Jornal O Globo
Não foi raro Fernanda Vasconcellos terminar as gravações das cenas da novela das nove, “Três Graças” — que entra em sua reta final, com o último capítulo previsto para o dia 15 de maio —, aos prantos. Mãe de Romeo, de 3 anos, do casamento com o empresário e produtor Cássio Reis, a atriz paulista de 41 foi atravessada por sua personagem, a chef de cozinha Samira, uma traficante de bebês. O papel também marca sua volta à dramaturgia após uma década, abordando a temática tanto atual quanto espinhosa na TV aberta. “A Samira sente, mas não demonstra, e isso também acontece comigo. Ao sair de cena, choro, às vezes preciso ficar sozinha, o dia se torna meio esquisito”, conta. “Mas cada vez mais entendo quem ela é e o quanto é diferente de mim. Qualquer pessoa pode ser perversa ou não. E por ter um filho pequeno, o enredo me abalava. Mas o alerta trazido pela trama é muito importante”, continua Fernanda. Fernanda Vasconcellos Mateus Augusto Rubim Vivendo em São Paulo e gravando no Rio, a atriz se planejou para que a rotina de Romeo tivesse o menor impacto possível, mantendo os horários para comer, dormir e tomar banho. Ela passa de três a quatro dias por semana na capital fluminense, e divide com Cássio todas as tarefas. No entanto, dizer “tchau” ao sair de casa ainda é dolorido. “Não é uma tarefa fácil, mas sinto que ele está ficando mais independente. Explico que é meu trabalho contar histórias, Romeo já assistiu a algumas cenas de outras novelas. Agora estou mais forte para ir e vir”, diz ela, que se considera uma mãe superprotetora. “Penso em todos os detalhes: da comida ao banho, tomo cuidado para ele não se machucar, não bater a cabeça na mesa”. Fernanda Vasconcellos Mateus Augusto Rubim Juntos há 14 anos, Fernanda e Cássio se conheceram por amigos em comum, e a atriz destaca não apenas o companheirismo, mas o quanto são parecidos, até mesmo nos defeitos. “Somos os melhores companheiros de viagem um do outro. Temos uma conexão verdadeira e zero midiática, as coisas funcionam de verdade”, afirma. Para o marido, Fernanda é uma mãe “fora da curva”. “É muito bonito ver a entrega dela, sua maturidade como atriz, tenho o maior orgulho. A gente bate uma bola boa na criação do Romeo, fazemos tudo por ele. Ela é uma mãe foda!”. Voltar ao trabalho após a maternidade também mostrou a Fernanda a importância de pisar no freio. Ainda assim, sentiu medo de que os convites para atuar rareassem e cogitou a possibilidade de nunca mais voltar a trabalhar. “Fiquei reclusa, o primeiro ano do bebê é superimportante. Hoje vejo que foi só uma fase. Mas tão profunda... E você se sente desconectada do mundo. Essa reconexão está sendo feita aos poucos. Entendi que ser atriz é parte de quem sou”, relembra. Seu primeiro trabalho pós-nascimento de Romeo foi o espetáculo “Sra Klein”, em 2024, ao lado de Ana Beatriz Nogueira, com quem Fernanda já havia contracenado na novela “A vida da gente” (2011). “Nossos encontros foram lindos. Trabalhar com ela é como estar em céu de brigadeiro: tudo acontece de forma leve, em harmonia. É uma atriz inteligente e muito boa de se conviver. Tem uma dedicação imensa e absoluta”, elogia Ana Beatriz. Fernanda Vasconcellos Mateus Augusto Rubim Após o término desta novela, com cenas que viralizam na web até hoje, do embate entre sua personagem, Ana, com a irmã, Manuela, vivida por Marjorie Estiano, Fernanda decidiu fazer terapia. “Era um texto muito profundo, ‘analisado’, as personagens eram intensas, fiquei com vontade de começar”, explica. Mas o processo só ficou firme mesmo, relembra, após sua participação na série “Coisa mais linda” (2019), da Netflix, e do filme “A cisterna” (2021). “No longa, interpretava uma jornalista sequestrada, e passava muito tempo dentro de um buraco. Minha cabeça deu um nó. Logo depois das filmagens, veio a pandemia.” Para Fernanda, a análise é o que a ajuda a ser quem é e a existir de forma mais livre. “E também a conhecer os meus limites. Entender a diferença entre tristeza e cansaço (risos)”, avalia. “Depois do nascimento do Romeo, tive a clareza de quem eu era como mãe e também de que ele é a criança que está precisando de ajuda para se desenvolver.” Com pouco mais de 20 anos de carreira — seu primeiro papel de destaque foi em “Malhação” (2005) —, Fernanda comenta que, além dos muitos sonhos e desejos, entendeu que ser atriz é a arte de saber esperar. “Após a novela, quero elaborar um novo projeto de teatro com a Ana Beatriz Nogueira. Nesse tempo de profissão, aprendi que ela é inconstante, não temos o controle de nada. Mas sei que ainda tenho um longo caminho pela frente”, finaliza. Fernanda Vasconcellos Mateus Augusto Rubim
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