Jornal O Globo
Em uma região marcada predominantemente por climas áridos e semiáridos, com alguns dos índices pluviométricos mais baixos do mundo registrados anualmente, os recursos hídricos são uma questão-chave nos territórios palestinos em Gaza e na Cisjordânia. Dois anos e meio após o início da guerra entre Israel e Hamas, organizações internacionais afirmam que o abastecimento tem sido um dos alvos, com um forte impacto sobre a população civil. Estimativa da OMS: Reconstrução do sistema de saúde de Gaza vai custar 10 bilhões de dólares pelos próximos 5 anos Condenação: Itamaraty confirma morte de brasileiros no Líbano após ataque de Israel Um relatório publicado pela Médicos Sem Fronteiras (MSF) na terça-feira acusou Israel de usar a água como arma de guerra, realizando uma “campanha de punição coletiva” contra os palestinos por meio de “privação deliberada de água”, o que classificou como “parte integrante do genocídio perpetrado” pelo governo israelense, alegações rejeitadas por autoridades de Tel Aviv. Já o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) compilou, no fim da semana passada, 60 ataques desde o começo do ano contra instalações de águas e esgotos ligadas ao Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) na Cisjordânia por colonos israelenses, que ganharam respaldo em suas pretensões expansionistas com o governo. Initial plugin text A Coordenador de Atividades Governamentais nos Territórios (Cogat), unidade do Ministério da Defesa de Israel responsável por implementar políticas civis e coordenar operações humanitárias em Gaza e na Cisjordânia rejeitou ainda na terça as conclusões do relatório da MSF, classificando as alegações como "infundadas", acusando a ONG com atuação em cerca de 75 países de "ecoar propaganda do Hamas". Também argumentou que o fornecimento de água em Gaza "consistentemente excede os limiares humanitários", apontando que facilitaria a entrada de mais de 70 mil metros cúbicos de água no território diariamente. "As afirmações de que Israel usa a água como uma 'arma' são factualmente incorretas e ignoram uma verdade simples: a única parte que transforma a ajuda humanitária em arma é o Hamas", disse o órgão em um comunicado compartilhado via redes sociais. "Longe de 'impedir' o acesso, Israel facilita e fornece água de suas próprias fontes". Fontes de água O acesso a fontes de água é um gargalo histórico da região e mudou conforme a dinâmica conflituosa das últimas décadas. Israel controla a maior parte dos recursos hídricos na Cisjordânia desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Em ambos os territórios palestinos, o abastecimento depende de uma rede de dessalinizadores, poços e uma infraestrutura de distribuição intensamente comprometidas por ações militares, ataques de grupos extremistas e o controle de fronteira, segundo organizações que atuam nas duas regiões. Dados da ONU, da União Europeia e do Banco Mundial indicam que Israel destruiu ou danificou quase 90% das infraestruturas de água e saneamento em Gaza, incluindo centrais de dessalinização, poços, tubulações e redes de esgoto. A MSF documentou disparos do Exército israelense contra caminhões-pipa "claramente identificados", segundo o relatório, indicando também que um terço dos pedidos da ONG para transportar unidades de dessalinização, bombas, cloro e outros produtos para tratamento da água, reservatórios, repelentes de insetos ou latrinas "foi rejeitado ou ficou sem resposta". Menino segura garrafas plásticas vazias enquanto espera para buscar água potável em Khan Yunis Bashar Taleb/AFP — As autoridades israelenses sabem que sem água a vida acaba, mas, mesmo assim, destruíram deliberada e sistematicamente a infraestrutura hídrica em Gaza, ao mesmo tempo em que bloqueiam consistentemente a entrada de suprimentos relacionados ao [abastecimento de] água — afirmou Claire San Filippo, coordenadora de emergência de MSF. — Palestinos têm sido feridos e mortos simplesmente por tentarem ter acesso à água. As conclusões do relatório da MSF levam em consideração dados da organização e depoimentos que foram coletados por seus funcionários entre 2024 e 2025 no enclave palestino. Alguns depoimentos foram tornados públicos. — Meu neto estava em Nuseirat, em julho [de 2025]. Ele foi buscar água potável — disse Hanan, uma mulher palestina na Cidade de Gaza ouvida pela ONG. — Ele estava na fila com outras crianças, e eles [as forças israelenses] o mataram. Ele tinha 10 anos... Buscar água não deveria ser perigoso. Colono israelense armado se reúne com outros em um toboágua na vila de Ras Ein al-Auja, na Cisjordânia ocupada por Israel, em 9 de abril de 2026 Ilia Yefimovich/AFP Sob ataque No caso do território palestino mais ao norte, os ataques ao sistema de água foram descritos por agências de ajuda humanitária e organizações de defesa dos direitos humanos como parte de um processo mais amplo de disputa pelo controle da terra — em um contexto em que pretensões expansionistas ganham respaldo do governo israelense. Os ataques de grupos de colonos às estruturas, alguns deles registrados em vídeo por meios palestinos, comprometeram o abastecimento de ao menos 32 comunidades em 2026. "Essas condições continuam a prejudicar o acesso dos palestinos às fontes de água, danificar redes e estruturas de armazenamento e limitar a prestação de serviços, aumentando a dependência de intervenções de curto prazo, como o transporte de água por caminhões-pipa", diz o relatório da OCHA. Initial plugin text A rede americana CNN conversou com testemunhas de um dos ataques, em fevereiro, na estação de tratamento de Ein Samia, a nordeste de Ramallah. As fontes descreveram como homens mascarados invadiram a área e danificaram as tubulações, essenciais para abastecer cerca de 100 mil pessoas. A Polícia de Israel disse que uma investigação foi aberta e está em andamento. O Exército israelense disse que seus soldados são instruídos a interferir em situações como as descritas. — Não se trata de que, se os palestinos receberem mais, os colonos receberão menos. Na verdade, a motivação é: 'queremos expulsar os palestinos, então não queremos que eles tenham o que precisam para sobreviver' — afirmou Aviv Tatarsky, pesquisador da ONG israelense Ir Amim, em entrevista à CNN. — Os confrontos em torno das fontes de água fazem parte de uma luta maior pelo controle da terra. Initial plugin text Pragas e doenças Além do dano direto dos bombardeios e das ações direcionadas à infraestrutura hídrica, a guerra impactou profundamente o acesso à água com o deslocamento forçado de palestinos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) indicou na semana passada que 80% dos cerca de 1,6 mil acampamentos de deslocados pelo conflito registraram infestações de roedores e outras pragas que espalham doenças. A MSF também citou que as condições de vida indignas, em tendas superlotadas e abrigos improvisados, favorece a propagação de doenças, em particular infecções respiratórias, doenças de pele e doenças diarreicas. (Com AFP) Initial plugin text
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