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Após uma longa temporada em que a moda se voltou para performar bem no feed, o encantamento está de volta | Collector
Após uma longa temporada em que a moda se voltou para performar bem no feed, o encantamento está de volta
Vogue Brasil

Após uma longa temporada em que a moda se voltou para performar bem no feed, o encantamento está de volta

Ao longo dos últimos anos, a moda vinha sendo majoritariamente orientada por uma lógica: performar bem no feed. Isso tirou o foco da roupa com o objeto e a transformou em mídia – tendo no quiet luxury um dos melhores exemplos disso. A tendência de estética limpa e imediatamente reconhecível como elegante estourou ao simplificar os códigos do luxo, tornando-os facilmente replicáveis, comercializáveis e instagramáveis. Com tantas trocas criativas recentes nas grandes maisons, um sinal de mudança parecia inevitável– um novo caminho que chegasse para aquecer um cenário que se tornou previsível. E quem tem liderado um novo movimento são dois dos maiores talentos atuais, Matthieu Blazy e Jonathan Anderson. À frente da Chanel e da Dior, respectivamente, apontam para uma moda menos preocupada com a imagem imediata e mais interessada na experiência de quem a veste. Uma roupa que não se resolve na foto, mas no encontro. Um convite a uma experiência mais íntima, que é revelada através das descobertas que ela propõe. Peças ultraelaboradas, em que o prazer de vestir vale mais do que mil likes. Na Chanel, muitos dos looks dos desfiles de Blazy são formados por quatro ou cinco peças de roupa. Uma jaqueta de tweed se sobrepõe a outra de trama aberta, usada por cima de uma camisa também de tweed – desenvolvidas em diferentes materiais, aviamentos, com forros estampados com diferentes desenhos que se coordenam com a peça usada por baixo. Ao conferir de perto, um conjunto revela um acabamento de silicone aplicado sobre gaze de linho inspirado no trabalho de Jackson Pollock, enquanto outro par de jaqueta e saia tem seu tweed desgastado como se tivesse sido corroído, para um efeito punk. Na Dior, Jonathan também se utiliza da expertise dos ateliês da casa para desenvolver um prêt-à-porter que beira a couture em termos de experimentações e materiais. Uma Bar jacket encurtada é sobreposta a um top com mais de dez camadas de babados; fileiras de botões são totalmente forradas com o mesmo tecido de sua calça ou jaqueta; e cascatas de babados têm a extremidade de cada um deles completamente bordada. O que sentimos ao colocar uma roupa hoje? No nosso imediatismo, provavelmente pouco. Ou quase nada. O corpo quer sentir de novo. Textura, peso, forma, toque, olhar, surpresa. A ideia de uma experiência mais rica entre corpo e produto pode ser essa nova camada. “É uma roupa que precisa ser vista de perto e você vai descobrindo pequenos segredos aos poucos. São peças com informações muito especiais, que quem estiver olhando pela internet naturalmente não conseguirá perceber”, diz Rita Lazzarotti, diretora de moda da Vogue Brasil. E esse pensamento da moda como um parque de diversões — os brinquedos sendo os bordados, botões, penduricalhos, camadas, mix de cores, tramas e texturas — resgatou, como Rita disse, o tesão da moda. “Fazia tempo que não sentia um frisson no ar. Estávamos em um momento mais pasteurizado e morno, mas agora parece que a alegria de fazer moda voltou.” A era do encantamento Acielle/Style du Monde (Dior) e Divulgação No mercado do luxo, essa roupa mais sensorial e especial também traz uma maior percepção de valor atrelada a ela. Ao contrário de itens mais reconhecíveis, como os monogramados, a força dessas peças está na construção, no processo e na experiência. O luxo não é mais apenas sobre preço, logo e status imediato, ele precisa justificar sua existência de outra forma. “A própria experiência de ter uma roupa mais elaborada é uma espécie de exclusividade voltada especialmente para quem está vestindo”, diz João Braga, professor, autor e palestrante especialista em história da moda. Revistas Newsletter O ponto de fricção dessa nova lógica é que você não captura a peça logo na primeira olhada; você precisa estar ali, degustando aquela beleza. É um baita antídoto a este momento em que a moda segue previsível, legível e rápida. É a volta do belo, do inusitado e da celebração do trabalho manual. Diferente do logotipo que democratiza a leitura, ou do quiet luxury, que popularizou um código visual, essa nova moda não é escalada com facilidade, nem facilmente reproduzível ou até mesmo reconhecível (por enquanto). Ela é mais restrita, complexa, intelectual. Essas roupas exigem tempo, técnica, pesquisa, material e mão de obra superespecializada. Possivelmente, o valor dessa tendência nascente não esteja apenas em quem pode consumi-la, mas no que ela sinaliza: um convite para que a moda, em todos os níveis, volte a tratar a roupa como uma experiência em si, e não apenas como imagem. Enquanto que, para a maior parte das marcas, será impossível abraçar essa complexidade, talvez seja possível absorver o espírito. Introduzir pequenas surpresas e momentos de descoberta e encontrar um lugar mais inventivo para existir, olhando a roupa como um objeto poderoso, pode ser um caminho do meio. Nem tudo que importa pode ser visto de longe. “Parte da realidade da moda é encontrar novas possibilidades de se diferenciar e se distanciar do que já está aí. Enquanto existir uma cabeça que pensa e um ser humano criativo, as novas respostas sempre virão”, finaliza João Braga.

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