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Redescoberta, Praia da Glória vive efervescência cultural
Jornal O Globo

Redescoberta, Praia da Glória vive efervescência cultural

Impulsionada pela melhora recente da balneabilidade, a Praia da Glória vive uma nova fase e começa a se firmar não só como ponto de mergulho e lazer, mas como um dos endereços mais vibrantes da cena cultural ao ar livre no Rio. A transformação, no entanto, não é repentina. Ela vem sendo construída ao longo de cerca de dois anos, desde que o espaço voltou a ser frequentado com mais intensidade pela população. Conheça as casas: Ipanema reúne um restaurante com estrela Michelin e cinco Bib Gourmand Moda de rua: Aos 132 anos, Ipanema se reafirma como vitrine de comportamento e estilo O ponto de virada foi em 2024, quando a melhora nas condições da água permitiu novamente o banho de mar e inspirou a criação do bloco Glorioso Mergulho. Mais do que um desfile, o gesto de mergulhar ali tinha caráter simbólico: marcar a volta da praia à cidade. A partir dali, o olhar sobre a Praia da Glória mudou, e o que era um trecho pouco frequentado do Parque do Flamengo passou a ser reocupado de forma crescente. De lá para cá, a dinâmica se ampliou. Primeiro vieram encontros informais, aniversários e pequenos grupos. Depois, atividades esportivas e ensaios de blocos. Mais recentemente, uma cena cultural independente começou a se estruturar de forma orgânica, com celebrações que acontecem sobretudo no fim da tarde, aproveitando o pôr do sol. O bloco Glorioso Mergulho, criado em 2024, impulsionou a cena cultural na Praia da Glória Divulgação/Diana Sandes Um dos exemplos mais recentes é o Prainha Jazz, idealizado pelo produtor cultural David Coelho, que realizou sua terceira edição no último domingo e já articula novos encontros. Para ele, o projeto nasce diretamente dessa reocupação do espaço público. — O Prainha Jazz surge quando a gente começa a perceber que a praia voltou a fazer parte do cotidiano. A partir disso, veio a vontade de ocupar esse lugar com música, mas de um jeito diferente, mais leve, mais próximo. A ideia é literalmente um “piquenique dançante” no fim da tarde; um encontro aberto, onde as pessoas chegam, ficam à vontade, dançam, conversam, descobrem sons. Não é sobre palco, é sobre convivência. E isso só faz sentido porque esse espaço voltou a ser vivido — diz o produtor cultural. Ele explica que os encontros funcionam de forma simples e colaborativa, sem estrutura formal: — A gente começa normalmente com uma banda ao vivo, no fim da tarde, e depois o som vai seguindo com DJs, sempre respeitando o ritmo do lugar e das pessoas. É um encontro mesmo, que vai crescendo aos poucos, das 16h às 20h. A estrutura é mínima. A gente conta com quem está ali trabalhando, com os ambulantes, e com a contribuição espontânea do público. Rola o chapéu, as pessoas ajudam como podem, e a gente vai fazendo essa equação para conseguir realizar o próximo. Não tem patrocínio, não tem uma fonte fixa de renda, então é sempre um equilíbrio delicado. Mas ao mesmo tempo isso cria um senso de construção coletiva que é muito forte. Frequentadora da região, a publicitária Juliany Pires acompanha essa transformação desde o início e vê na Praia da Glória uma mudança no comportamento de quem busca lazer na cidade. — Virou um point muito interessante. É um tipo de programa que o carioca estava precisando, ao ar livre, com um visual muito forte, música acontecendo de forma natural, um público diverso. E uma coisa que pesa muito é o horário. Você começa ali no fim da tarde, pega o pôr do sol, curte, encontra os amigos, dança e ainda consegue ir para casa cedo. Isso se encaixa muito na rotina. A balneabilidade foi o que destravou tudo. Antes, não era um lugar tão frequentado. Hoje, praticamente todo fim de semana tem alguma coisa acontecendo. O Prainha Jazz ajudou a levar público e consolidar essa ideia de que ali é um espaço de convivência. A sensação é que a cidade redescobriu a Praia da Glória — afirma. Frequentadora assídua do local, a engenheira ambiental Vivian Vivarini vê nessa transformação um movimento que combina redescoberta urbana e reconexão com a natureza. — Eu comecei a frequentar mais o Aterro na pandemia, buscando um lugar aberto, mais tranquilo, e ali descobri um espaço muito especial. É uma praia em que você tem uma relação muito direta com a natureza, com a água, com os animais. Eu via tartaruga, arraia, uma coisa que a gente não costuma associar à Baía de Guanabara. Aquilo já chamava a atenção antes mesmo dessa ocupação maior. Depois, isso foi crescendo de forma muito orgânica. Começaram aniversários, encontros, blocos ensaiando, e de um tempo para cá virou uma cena cultural. Hoje, tem dias em que você chega e há vários eventos acontecendo ao mesmo tempo. Você anda um pouco e o ambiente muda completamente, como se