Vogue Brasil
A noite anterior, 1º de maio, de lua cheia, já prenunciava: uma loba estava prestes a uivar alto para toda Copacabana, no Rio de Janeiro. E foi exatamente o que aconteceu. Fui assistir ao show de Shakira na noite do último sábado (02.05) — o terceiro ano do projeto Todo Mundo no Rio — e vi a artista reunir sua alcateia em uma praia tomada por fãs, celebrando sucessos de diferentes fases da carreira e declarando seu amor ao Brasil. A sensação que perdurou durante toda a apresentação era a de que Shakira fazia um verdadeiro show de agradecimento a um país que sempre a acolheu com entusiasmo e que ela, em troca, sempre soube amar e respeitar. Desde sua primeira passagem por aqui, ainda aos 18 anos, existe uma conexão rara entre artista e público brasileiro. Poder assisti-la, a convite da 99, foi testemunhar que ela segue intacta em potência vocal, carisma e presença de palco — e, mais do que isso, confirmar por que se consolidou como uma das maiores e mais relevantes vozes da América Latina. Com sangue caliente e energia impressionante, Shakira atravessou os momentos mais marcantes de sua trajetória. Começou pela fase mais recente, com canções que misturam pop e reggaeton, como La Fuerte, Girl Like Me e Te Felicito, costurando tudo com clássicos como Estoy Aquí — e passando também por sua era mais rock and roll, reverenciando a menina de cabelos pretos e calças de couro que conquistaria o mundo anos depois. Entre os momentos mais icônicos da noite esteve Ojos Así, homenagem às suas raízes árabes, com uma performance intensa e hipnotizante. Os solos de dança do ventre arrancaram gritos do público, especialmente em músicas como Whenever, Wherever e na própria Ojos Así, apresentada em versão mais sensual e com novas batidas. Já Antología trouxe um dos instantes mais íntimos e especiais do show: ela interpreta a letra escrita ainda aos 17 anos e transforma uma praia lotada em algo quase particular. Foi com essa música — e com Pies Descalzos, Sueños Blancos — que ela reverenciou aquela menina que mal sabia o sucesso que a aguardava. Ao longo da noite, surgiu com cerca de dez looks diferentes, todos pensados para valorizar os movimentos de quadril que ela executa como ninguém — afinal, eles não mentem. Entre os figurinos, alguns nomes brasileiros se destacaram: um body dourado assinado pelo designer Victor Hugo Mattos, um look especial para Waka Waka feito pela marca Hisha e, no encerramento, um macacão que remetia às cores do Brasil: verde, azul e amarelo. Meu favorito, porém, foi um vestido com corset em formato de lobo e saia escultural que lembrava ondas do mar, usado durante a emocionante Acróstico, canção dedicada aos filhos Milan e Sasha. Para deixar a festa ainda mais brasileira, Shakira trouxe convidados que deram o tom local à celebração. Cantou a nova parceria com Anitta, incendiando a multidão. Ao lado de Caetano Veloso, relembrou Leãozinho — música que contou cantar para os filhos antes de dormir. Depois vieram O Que É, O Que É?, com Maria Bethânia, e País Tropical, com Ivete Sangalo, transformando Copacabana em uma espécie de Carnaval da Shakira. "Ela é uma loba, e quem convive com ela percebe o quanto ela é uma mulher que transforma a própria vida e a vida de muitas. E eu não falo só através das dores, mas das suas vitórias também," disse Ivete à Vogue antes do show. "O grande barato é a mulher entender as suas potências, que são gigantescas, sem perder jamais o seu lugar de fragilidade, de onde ela tem aquela delicadeza" Shakira tem passado por momentos de transformação nos últimos anos, e deixou isso claro ao conversar com o público durante a noite. Homenageou mães solo, provedoras do lar — como ela mesma disse ser agora — e dedicou o show a mulheres que cuidam dos seus, exercem diferentes papéis todos os dias e demandam força constante, seja no trabalho ou em casa. Também falou sobre como, depois da queda, sempre nos levantamos mais sábias. "É como ter bolhas nos pés em uma festa e seguir dançando." No fim, ficou claro que não era apenas um show. Era encontro, reencontro e celebração. Uma loba uivando para um público que, há décadas, responde no mesmo tom.
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