Revista Oeste
* Por Wesley Reis O ano é 2022 e o então candidato à Presidência da República pelo Partido dos Trabalhadores (PT) grava um vídeo, em tom de indignação e olhar sério para a câmera, defendendo a necessidade de reduzir a taxa de juros no Brasil e enfrentar o endividamento de cerca de 70 milhões de famílias. Avancemos pouco mais de três anos no tempo e veremos hoje o mesmo demiurgo petista, às vésperas de iniciarmos um novo ciclo eleitoral, novamente pregando o combate ao superendividamento dos brasileiros e a redução da taxa de juros. + Lula: ‘É muito bom que o povo tenha capacidade de se endividar’ No entanto, as condições impostas ao petista se mostram bastante diferentes em relação ao pleito anterior. Lula da Silva hoje é o presidente e, portanto, candidato incumbente à reeleição. Ora, o que ocorreu, de 2022 para cá, com sua então promessa de campanha? Ao olharmos para o Lula de hoje, para além dos implacáveis sinais do tempo que batem à porta de seus quase 81 anos, é compreensível que o presidente se mostre irritadiço diante do não cumprimento de uma de suas promessas de campanha (alguém mencionou a picanha e a cervejinha?), o que, por sua vez, vem impactando os índices de aprovação de seu governo. Duas pesquisas recentes corroboram a percepção sentida no bolso, no dia a dia da população, sobretudo a de menor renda. Afinal, de 2022 a 2026, não apenas a taxa básica de juros aumentou, como também se elevou o nível de endividamento das famílias. Segundo a pesquisa Meio/Ideia, aproximadamente 70% dos brasileiros registraram piora na percepção sobre o custo de vida, sendo que 30% afirmam que aumentou muito. Já de acordo com a pesquisa Genial/Quaest, para 50% dos brasileiros, a economia piorou muito nos últimos 12 meses, enquanto apenas 21% perceberam alguma melhora. São números expressivos que dialogam com os dados mais recentes sobre o endividamento dos brasileiros. + Desenrola fracassa, e Brasil bate recorde de 82 milhões de endividados A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que o porcentual de famílias endividadas atingiu um recorde, chegando a 80% em 2026. Em termos comparativos, em 2022, no período pós-pandemia, esse porcentual era de aproximadamente 77%. No que tange ao endividamento das pessoas físicas, dados recentes do Serasa indicam que 81,3 milhões de brasileiros estão endividados, representando cerca de 50% da população adulta do país, número que vem crescendo mês a mês, de forma constante, desde dezembro de 2024. Essa série de dados e pesquisas pode parecer, à primeira vista, algo etéreo. Lula e o ministro da Fazenda, Dário Durigan - 04/05/2026 | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil No entanto, para quem tem pouca ou nenhuma sobra de renda ao final do mês, esses números são bastante concretos. E, para um candidato à reeleição à Presidência, o são ainda mais. Quando se trata de Lula, do PT e de seu entorno político, a responsabilidade pelas mazelas tende a ser atribuída a terceiros. Em declarações públicas, o presidente frequentemente critica o Banco Central, que, felizmente, possui autonomia, em razão do elevado patamar da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 14,75%. Contudo, omite fatores centrais para esse cenário, como a expansão dos gastos públicos e os estímulos recorrentes ao crédito. O governo federal, como exímio ente gastador, tem buscado, por diferentes meios, estimular comportamento semelhante por parte da população, cujas consequências já começam a se refletir nos indicadores. O expansionismo forçado resulta em uma demanda artificial que acaba por gerar pressão inflacionária. Como consequência, o Banco Central precisa atuar de forma firme na condução da política monetária, mantendo juros elevados por mais tempo, o que implica, naturalmente, em maiores dificuldades no rolamento das dívidas. + Leia mais notícias de Economia em Oeste Outro alvo recorrente do presidente são as casas de apostas on-line, as chamadas bets , que, segundo ele, estariam contribuindo para o desequilíbrio financeiro das famílias. Em entrevista recente, Lula afirmou que, se dependesse dele, esse mercado seria fechado. Tal posicionamento sugere não apenas a busca por um novo responsável pelo problema, mas também expõe a sua faceta autoritária ao propor a restrição de um segmento que opera de forma legal e regulada, além de gerar receitas tributárias relevantes para o Estado. Como medida prática para enfrentar o elevado nível de endividamento, o governo federal lança, sob coordenação do Ministério da Fazenda, uma espécie de “Desenrola 2.0”. O programa original, lançado em 2023 e encerrado em 2024, tinha como objetivo facilitar a renegociação de dívidas de pessoas físicas, buscando reduzir a inadimplência e reativar o consumo. Por meio de uma plataforma digital, os devedores podiam acessar ofertas com descontos concedidos pelos credores. De fato, durante sua vigência, houve uma leve redução do endividamento bruto. No entanto, à luz dos dados atuais, o programa parece ter tido efeito predominantemente paliativo. Tal característica não é isolada, mas recorrente nas ações do governo ao longo dos últimos anos: diante de problemas estruturais, opta-se por soluções de curto prazo, orientadas pelo imediatismo e, muitas vezes, sensíveis ao humor das pesquisas de opinião. Essas medidas não atacam as causas profundas do problema e acabam gerando custos futuros ainda maiores, anulando os efeitos iniciais e ampliando o desequilíbrio econômico, uma dinâmica típica de “bola de neve”. + Lula lança Desenrola 2.0 e enfrenta críticas sobre uso do FGTS Nesse contexto, é sintomático que o governo recorra à reformulação de um programa que não solucionou de forma estrutural a questão do endividamento. Uma alternativa mais consistente exigiria compromisso com responsabilidade fiscal, controle efetivo dos gastos públicos e aumento da eficiência da máquina estatal. Esse caminho permitiria maior estabilidade da dívida pública, contribuindo para a redução gradual da taxa de juros e para a construção de um crescimento econômico mais sustentável, com menor nível de endividamento das famílias. Em vez disso, o governo insiste em revisitar políticas antigas, sem apresentar soluções estruturais novas, deixando a população, já pressionada por múltiplas dificuldades, com mais um ônus ao final de cada mês Wesley Reis é economista com especialização em engenharia de produção, trabalha com relações institucionais e governamentais e é diretor do IFL-RJ . O post Do discurso à realidade: o avanço do endividamento sob Lula 3 apareceu primeiro em Revista Oeste .
Go to News Site