fossem pequenos palcos espalhados. É uma ocupação muito viva — diz. Para Vivian, o diferencial da Prainha está na configuração do espaço e na paisagem: — É uma das poucas praias da Zona Sul em que você não tem um paredão de prédios atrás. Você tem o Aterro, o verde, uma sensação de respiro. Isso muda completamente a experiência. Você olha para a frente, tem o Pão de Açúcar, o Cristo; olha para trás, tem árvore. Isso faz com que as pessoas queiram ocupar, permanecer. É uma relação com a cidade e com a natureza muito mais próxima. O Forró da Taylor em uma das edições na Praia da Glória Divulgação/Francesca Gernone Sem patrocínio, encontros são colaborativos Se o Prainha Jazz ajudou a consolidar a Praia da Glória como ponto de encontro musical nos fins de tarde, ele é apenas uma das frentes de uma cena que vem se expandindo e diversificando nos últimos meses. Outros encontros, com linguagens e propostas distintas, passaram a ocupar o espaço de forma complementar, reforçando a vocação do local para uma programação espontânea e ao ar livre. É o caso do Forró da Taylor, que já realizou apresentações por lá, misturando música e performance. — A gente já vem ocupando a rua há muitos anos, e chegar na Praia da Glória foi um movimento muito natural, porque é um espaço que as pessoas voltaram a frequentar e que tem uma energia muito própria. As edições que fizemos ali foram muito especiais, com aquele clima de fim de tarde, a paisagem da Baía de Guanabara e as pessoas entrando no ritmo aos poucos, dançando, se encontrando — diz o produtor musical Gabriel Gabriel. Ele ressalta, no entanto, que a continuidade desses encontros depende diretamente da participação do público. — Existe uma dificuldade de as pessoas entenderem que um encontro como esse tem custo. É aberto, é na rua, mas existe estrutura, existe equipe, existe todo um trabalho por trás. Sem apoio de marca ou institucional, a gente depende dessa colaboração espontânea, seja no chapéu, seja consumindo ali. É uma construção coletiva — afirma o produtor. Gabriel adianta que o grupo já prepara novas ocupações para os próximos meses: — A gente está organizando o arraial de junho. A ideia é seguir ocupando, respeitando o espaço e fortalecendo essa cena. Outra vertente que vem ganhando espaço é o Som do Mangue, encontro voltado para ritmos como o carimbó e outras sonoridades do Norte e do Nordeste, que também encontrou na Praia da Glória um ambiente propício para se desenvolver. — O Som do Mangue surge para celebrar as culturas do Norte e Nordeste aqui no Rio, tendo a Baía de Guanabara como cenário e inspiração. A cada encontro, a gente convida dois grupos, geralmente um de carimbó e outro ligado a tradições nordestinas, como maracatu, frevo ou coco, criando um diálogo entre essas expressões. Também temos os DJs Letto e Tha Redig, que fazem essa ponte com uma sonoridade mais contemporânea, misturando cultura popular com outros ritmos — explica Julia Gabriela, idealizadora do Som do Mangue. O Som do Mangue celebra as culturas do Norte e do Nordeste Arquivo/Som do Mangue E o encontro que celebra essas raízes vai além da música e da dança. — É um encontro sensorial. A gente traz também a gastronomia, como o tambaqui na brasa, que remete à pirakaia, esse ato coletivo de assar o peixe na beira da praia com música e cantoria. Tem drinques com ingredientes como cupuaçu e açaí. E tudo isso dialoga com o território. Na cosmovisão dos povos indígenas desana e tukano, do Rio Negro, a Guanabara é um lugar de origem, um espaço sagrado. Existe essa ideia da baía como um grande lago de leite e do Pão de Açúcar como os seios da avó do mundo. Trazer isso para o encontro também é uma forma de reconectar essas histórias com o presente — explica Julia. Na origem dessa ocupação recente está o Glorioso Mergulho, que ajudou a reposicionar simbolicamente a praia e atrair novos públicos para o local. Criado a partir da retomada da balneabilidade, o bloco trouxe de volta a ideia de mergulhar na Praia da Glória como parte da experiência coletiva — algo que, até pouco tempo atrás, não era possível. A partir desse gesto, a praia passou a ser vista não só como paisagem, mas como espaço de uso. Sem calendário fixo, a cena se organiza principalmente pelas redes sociais. Cada grupo divulga seus encontros poucos dias antes, o que faz com que o público precise acompanhar os perfis para saber quando — e se — haverá programação. — Não existe uma agenda fechada. É tudo muito dinâmico, depende de uma série de fatores, inclusive financeiros — resume o produtor David Coelho. Essa informalidade, ao mesmo tempo que garante liberdade criativa, impõe limites. — É sempre uma conta delicada. Se não fecha, a gente precisa dar um intervalo maior até o próximo encontro. Não é uma coisa garantida — diz o produtor. Initial plugin text

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