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Quando Aline Barnsdall pediu a Frank Lloyd Wright uma casa-jardim, estava encomendando, na verdade, uma ideia. Herdeira do petróleo, ativista e figura central da cena cultural de Los Angeles no início do século 20, imaginava naquele terreno uma espécie de utopia: residências, teatro, espaços de criação e convivência. Hollyhock House, a casa que levava o nome de sua flor favorita, seria o núcleo. “A Hollyhock House nasce desse encontro intenso entre Wright e Aline Barnsdall. Uma visão artística ambiciosa, moldada tanto pela afinidade quanto pela tensão”, afirma Abbey Chamberlain Brach, diretora e curadora da propriedade californiana. O projeto nunca se concretizou como previsto. Divergências financeiras e artísticas, atrasos e uma construção mais complexa do que o imaginado transformaram a obra em um processo conturbado. Três anos depois, em 1921, quando ficou pronto, o edifício era extremamente radical e pouco prático. Claramente não correspondia ao que Barnsdall esperava. Em pouco tempo, chuvas, inundações e preocupações com terremotos fizeram com que ela abandonasse a ideia de construir uma comunidade e se mudasse para uma das duas residências secundárias construídas ali – onde viveu pelo resto da vida. Sala de jantar da Hollyhock Paul Cozzi, cortesia do Los Angeles Department of Cultural Affairs A propriedade principal ela doou à cidade de Los Angeles, garantindo, sem saber, sua permanência como obra pública. Marco inaugural da arquitetura moderna na Califórnia, Hollyhock House é hoje Patrimônio Mundial da Unesco, além de uma das casas mais emblemáticas da Cidade dos Anjos. Instalada no alto de uma colina, a primeira obra de Wright na região se apresenta primeiro como um volume compacto de concreto, marcado por frisos geométricos e relevos que capturam a luz de maneira teatral. São planos que avançam e recuam, superfícies que absorvem o sol, sombras que desenham profundidade. Não há ornamento supérfluo. Cada detalhe parece integrado à estrutura, como se a decoração fosse intrínseca ao edifício. Vista da instalação Entanglements: Louise Bonnet e Adam Silverman na Hollyhock House, 2023 Joshua White, cortesia da Galerie Max Hetzler e do Los Angeles Department of Cultural Affairs O acesso não é direto. Caminha-se até um ponto em que o interior se torna visível, sem se mostrar por completo. Essa construção de percurso é central na obra de Wright, que entende imóveis como sequências de experiências. Lá dentro, a escala muda. Corredores alongados conduzem o olhar, comprimindo a passagem antes de expandi-la em áreas mais abertas. A sensação é de fluxo constante. Os ambientes se conectam por meio de passagens que se afunilam e depois se abrem, criando um ritmo que orienta sem impor o trajeto. Organizada em torno de uma lareira monumental que combina pedra, água e luz, a sala de estar funciona como eixo simbólico. Disposta da parte de cima do cômodo, uma claraboia controla a entrada de luz natural, criando um jogo de iluminação que varia ao longo do dia. Nesse contexto, o objeto deixa de ser apenas funcional e se torna elemento ritualístico, funcionando como ponto de convergência entre natureza e arquitetura. Ikebana por Kitajima Group em Flores para Aline: Uma Exibição por Sogetsu Ikebana Los Angeles Branch, 2024 Alex DelaPena, cortesia do Los Angeles Department of Cultural Affairs As janelas também não funcionam como simples aberturas. Muitas são compostas por vitrais geométricos que projetam padrões nos cômodos, criando uma atmosfera mutável. Em vez de enquadrar a paisagem, elas a fragmentam e transformam a experiência em quase mística. O diálogo com o exterior é permanente. Terraços se projetam a partir dos ambientes internos, pérgulas criam zonas de transição, e pátios funcionam como espaços intermediários, onde a casa respira. Incorporados ao imóvel, sol, vento e a variação de temperatura típicos do clima californiano influenciam diretamente na forma como o espaço é vivido. Elemento dos mais marcantes, o motivo da hollyhock – flor conhecida no Brasil como malva-rosa – está em toda parte. Nos frisos de concreto, nos vitrais, nos móveis e em detalhes estruturais, criando uma linguagem visual contínua e um sistema de repetição que dá unidade aos ambientes. Quase inteiramente desenhado pelo próprio Wright, o mobiliário reforça essa ideia. Cadeiras, mesas e luminárias não são acessórios. Tudo pertence ao mesmo sistema, responde à mesma lógica. Nascido em 1867, no interior de Wisconsin, centro-oeste dos Estados Unidos, Frank Lloyd Wright construiu uma carreira de sete décadas que o transformou em referência da arquitetura moderna nos EUA e fora dele. Com mais de mil projetos concebidos em seu tempo de vida, dos quais cerca de 500 foram realizados, o arquiteto estadunidense redefiniu continuamente sua linguagem. Ainda jovem, em Chicago, trabalhou ao lado de Louis Sullivan, de quem herdou a ideia de que a forma deveria seguir a função, princípio que expandiria ao longo da vida. Foi a partir daí que desenvolveu o chamado estilo Prairie (Escola da Pradaria). Considerado o primeiro movimento arquitetônico genuinamente americano, baseava-se em casas horizontais, de planta aberta, que se estendiam pela paisagem. Ao longo da carreira, incorporou influências diversas, do repertório japonês às referências pré-colombianas, sempre com o objetivo de criar uma linguagem própria, capaz de responder ao lugar, ao clima e à experiência do morador. Sua chamada “arquitetura orgânica” propunha que os edifícios não fossem objetos isolados, mas extensões do ambiente e da vida cotidiana. Linhas horizontais, plantas abertas, integração com o entorno e o desenho de cada detalhe, do mobiliário às janelas, fazem parte de um sistema coerente, em que arquitetura, paisagem e utilidade se articulam como uma única coisa. Wright não queria resolver funções, mas construir atmosferas e modos de viver. Ao longo do tempo, essa abordagem lhe garantiu reconhecimento internacional e consolidou sua obra como uma das mais decisivas do século 20, influenciando gerações de arquitetos e a própria ideia de casa moderna. Mais de seis décadas após sua morte, seu legado segue ativo, preservado pela Frank Lloyd Wright Foundation e continuamente reativado por novas leituras de sua obra. E a casa mais emblemática de Los Angeles permanece como uma ideia em construção. “Mais de um século depois, a Hollyhock House segue reescrevendo sua ‘Romanza da Califórnia’, como um centro vivo de arte e criação”, pontua Brach. @hollyhockhouse *
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