Revista Oeste
Depois de o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Phillipe Vieira de Mello Filho, ter se assumido publicamente como um “juiz vermelho” , ele tentou dar uma explicação na sessão da Corte desta segunda-feira, 4. Ele disse que o termo juízes “azuis e vermelhos” foi cunhado pelo colega Ives Gandra Filho ao dizer — em uma palestra em um curso voltado para advogados que atuam no TST — que há duas correntes de juízes na Justiça do Trabalho: uma pró-trabalhador, ativista e intervencionista, e outra mais legalista, liberal e pró-empresa. + Entenda o que é Política em Oeste Gandra Filho, na mesma sessão do TST, confirmou suas declarações acerca da teoria de duas correntes antagônicas na Corte — os vermelhos e os azuis — e se desculpou por eventuais ofensas, mas reafirmou que, no TST, há dois tipos de entendimento sobre o Direito do trabalho. O discurso de Vieira de Mello Filho e a réplica de Gandra Filho Presidente do TST, Vieira de Mello Filho, durante sessão do TST - 04/05/2026 | Foto: Reprodução/YouTube No discurso feito na sessão desta segunda, Vieira de Mello Filho disse que “ninguém tem o direito de me acusar de ser ativista ou não ser” e, depois de ter se enquadrado com um juiz vermelho, disse que não é parcial. “É por isso que eu me manifesto expressamente para que toda a população saiba: não sou um juiz parcial. Eu tenho 40 anos de história como magistrado e eu sei o que a comunidade jurídica pensa a meu respeito. Podem não gostar de uma coisa ou outra, mas sabem que eu sempre decido com a técnica e com a minha maneira de interpretar a Constituição e as leis do país, especialmente a CLT, um diploma aberto.” Mais à frente, ele admitiu a posição ativista. "Eu serei o que quiserem que eu seja, desde que eu defenda a Justiça do Trabalho, desde que eu defenda o Direito do trabalho, porque esse país é desigual, essas pessoas que trabalham precisam de proteção", declarou. "E é isso que eu vou fazer até o final do meu mandato." Ministro Ives Gandra Filho - 04/05/2026 | Foto: Reprodução/YouTube Logo depois da manifestação do presidente do TSE, Gandra Filho disse que usou a expressão "azuis e vermelhos" durante palestra para descrever ministros "liberais e intervencionistas" ou "legalistas e ativistas". "Depois da primeira aula que dei nesse curso, disseram: 'Puxa, mas essa expressão divide colegas entre cores'. Se isso é ofensivo, deixo de fazer. Mas a realidade não pode ser escondida, e qual é a realidade? Que há divisão interna no Tribunal em relação a ver o direito do trabalho de uma forma ou de outra. É como eu busquei colocar no curso. Há ministros que têm uma visão mais liberal e há ministros que têm uma visão mais intervencionista", declarou. "Há turmas que são mais liberais, há turmas que são mais intervencionistas ou mais protecionistas ou mais ativistas ou mais legalistas. Então essa realidade não é possível esconder." Ele também externou sua posição mais legalista e menos protecionista, em oposição ao presidente da Corte. "A CLT foi fundada sobre dois princípios, o da proteção e o da subsidiariedade", declarou. "E a intervenção do Estado no domínio econômico, é sempre subsidiária." Ou seja, disse ele, "aquilo que as partes puderem fazer diretamente para promover o bem dos seus integrantes, como um sindicato ou uma empresa, não cabe ao Estado-juiz ou Estado legislador intervir. Agora, quando há efetivo desequilíbrio, nós temos a intervenção através do princípio da proteção." Porém, para ele, muitas vezes, a Justiça do Trabalho decide mais com base no princípio da proteção. "O que eu sinto, muitas vezes, principalmente na SDC, é que há um número muito elevado de processos e de acordos e convenções coletivas que são anulados com base no princípio da proteção", disse, referindo-se à Seção Especializada em Dissídios Coletivos. "Nós temos