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Liderança madura: o que o mercado ainda não entendeu sobre mulheres 50+ | Collector
Liderança madura: o que o mercado ainda não entendeu sobre mulheres 50+
Vogue Brasil

Liderança madura: o que o mercado ainda não entendeu sobre mulheres 50+

No Brasil e no mundo, o debate sobre diversidade corporativa avança, mas ainda estamos distantes da equidade: mulheres acima dos 50 anos seguem quase invisíveis nos cargos de liderança. Segundo levantamento da Diversitera, realizado entre junho de 2022 e fevereiro de 2025, apenas 35% dos cargos de alta liderança no Brasil são ocupados por mulheres. Já no empreendedorismo, o cenário é mais promissor: dados do Global Entrepreneurship Monitor, indicam que cerca de um terço das microempreendedoras brasileiras têm mais de 50 anos, reforçando que maturidade e inovação caminham juntas, ainda que invisibilizadas. Essas mulheres desafiam o etarismo e revelam um ponto crucial que o mercado precisa compreender: a maturidade é um ativo estratégico, capaz de gerar resultados, inovação e novos modelos de gestão. “O mercado insiste em subestimar mulheres maduras. Existe uma crença de que inovação só vem dos jovens, quando, na verdade, a experiência nos dá repertório, sabedoria e coragem para fazer diferente”, diz Egnalda Côrtes, 52 anos, CEO da Cortes e Companhia, primeira agência de creators negros da América Latina. A empresária ressalta que a maturidade traz algo que nenhuma juventude entrega: visão ampla, disciplina emocional, sabedoria para encerrar ciclos e começar outros. “Essa mulher não vai competir por atenção ou brigar por espaço. Ela já fez e aconteceu. Já conhece seu potencial, não precisa e nem quer provar nada a ninguém. Ela vai abrir caminhos, multiplicar talentos e gerar legado. Se o mercado não entender isso, não só vai perder inovação, vai perder relevância”, acrescenta. Se no ambiente corporativo, homens aos 50 são vistos em sua melhor fase, para mulheres, a idade ainda é um estigma. A CEO do Grupo Fleury, Jeane Tsutsui, 57 anos, reconhece o peso desse preconceito, mas também o desmonta ao mostrar resultados. Hoje, apenas três mulheres estão à frente de companhias listadas no Ibovespa — um dado que, segundo Jeane, uma delas, escancara o quanto o mercado ainda é refratário a esse tipo de liderança. Para a executiva, empresas que resistem a abrir espaço para líderes maduras saem perdendo. “Os relatórios de consultorias globais mostram: em cenários incertos, diversidade gera flexibilidade, inovação e melhores resultados financeiros. Ignorar isso é desperdiçar capital humano e estratégico”, afirma. Andréa Carvalho, 58 anos, sócia-fundadora e CEO da Papel Semente, empresa de papel artesanal e ecológico, destaca o equívoco que grande parte do mercado vêm cometendo ao não dar a devida atenção ao público maduro. “Nós estamos nos preparando para viver 100, 110 anos. E quem vai ter dinheiro para consumir? Nós! Se as empresas não olharem para essa mulher, não incorporar ela aos negócios, não chamá-la para conversa, será o fim dessa marca. Eu chego aos 110 anos, essa empresa não chega aos 10!” Conselheira na Secretaria de Estado da Mulher no Rio de Janeiro e cofundadora do movimento Hub+ Conselheiras RJ, Andréa acrescenta que a maturidade traz uma nova dimensão de liderança: mais integradora e consciente. “As mulheres 50+ têm um olhar ampliado sobre o todo, uma inteligência emocional afiada e uma capacidade enorme de construir pontes. Liderar, nessa fase da vida, é exercer a potência da escuta, da clareza e da empatia”, afirma. Além da questão de gênero, a mulher ainda luta contra o estigma da menopausa, que atrela o fim da fase reprodutiva ao encerramento de sua vida profissional. “Estou com 58 anos, mas tenho sonhos de 30. Continuo com mil projetos. Abri mais uma empresa que atua em outro nicho do mercado de cosméticos, desenvolvi uma linha