séquito de admiradores para o botequim Bode Cheiroso, no Maracanã — “Simas não convida, Simas convoca”, é a frase escutada com frequência. O professor Antônio Edmilson, referência na PUC e na Uerj, há décadas transforma o centro da cidade em ambiente de aprendizagem. O sommelier de boteco ataca novamente Edmilson nunca levou estudantes para cartões-postais óbvios. Seu roteiro passava por vielas maltratadas, esquinas esquecidas e ruas onde a história insiste em sobreviver sem filtro bonito de rede social. Biógrafo de João do Rio e um dos grandes responsáveis por recuperar sua memória, ele sempre soube que o Rio se entende melhor pelos seus desvios do que pelas suas vitrines. As ruas precisam ser tomadas pelo saber. Ao lado dos professores estão os guias, personagens fundamentais para o turismo na cidade. São eles que traduzem nossa cultura, nossos gestos e nossas cicatrizes para quem chega e também para quem sempre esteve aqui, mas nunca parou para olhar direito. Sem eles, o Rio não teria o sucesso turístico que tem. Sem eles, muitos cariocas não conheceriam a própria cidade. Ariel de Souza, do Rio de Segredos, e Marcelo Alexandre, do Revelando a História, conduzem centenas de pessoas pelo Centro. O jornalista Carlinhos Fernandes, o Passeador Carioca, faz isso há anos pela Zona Norte. Na Zona Sul, Rafael Bokor revela fachadas e memórias com o Rio Casas e Prédios Antigos. No Instituto dos Pretos Novos, na Gamboa, guiamentos sobre a Pequena África ganham força com nomes como Val Cândido. Em Santa Cruz, Andressa Lobo mantém viva uma história que a cidade insiste em esquecer. Ou apagar. Já que falei de João do Rio Em “A alma encantadora das ruas”, o cronista nos brinda com esse olhar para a praça. Numa época de ChatGPTs e afins, nada melhor que aproveitar a rua como lugar de encontro e de saberes. Há todas essas figuras que citei e muitas outras que transformam a cidade em espaço de conhecimento. A noite que não existe mais: boates viraram estacionamentos, templos da fé ou clubes Já que falei de Antônio Edmilson Antes de sentar com os alunos para tomar um biricotico no finado 28, no Joia ou no Gomes, nas proximidades do hoje Museu do Amanhã, o professor caminhava pelo Morro da Conceição (nem sonhava ser badalado), pelo Largo da Prainha (antes do Vidal), pela Gamboa e Saúde. Ele atravessava séculos de história marcados pela escravidão, pela resistência negra, pelas religiões de matriz africana e também pela vida boêmia que atualmente atrai cariocas e turistas. Há uns dois anos, já na casa dos 80, vi Edmilson dando aula no Buraco do Lume. A rua é o lugar do encontro. Viva o mestre. Já que estamos por ali... O nome Largo da Prainha faz referência a uma pequena faixa de praia que existia nas proximidades antes das transformações urbanas da cidade. Durante o período escravista, a região era ponto de circulação e comércio de pessoas escravizadas. Próxima dali está a Pedra do Sal, reconhecida como um dos principais redutos do samba, além de espaço histórico de terreiros de candomblé e umbanda e da formação de quilombos urbanos. O Oriente Médio está no Rio, e você nem percebeu Com a abolição da escravidão, em 1888, muitos ex-escravizados encontraram no entorno da Prainha um local de moradia e trabalho. Estivadores, lavadeiras e trabalhadores ligados ao porto passaram a ocupar a região, fortalecendo a identidade popular e negra daquele território. As construções preservadas no entorno, muitas ainda do século XIX, ajudam a contar essa trajetória. No largo também está a estátua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Sua trajetória se tornou símbolo da luta por espaço e reconhecimento para artistas negros na cultura brasileira. Convite Hoje, sexta-feira, às 13h, estarei na Feira das Yabás, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro do Rio, conversando sobre... Rio de Janeiro. De graça.
Go to News Site