Revista Oeste
Em 20 de abril de 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (em inglês, National Oceanic and Atmospheric Administration — NOAA) dos EUA publicou seu relatório referente aos dados de temperatura superficial do mar (TSM) e de subsuperfície do Oceano Pacífico. Segundo as análises da área tropical, foco principal do monitoramento, há boas chances de o sistema Enso/La Niña ( El Niño-South Oscillation/La Niña ) passar para a fase El Niño no segundo semestre. Por se tratar de um fenômeno oceânico-atmosférico de grandes proporções, espera-se que suas teleconexões interfiram nos regimes de chuvas e perfis de temperatura por vastas áreas do planeta. + Leia mais notícias de Mundo em Oeste Sempre recordamos que o sistema Enso/La Niña é basicamente composto por três fases distintas que envolvem a circulação dos ventos sobre o Oceano Pacífico tropical e áreas adjacentes, além do escoamento das águas superficiais e suas TSM. Ademais, a temperatura da água do mar na região da camada de mistura (primeira camada oceânica de cima para baixo) e um pouco além dela, alcançando entre 100 a 200 metros de profundidade, na termoclina (segunda camada), também se tornam importantes, pois podem indicar o potencial térmico disponível para manterem as temperaturas mais elevadas pelo fluxo de calor, como também um elevado potencial de evaporação e mais emissão de onda longa termal. O relatório trouxe o tradicional estado de “aviso”, indicando que nos aproximamos do estágio final de La Ninã, quando os ventos estão intensos sobre o Pacífico tropical e as águas nessa área centro-leste do oceano ficam mais frias do que seus valores de TSM médios correspondentes para aquelas latitudes. Nesse estágio, a corrente fria de Humboldt que margeia a costa sudoeste da América do Sul ruma com mais intensidade para o centro do Pacífico, logo abaixo da linha do Equador. É nesta fase que temos a intensificação da ressurgência (afloramento de águas frias profundas) na costa oeste sul-americana, proliferando cardumes imensos de peixe e prosperando a pesca. + Paraíba decreta calamidade pública depois de chuvas históricas Como as águas passam a se aquecer pela radiação solar intensa dos trópicos só a partir do meio do Pacífico ao sul do Equador, o escoamento dos ventos para o oeste acaba por concentrar essas águas aquecidas durante o seu percurso na costa leste e nordeste da Austrália e nas adjacências das grandes ilhas entre o Pacífico e o Índico. Esse estágio de La Niña favorece muito mais a formação de nuvens nessa região, provocando chuvas intensas. O desnível do Pacífico pelo acúmulo de águas na área também provoca leve elevação temporária do nível médio do mar, podendo alcançar de 10 a 20 centímetros. Por outro lado, essa fase de La Niña dificulta significativamente algumas atividades na América do Sul, entre elas a agricultura e o abastecimento hidroelétrico, como é o caso do Brasil. A região Sul, por exemplo, esteve bastante prejudicada por anos consecutivos, quando La Niña entrou em seu “mergulho profundo” e o fenômeno perdurou por três anos consecutivos. Isso reduziu drasticamente os totais pluviométricos em vários Estados do Sul e até do Sudeste, tornando as chuvas mais esparsas, ou então, altamente concentradas por eventos meteorológicos com quadros que envolveram células isoladas. Isto deverá mudar nos próximos meses, pois o relatório trouxe o estado de “alerta” para uma possível condição de El Niño. Até o presente momento, do fim de abril até o fim de maio, o relatório informou que as condições de Enso/La Niña permanecerão neutras. Essa fase do sistema é caracterizada quando os ventos alísios sopram de leste para oeste, mas em sua condição normal, não intensificado como no estágio de La Niña. Os dados avaliados por todo o período de abril indicaram que essa condição neutra de Enso/La Niña tem uma probabilidade de 80% de permanecer até junho de 2026. Contudo, as condições oceânicas da região de controle no Pacífico tropical, as chamadas áreas Niño 1+2, 3, 3.4 e 4 estão apresentando variação nas TSM e no perfil em profundidade que indicaram uma sinalização de mudança do quadro. Mapa da localização das regiões El Niño 1+2, 3, 3.4 e 4 estabelecidas pela NOAA no Oceano Pacífico tropical para controle das condições Enso/La Niña; o setor 3.4 particularmente é o mais relevante para estabelecer a fase em que se encontra esse importante fenômeno planetário | Foto: NOAA Na avaliação trimestral seguinte, que envolve os meses de maio a julho, há uma probabilidade de 61% de que o estágio de El Niño passe a reger o sistema. O relatório enfatizou que esta condição poderá perdurar até o final do ano de 2026, com as probabilidades passando de 90% após o trimestre de avaliação de agosto a outubro. Histograma das probabilidades trimestrais simples das fases de Enso/La Niña projetadas até o fim do ano de 2026; embora haja 61% de chances de mudança já no trimestre maio-junho-julho, espera-se que a fase se estabeleça plenamente a partir de julho | Foto: NOAA O prognóstico também se baseou na circulação dos ventos, os quais vêm diminuindo sua intensidade na região centro-leste do Pacífico, indicando uma possível ruptura dos alísios. Essa situação é típica do quadro de El Niño, inclusive com a inversão dos ventos dessa