Jornal O Globo
Nesta segunda-feira, todos os olhos da moda internacional estarão voltados para a escadaria do Metropolitan Museum of Art, em Nova York. O Met Gala — a festa mais badalada do calendário fashion, que arrecada milhões para o Costume Institute do museu — transformará, como todos os anos, a Quinta Avenida num inigualável tapete vermelho. Haverá vídeos viralizados, looks de celebridades dissecados em tempo real, memes inesquecíveis. Mas vale fazer um pequeno desvio e seguir para outra galeria, onde está a mais interessante exposição em cartaz na cidade, até 28 de junho. “Rafael: Poesia Sublime” reúne 237 obras do grande artista renascentista — 140 desenhos, 33 pinturas, tapeçarias, afrescos e um livro de contos que registra o enterro da mãe do artista —, emprestadas por 60 coleções do mundo inteiro, que a curadora Carmen Bambach levou oito anos reunindo, em mais de 12 viagens à Europa. É a primeira grande retrospectiva do jovem mestre nos Estados Unidos, e ela não viajará. Rafael morreu aos 37 anos, em 1520, numa Sexta-feira Santa, o que ajudou seus fãs a considerá-lo ainda mais uma espécie de “messias” da arte. Durante séculos, seu nome foi sinônimo de gênio. Depois veio o século XX, e Rafael virou piegas. Cartão de Natal. Suas Madonas tão serenas passaram a parecer excessivamente doces; seu classicismo, excessivamente acadêmico. A exposição não tenta modernizá-lo. mas reumanizá-lo. Os desenhos preparatórios revelam um Rafael desconhecido: um homem de tentativa e erro, que rabiscava, rasurava, retomava. Em estudos feitos em giz, tinta ou ponta de metal, corpos se ajustam, crianças se movem, composições são desmontadas e refeitas até encontrar equilíbrio. A pintura final, limpa e precisa, esconde esse percurso. Ao lado da vívida Madona de Alba, há um estudo em que a Virgem é, na verdade, um rapaz (provavelmente um assistente do ateliê) posando na postura da Mãe de Deus. Há também o célebre Retrato de Jovem com Unicórnio, que deixa pela primeira vez a Galleria Borghese de Roma. A moça embala no colo um filhote de unicórnio, símbolo de castidade. E há o retrato de La Fornarina (Margherita Luti, a padeira, amante de Rafael), que segura um seio à mostra e usa uma braçadeira de ouro com o nome do pintor. Reza a lenda que Rafael morreu de exaustão por excesso de trabalho. Já Vasari, o fofoqueiro-mor do Renascimento, dizia que ele morreu de excesso de prazer. Exposição Rafael: Poesia Subline Getty Images A mostra muda a leitura de um artista frequentemente associado à perfeição. Rafael surge como alguém profundamente atento ao seu tempo, capaz de absorver influências e organizá-las com clareza. Formado no ambiente refinado de Urbino, ele entende cedo que talento não basta. Aos 17 anos já recebe encomendas próprias. Aos 25, chega a Roma e passa a trabalhar para dois papas. Em poucos anos, constrói uma oficina de grande escala, com assistentes e uma produção intensa. Ao percorrer os corredores, fica evidente como ele operava dentro de um sistema que combinava arte, política e dinheiro. O papa Leão X encomendou ao artista decorações tão caras — as Tapeçarias Sistinas, os aposentos papais, o projeto da Basílica de São Pedro — que, para bancá-las, passou a vender indulgências na Alemanha. Foi contra esse tráfico de perdão que Martinho Lutero afixou suas 95 Teses em Wittenberg, em 1517, examente quando o ateliê de Rafael produzia a todo vapor. A glória da Igreja Católica e a Reforma Protestante, portanto, nasceram do mesmo útero. É tudo sublime e um pouco sinistro, como toda beleza que importa. O mérito desta exposição é justamente devolver a dimensão de construção, de esforço e de inteligência por trás das grandiosas aparências. Em uma semana dominada por imagens instantâneas, trata-se de um convite a outro tipo de atenção.
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