Jornal O Globo
Com o rompimento da mítica barreira de duas horas, a Maratona de Londres de 2026 marcou o início de uma nova era. Especialistas enxergam na conjunção ideal de fatores tecnológicos, ambientais e científicos a explicação para o domingo passado, 26 de abril, ter se tornado um marco da História da corrida de rua — e também do atletismo. Veja: Maratonista do Quênia que fez história ao correr prova em menos de 2h é recebido com honras presidenciais em retorno ao país natal Só pão com mel no café da manhã: conheça a dieta do queniano que correu maratona em menos de 2h e bateu recorde Uma coisa é dada como certa: se verá cada vez mais atletas correndo abaixo das 2h os 42.195 metros da maratona e expandindo os limites do corpo humano. Foram seis recordes de atletas e paratletas de elite. O Guinness World Records relata 38 títulos de recordes durante o evento, que também foi a maior maratona do mundo, com 59.830 concluintes. Além dos extraordinários tempos das elites, houve ainda uma série de recordes não propriamente de performance, mas que ajudam a transformar a maratona numa festa. — Não há dúvida de que vai aumentar em breve o número de atletas correndo abaixo de 2h. Devido à tecnologia, ao conhecimento, mas também porque, quando uma barreira é vencida, os atletas aprendem como fazer e mais gente se motiva a fazer o mesmo — afirma Enrico Puggina, líder do Grupo de Estudos em Desempenho Físico e Treinamento Esportivo da Escola de Educação Física e Esporte da USP de Ribeirão Preto, apoiado pela Fapesp. O queniano Sabastian Sawe tornou-se o primeiro homem a correr os 42 km de uma maratona oficial abaixo de duas horas, com 1:59:30. Se não bastasse, o etíope Yomif Kejelcha, com 1:59:41, também rompeu a barreira e estabeleceu o recorde de estreia mais rápida da História. Outras Marcas Já a etíope Tigst Assefa quebrou seu próprio recorde mundial para provas exclusivamente femininas e cravou 2:15:41. A distinção é importante, pois provas mistas permitem que as mulheres corram atrás de homens para ritmo e proteção contra o vento, o que ajuda a baixar o tempo. Em Londres, foram recordes ainda os tempos dos atletas cadeirantes Marcel Hug (1:24:13) e Catherine Debrunner (1:38:29), ambos suíços. E também o britânico Richard Whitehead, que correu com cheetas (próteses especiais para corrida), e bateu o próprio tempo para amputados bilaterais de joelho, com 2:40:25. — Recordes desse nível são fruto da combinação de vários fatores. Nem mesmo a extrema capacidade desses atletas — salienta Adriano Lima-Silva, coordenador do Grupo de Pesquisa em Performance Humana da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Agora, para os homens, como declarou Sawe, a meta é correr a 1:58:00, bem perto do 1:57:00, considerado tempo limite teórico da velocidade humana para os 42km. Tempo esse que cientistas do esporte consideram ser, em tese, viável de superar, sobretudo, graças a novas tecnologias. O nível de performance de Londres foi tão extraordinário que, se não fosse ter Sawe e Kejelcha à sua frente, o ugandense Jacob Kiplimo teria o melhor tempo do mundo. Mas ficou em terceiro com 2:00:28. Ele superou o até então recorde do queniano Kevin Kiptum, de 2:00:35, de 2023. Antes dele, o também queniano Eliud Kipchoge havia corrido a 1:59:40, em 2019, mas a marca não foi reconhecida oficialmente porque aconteceu em condições controladas, como auxiliares para bloquear o vento. Temperatura ajudou Um dos fatores cruciais em Londres foi o clima. O frio com céu azul de brigadeiro materializou o paraíso do maratonista, numa cidade ironicamente famosa pelo mau tempo. A temperatura estava em torno de 11ºC nas primeiras duas horas de prova. E 11ºC é exatamente a temperatura ideal para se correr uma maratona, afirma o biometeorologista da Universidade de São Paulo (USP) Fabio Gonçalves. O vento estava fraco (entre 11 a 17 km/h) e soprou de cauda na reta final, auxiliando os atletas. A umidade caiu para níveis baixos, facilitou a