faixa em sentido à costa oeste sul-americana, proporcionando que haja uma entrada maior de umidade do Pacífico. A combinação Pacífico-Atlântico normalmente resulta em uma carga maior de umidade disponível para o Brasil, principalmente na região Sul, proporcionando totais pluviométricos maiores. Com o estabelecimento da condição de El Niño, espera-se que a quantidade de ciclones tropicais no Atlântico seja afetada nesta temporada de 2026. Como os ventos na coluna da troposfera (primeira camada da atmosfera de baixo para cima) podem variar mais no Atlântico tropical causando intenso cisalhamento, há boas chances de o primeiro prognóstico da temporada, que sai agora em maio, levar em conta esse fator, especialmente porque El Niño possivelmente estará na sua fase máxima durante o pico da temporada que ocorre no meio de setembro. Quanto ao Brasil, um país de dimensões continentais, os efeitos do El Niño são diferentes conforme a região e a combinação com outros fenômenos climáticos de grande escala, além dos diferentes quadros meteorológicos. Geralmente, as regiões Norte e Nordeste, em especial essa última, registram totais pluviométricos menores do que a média, apresentando estiagens maiores e até possíveis quadros de seca, se as condições perdurarem por dois anos ou mais, seguindo rigorosamente critérios definidos pela Climatologia Geográfica quanto ao tempo de duração e o tamanho das áreas afetadas. Pode-se esperar redução de cobertura de nuvens, temperaturas mais elevadas e desabastecimento hídrico no sertão nordestino. Para a região Sudeste, o início do ano hidrológico dos Estados de São Paulo e Minas Gerais que ocorrem geralmente entre o fim de agosto e o fim de setembro surgirão quase que concomitantemente com a mudança para a fase de El Niño. Há uma chance de um pequeno atraso do período chuvoso. Contudo, com o passar dos meses, a probabilidade de totais pluviométricos mais elevados é alta, o que proporcionará um carregamento significativo das bacias hidrográficas que abastecem a região com água e eletricidade. + Chuvas deixam 4 mortos na Região Metropolitana do Recife Os Estados do Sul são os que merecem uma atenção redobrada. Como o prognóstico de mudança avança a partir do segundo semestre de 2026, a maior carga de umidade está prevista para atingir RS, SC e PR de agosto até o fim do ano, possivelmente adentrando o primeiro trimestre de 2027. Isso significa que a região, já tão abatida pelos extremos de estiagens de maio de 2000 a maio de 2023 e de abril de 2024 a abril de 2026, intercalada por um El Niño entre junho de 2023 a abril de 2024, quando as maiores tragédias foram registradas no Rio Grande do Sul, precisarão redobrar atenção e esforços. Notemos que não é necessário que o El Niño seja forte, como os eventos de 1998 e 2015-2016, mas basta que haja um gradiente mais intenso pela saída de La Niña que persistiu por anos para que os quadros meteorológicos severos se estabeleçam. Foi exatamente esse o caso de 2024. Na ocasião, alertamos para esse perigo justamente porque na época, o Pacífico saia do “mergulho profundo” de La Niña, citado anteriormente. Juntam-se a isso os outros fatores como a falta de dragagem dos leitos principais das bacias hidrográficas e a má administração fluvial para que o caos se instaure. Leia também: Tragédia no RS: aspectos meteorológicos Quanto às condições meteorológicas e climáticas, a região Sul poderá realizar um planejamento mais efetivo para plantio, colheita e gerenciamento hídrico de barragens para fornecimento de água e eletricidade, sabendo que as condições estão prestes a se concretizarem a partir da metade do ano. Porém, a atenção deve ser redobrada quanto aos quadros meteorológicos específicos que incluem os sistemas frontais. Embora esteja previsto um inverno menos rigoroso, as chuvas oriundas desses sistemas meteorológicos poderão ser um problema se a quantidade de fenômenos for maior ou se prevalecerem condições de frentes estacionárias que podem parar por quatro dias ou mais na faixa que vai de Rondônia à região Sul ou Sudeste, provocando totais pluviométricos bastante elevados. Se por um lado o fenômeno sinaliza o fim dessas estiagens que tanto interferiram nas safras dos agricultores nos últimos anos, provocando perdas significativas por falta de chuvas, além do baixo incentivo governamental para a irrigação mecanizada, por outro, as chuvas em demasia podem se tornar um transtorno civil citadino, se a morosidade das políticas públicas persistir, especialmente as ambientais que tornam o mundo um falso Éden. Desta forma, a conscientização não deve partir das pessoas, mas daqueles que foram escolhidos e servem como funcionários públicos para resolverem os problemas da população, com gerenciamento, inteligência e políticas públicas dignas que ponham as pessoas na sua prioridade máxima. Enso-La/Niña sempre ocorrerão. Cabe a nós nos prepararmos prudentemente, baseados na realidade e não em contos fantasiosos, criando resiliência com criatividade. Será que conseguiremos ou no fim deste ano teremos que elencar mais uma vez os desmandos governamentais frente ao que a natureza nos apresenta? Vamos acompanhar. O post Um novo El Niño em 2026? apareceu primeiro em Revista Oeste .
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