que aplicar o princípio da subsidiariedade muito, muito mais. Ou seja, se as próprias partes percebem que aquilo que é melhor para elas, onde o sapato aperta, nós deveríamos intervir menos. Então, essa é uma realidade. Nós vivemos essa realidade. agora escondê-la ou eh “Guiados por interesses” Na fala que desencadeou a crise entre os membros do tribunal, Vieira de Mello afirmou que os "azuis" atuariam guiados por "interesses". Gandra comentou essa declaração. Segundo ele, ministros da Corte se sentiram ofendidos pela acusação implícita do presidente. https://twitter.com/mauad_joao/status/2050945354175008792 Ele afirmou: “Sua Excelência, quando falou de causa e interesse, fez um juízo moral. Em que sentido? Acusa, como se aqui eu estivesse defendendo valores, e vocês que fazem parte de um determinado grupo estariam defendendo interesses ou vendendo sentenças, defendendo os interesses do capital. Ficou uma coisa que foi ofensiva a vários colegas", disse Gandra. Críticas ao curso para advogados A aula ministrada por Gandra, na qual primeiro utilizou a expressão juízes "vermelhos e azuis", integrou um curso coordenado pelo ministro do TST Guilherme Caputo Bastos, informou o Estadão . O evento, com a participação de membros da Corte, tinha como objetivo ensinar advogados a litigar na mais alta instância da Justiça do Trabalho. O presidente do TST condenou a iniciativa e disse observar um conflito ético, já que as mensalidades são de alto custo. "Como presidente do tribunal, eu não poderia ficar omisso diante de cursos de como advogar nesta Corte. Se isso não é um conflito ético, não sei mais o que seria. Com inscrição de advogados a custo alto e aqueles que não podiam pagar o custo, como ficam? Eu disse, por favor, não façam, porque não vou ficar omisso", comentou Vieira de Mello. Depois de se declarar “vermelho”, presidente do TST se diz, agora, “cor de rosa”, O presidente do TST reconheceu que há divergências no tribunal, mas que, diferentemente do apontado por Gandra, o teor das disputas teria mudado. "Esse tribunal é plural. Sempre teve divergências internas. Só que as divergências eram construídas com ideias, com argumentos, não com rótulos. Só quero deixar claro para a comunidade jurídica e o país que não fui eu quem dividiu entre azuis e vermelhos. Sem nenhum preconceito, eu sou cor de rosa. Estou misturando o azul com vermelho". Em resposta, Gandra afirmou ter visto diversas entrevistas de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) reclamando de supostas violações de jurisprudência pelo TST. Como mostrou o Estadão , houve uma escalada nos últimos anos de reclamações trabalhistas apresentadas por empresários ao STF para reformar decisões do TST que teriam ido contra o que determina o Supremo. "O que nós não podemos dizer é o seguinte: quem faz qualquer autocrítica, quem discorda da visão que eu tenho da Justiça do Trabalho, está indo contra o direito do trabalho. Eu também gostaria de ser respeitado neste sentido", finalizou Gandra, ao que Vieira de Mello respondeu: “Vossa excelência que estabeleceu a dicotomia (entre azuis e vermelhos)”. Aparentemente, porém, ele reconheceu a dicotomia ao se declarar “vermelho”. https://www.youtube.com/watch?v=Y6FvYYKJquQ Sessão do TST em 04/05/2026 O embate foi finalizado com um discurso da ministra Cristina Peduzzi, que classificou o episódio como “bate-boca” e criticou o presidente da Corte por sua conduta. “Não vejo nenhuma atitude democrática em um bate-boca como esse que se travou, porque se tiver que responder pelos atos praticados, cada um fará por si. Não vejo nenhuma necessidade de repreender colegas”, declarou. Redação Oeste , com informações do Estadão Conteúdo O post O que são os juízes ‘vermelhos e azuis’ no TST apareceu primeiro em Revista Oeste .
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