focada para a pele madura, transformando minha experiência pessoal em oportunidade empresarial…”, enumera Fernanda Chauvin, farmacêutica e CEO e founder da Ellementti Dermocosméticos. “Sinto que estou no auge do meu desenvolvimento profissional. Hoje tenho muito mais clareza daquilo que quero não apenas para meu negócio, como para minha vida pessoal”, completa. É isso. A verdadeira inovação nasce da combinação de experiência, coragem e visão — elementos que a maturidade traz em abundância. Insights de liderança madura “Experiência, serenidade e visão de futuro são ativos inestimáveis”
 Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury Foto: Divulgação “A liderança madura traz diversidade de repertório e capacidade de lidar com múltiplos caminhos possíveis”, ensina Jeane Tsutsui. A executiva diz que o mercado precisa parar de subestimar líderes maduras e compreender que a longevidade transformou a régua da experiência. “Empresas que não enxergam isso deixam de aproveitar profissionais no auge de sua capacidade de entrega.” Para ela, liderar aos 50+ não é exceção, mas tendência. Trata-se de liderança conectada à propósito, excelência técnica e empatia. “A minha liderança é dura nos resultados, mas suave no olhar para as pessoas”, conclui. “Maturidade é matripotência: capacidade de transformar a energia da maternidade em projetos, legados e negócios”
 Egnalda Côrtes, CEO da Cortes e Companhia, primeira agência de creators negros da América Latina Reprodução Instagram “Há uma crença de que envelhecer é sinônimo de ultrapassado. Isso é um erro estratégico. O mercado só perde quando não entende que a maturidade é uma potência”, afirma Egnalda Côrtes. “Chamo isso de matripotência: a capacidade de transformar a energia da maternidade — biológica ou simbólica — em negócios e legados. Depois que o útero deixa de formar filhos, ele passa a formar projetos. É matrigestão. É potência em estado puro.” E ela não fala apenas de símbolos, fala de números. Egnalda lembra que, segundo projeções demográficas, em 2050, 30% do mercado consumidor será formado por pessoas acima dos 60 anos. “Se uma empresa não estiver de olho nisso, vai perder espaço. Não é favor, é uma conta econômica: não valorizar o trabalho da mulher 50+ é uma escolha que vai sair caro.” “Clareza, coragem com propósito e foco são grandes diferenciais da maturidade”
 Fernanda Chauvin, farmacêutica e CEO e founder da Ellementti Dermocosméticos Foto: Divulgação Para Fernanda Chauvin, um dos maiores equívocos do mercado é tratar as mulheres 50+ como ultrapassadas. “Há uma ideia de que, porque entramos na menopausa, estamos mortas para o mundo. Mas é justamente o contrário. Estamos no auge da carreira”, diz. Maturidade, para ela, significa clareza. “Hoje eu sei exatamente o que quero e o que não quero para o meu negócio. Continuo sonhando como aos 30, mas faço tudo com mais propósito.” Na Ellementti, onde 90% da equipe é formada por mulheres, Fernanda cultiva uma gestão voltada ao humano. “Liderança madura é ser humana. É cobrar quando necessário, mas nunca perder de vista que estamos falando de pessoas. Não se trata apenas de números.” “Liderar aos 50+ é unir legado e reinvenção”
 Andréa Carvalho, sócia-fundadora e CEO da Papel Semente Foto: Divulgação Para Andréa Carvalho, maturidade e inovação são forças complementares. “A liderança 50+ carrega o poder da reinvenção. Depois de tantas experiências, aprendemos a lidar com as mudanças sem medo e com mais sabedoria. Liderar nessa fase é um ato de liberdade — a liberdade de ser quem somos, sem máscaras, e de inspirar outras mulheres a fazerem o mesmo.” Segundo ela, as empresas que reconhecerem esse valor sairão na frente. “A diversidade etária precisa ser vista como parte da estratégia de negócio, não como um favor ou uma pauta de inclusão. Estamos falando sobre visão de futuro.”

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