Collector
Vivi para contar: ‘Comecei a questionar Deus’, diz esposa de policial morto pelo PCC em 2006 | Collector
Vivi para contar: ‘Comecei a questionar Deus’, diz esposa de policial morto pelo PCC em 2006
Jornal O Globo

Vivi para contar: ‘Comecei a questionar Deus’, diz esposa de policial morto pelo PCC em 2006

A assistente social Maria Luiza Gonçalo Reis, de 53 anos, ligava todas as noites para o marido no horário de descanso do bico que ele fazia para complementar a renda da família. De dia, Isaías Lopes Viana Júnior era policial militar; à noite, tinha um segundo trabalho, como segurança de um restaurante no Centro de São Paulo. Em 12 de maio de 2006, ele não atendeu. Justamente no dia do aniversário da Maria Luiza. Naquela sexta-feira, o PCC começou a onda de atentados que ficou conhecida como os ataques de maio de 2006. Júnior foi um dos 59 agentes de segurança assassinados pela facção. Segue o relato de Maria Luiza: "Conheci o Isaías num bar na Artur Alvim, na Zona Leste de São Paulo. Nós ficamos só no flerte a noite toda. A partir daquele dia, a gente não se largou mais. PCC, O Salve Geral: O GLOBO e CBN lançam podcast sobre atentados de maio de 2006 Ele já era policial. Em 2004, era da Força Tática da PM. A gente tinha dois filhos, o Jean e a Jennifer, e estávamos morando em dois cômodos na casa da minha mãe. Nosso desejo era ter mais dois filhos e a nossa casa própria. Mas, naquele ano, meu marido foi diagnosticado com esclerose múltipla. Foi um baque para toda a família. Ele acabou afastado da Tática, do trabalho na rua, por causa da esclerose. E foi mandado para um cargo mais administrativo. Isso acabou com o psicológico dele e interrompeu nossos planos por um tempo. Precisou de um tempo, mas as coisas aos poucos foram voltando ao normal. Fomos conhecer nossa casinha nova. As nossas famílias foram com a gente. Nossos filhos iam ter um quintal, um espaço para brincar. Ia ter também um espaço para fazer uma churrasqueira. A gente já imaginava a casa cheia, as festas, as reuniões de família. Começamos a reformar a casa. Em 2006, meu marido estava de licença na PM, por conta do tratamento da esclerose. Enquanto isso, ele fazia bico como segurança em um restaurante no Centro. O plano era se demitir da polícia e ficar nesse trabalho de segurança até a reforma acabar. Na sexta-feira, dia 12 de maio, nós iríamos assinar a documentação da casa e pegar a chave. Era exatamente o dia do meu aniversário. Ele tentou pedir folga no restaurante para comemorar comigo e me dar a chave de presente. Mas ele não conseguiu faltar, e também tinha um documento errado do imóvel. Só ia dar para pegar a chave na semana seguinte. Só que nada disso aconteceu. Porque aquela sexta-feira foi o dia da partida do meu esposo. Ele sempre saía para jantar no trabalho às 23h. Então, era sagrado: ele comia por meia hora e, às 23h30, ele me ligava e a gente ficava conversando por mais meia hora antes de ele voltar para o trabalho. Mas, naquele dia, o telefone não tocou. Eu não conseguia falar com ele. Tentei ligar, falar no batalhão, mas a nossa conversa não existiu. Então, coloquei as crianças para dormir e fui dormir. Acordei de madrugada, mas ele ainda não tinha chegado. De manhã, ainda não estava lá. Eu tentava me tranquilizar, porque já tinha havido outras situações em que ele chegou só no dia seguinte porque tinha coisas para resolver no Centro ou no próprio Batalhão da PM. Já saía direto do restaurante para esses compromissos. Mas quando foi 10h30, minha mãe veio até minha porta e me deu a notícia. ‘Olha, o Isaías morreu’. Eu não acreditei. Achei que fosse mentira. Mandei minha mãe calar a boca. Mas aí meu pai veio e confirmou o que minha mãe estava falando. Foi o pior dia da minha vida. Os colegas do Isaías na polícia me contaram como foi. Ele estava com os funcionários do restaurante jantando, quando quatro jovens armados chegaram no lugar. Renderam todo mundo. Queriam o documento de todo mundo porque sabiam que ali trabalhava um policial. Foram batendo em cada um, até que meu marido deu um passo para frente e se entregou. Os quatro levaram o Isaías para um estacionamento do outro lado da rua e executaram meu marido. Quando me contaram, meu coração fechou de uma forma, que eu comecei a questionar até Deus. Por que meu marido morreu daquele jeito brutal? Mas a coisa mais difícil foi ter que contar para os meus filhos. Toda vez que eu olho para os meus filhos é isso que eu vejo. Esse dia, essa dor, essa perda. Eu tive que acordar a minha filha, a Jennifer, com a notícia. Como você faz uma coisa dessas? Ela não aceitava, achava que era um pesadelo. O Jean, que é o mais novo, só ficava repetindo que não ia mais ver o pai, que não tinha mais pai. É uma dor que você não consegue arrancar da pessoa. Até hoje a gente não sabe quem foi. As investigações só diziam que era ligado ao PCC. Foi delegado ao PCC. E como você vai processar o PCC? Não tem como. A gente chegou a receber uma indenização do Estado, porque o meu marido morreu em função da profissão. Mas vou ser muito sincera com você, o mesmo que eu falo para os meus filhos: esse dinheiro vem e você não consegue fazer nada, porque veio de uma fatalidade. Em vez desse dinheiro todo, eu queria que o governo tivesse protegido meu marido." (*Em depoimento a Aline Ribeiro e Helen Menezes, da CBN)

Go to News Site