evaporação do suor e o resfriamento corporal. — Recordes assim são resultado de muito trabalho e ciência. Mas o tempo conspirou para tudo ser perfeito. Foi uma parte importante do sucesso — afirma Benedito Denadai, coordenador do Laboratório de Avaliação da Performance Humana, da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Rio Claro), apoiado pela Fapesp e especialista em fisiologia do esforço em maratonistas. Denadai, como outros especialistas, destaca que a tecnologia também foi crucial, mas estivesse quente, como em Berlim em 2025, não teria sido possível correr tão bem. As duas tecnologias que se destacam são a dos tênis de placa de carbono e as de suplementação. Toda a elite calçava modelos com placa de carbono. Mas chamou a atenção que Sawe, Kejelcha e Assefa usavam os novos tênis da Adidas projetados só para maratonas, o Adizero Adios Pro Evo 3. O modelo tem previsão de chegada ao Brasil no segundo semestre, com preço na faixa de R$ 4.999. Ele é bem diferente de um tênis de corrida comum. É “arqueado”, com um solado de espuma ultraleve envolvendo uma placa de carbono curva. Pesa só 97 gramas e sua placa coloca o corredor levemente mais inclinado para a frente. Essa posição é mais eficiente e usada pelos melhores atletas, explica Puggina. — Corrida é feita de pequenos saltos e esse tênis é como um trampolim, transfere melhor energia — diz o treinador, ultramaratonista e médico Ricardo Sartorato. Não é para qualquer um, como de resto os demais tênis de placa de carbono. São tênis desenhados para a velocidade. Podem compensar para quem corre 42 km abaixo de 4 horas, observa Lima-Silva. Mas podem ser desconfortáveis para caminhar e correr devagar. A passada de um corredor de longa distância é completamente diferente da marcha de alguém andando. O desenho e os materiais altamente tecnológicos desses tênis aumentam a capacidade elástica da perna para quem já tem boa propulsão. Eles adicionam “uma mola” no pé, disse à Scientific American, Daniel Lieberman, maratonista e estudioso da evolução do movimento da Universidade de Harvard. Estudos mostram que modelos de última geração ajudam os corredores a gastarem de 4% a 6% menos energia por passada. E menos energia consumida significa mais reservas no tanque para correr com maior velocidade. — Essa economia é suficiente para fazer a diferença para um atleta de elite correr abaixo de 2h. E até menos à medida que a tecnologia evolui — destaca Lima-Silva. Alimentação e hidratação Benedito Denadai lembra que o fato de dois atletas terem corrido abaixo de 2h mostra que não foi um fenômeno isolado, mas resultado de anos de preparação com treinamento baseado em novos conhecimentos. Os treinos estão mais intensos (mais de 200 km por semana), mas também com maior cuidado na recuperação e no ganho de força. Além disso, a alimentação e a hidratação dos atletas são muito mais complexas do que as duas fatias de pão com mel e chá que Sawe disse ter comido antes da prova podem sugerir, ressalta a nutricionista Cristiane Perroni. — Esses atletas também preparam a reserva energética. Começam a fazer um esquema de pré-prova uma semana antes — diz Perroni. Na prova, Sawe, por exemplo, tomou 115 gramas de gel de carboidrato por hora, cerca do dobro do que amadores consomem. Usou ainda bicarbonato de sódio revestido com uso de nanotecnologia, para regular o intestino. — Não é doping. Mas também não é alimentação — acrescenta Lima-Silva. Os especialistas dizem são unânimes em dizer que os limites podem não estar na tecnologia, mas no que é considerado doping tecnológico e princípios éticos. Já há regras para uso de placas de carbono, por exemplo. Mas não se sabe se novas regulamentações serão estabelecidas. — Será que teríamos gente correndo abaixo de 2h se não fossem as placas de carbono? Não sei. O avanço tecnológico vai ditar os limites. E o que vai calibrar será a regulamentação da tecnologia —enfatiza Adriano Lima-Silva. 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