Vogue Brasil
Karol Maia cresceu no Jardim Helena, no extremo leste de São Paulo, e passou parte da infância nas casas onde sua mãe, Miriam, trabalhava como empregada doméstica. Esse detalhe biográfico poderia ter ficado só nisso. Em vez disso, virou um projeto de quase uma década e, nesta semana, chegou aos cinemas brasileiros como Aqui Não Entra Luz, seu primeiro longa-metragem e um dos documentários mais premiados do cinema nacional recente. Em 2025, o filme ganhou Melhor Direção no Festival de Brasília e foi selecionado para o IDFA, em Amsterdã, antes de aportar no circuito comercial com distribuição da Embaúba Filmes. O que ele carrega tem a ver com uma pergunta que o Brasil prefere não fazer: o que significa, em 2026, ainda construir apartamentos com quarto de empregada? A pesquisa começou em 2017 como investigação arquitetônica, mapeando a continuidade física entre senzala e o cômodo dos fundos que aparece na planta de muitos imóveis brasileiros. "Meu primeiro interesse na realização desse filme foi a arquitetura, de fato", disse ela, com exclusividade, à Vogue Brasil. Só que o projeto foi mudando de forma à medida que as histórias das mulheres que habitaram esses espaços foram tomando o lugar da análise espacial. "Foi muito natural que a arquitetura perdesse esse espaço dentro do que eu planejei, porque as histórias das trabalhadoras domésticas, por si só, já dão conta de provar o que eu estava buscando com a minha tese na época. Que era mostrar o quanto o projeto do 'quarto de empregada' é sim uma extensão da senzala e o quanto o Brasil não pensa sobre isso, não questiona isso, não tenciona esse debate." A arquitetura ficou, mas dividiu espaço com quem a habitou. No filme, são cinco mulheres, cada uma num estado diferente: Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Não por acaso. "Quando eu esbocei o projeto em 2017, isso era uma diretriz que eu tive desde o início. Eu sabia que eu não queria fazer o filme em um só estado. Eu encontrei o dado de que esses eram os estados que mais receberam mão de obra escravizada, e esse dado me guiou durante a gravação." São elas: Cristiane Graciano, Marcelina Martins, Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, Matildes Santos Pereira e Miriam Mendes, a mãe da própria diretora. Chegar até essas mulheres levou tempo e exigiu uma postura que Maia foi construindo de forma deliberada. Ela viajava com suas pesquisadoras, Isabella Santos e Suzane Jardim, conhecia as entrevistadas com antecedência, e, quando as câmeras estavam ligadas, abria mão do distanciamento que a posição de diretora poderia garantir. "Eu entendia que seria importante que eu contasse um pouco de mim para elas e falasse da minha mãe. Então, antes de eu começar propriamente a entrevista, eu dava um contexto do que eu estava fazendo, por onde eu já tinha passado. E eu me colocava no lugar de filha também, então acho que tem um tom descontraído na conversa porque eu era diretora, mas por vezes eu também me colocava como uma possível filha delas, uma vez que eu estava em busca da minha mãe, em cada uma delas." O que essas mulheres carregam, individualmente, é parte de uma estrutura que o Brasil mantém em funcionamento há séculos. O trabalho doméstico no país é exercido majoritariamente por mulheres negras e está enraizado em questões de raça, gênero e classe de forma simultânea. Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE, compilados pelo DIEESE em 2025, são cerca de 5,9 milhões de trabalhadores domésticos no Brasil, 91,9% deles mulheres, e 68,5% delas negras. E os apartamentos continuam sendo construídos com aquele cômodo nos fundos, menor que todos os outros, sem janela para a rua. Essa busca está no centro do documentário, e ela é explícita. Karol Maia não finge que Aqui Não Entra Luz é um filme sobre o outro. É um filme sobre ela também, e sobre Miriam, e sobre os dois lados de uma relação que a diretora decidiu colocar em cena, com a própria voz - uma decisão que levou anos para se consolidar. Ela começou a testar offs em 2020, quando a montagem teve início, mas a narração não encontrou forma. "Não era a prioridade que a minha voz estivesse em primeiro plano, não era uma necessidade narrativa para mim na época." Só em 2024, retomando a montagem, ela entendeu o que aquela voz precisava fazer - estar ao mesmo tempo no lugar das memórias de filha e das notas de pesquisadora. "Eu sempre soube que eu queria ter a minha voz durante as interações, tanto que eu filmei microfonada. Mas eu não tinha desenhado enquanto narração." Karol Maia Divulgação/Cristiano Rolemberg Miriam aparece no final do doc. Não estava nos planos desde o início. Quando Maia a convidou para participar, a mãe recusou. A recusa não foi um obstáculo. Foi, na leitura da diretora, o sinal de que ela mesma também precisava entrar no projeto. "Eu entendo que quando eu percebi que eu precisava que ela participasse, foi quando eu entendi que eu também precisava participar, e que a nossa história seria concluída uma vez que o meu ponto de vista e o dela estivessem dentro do filme." A cena foi gravada numa única diária, tensa dos dois lados. "Nós estávamos as duas nervosas e apreensivas." E é nesse encontro que Maia entrega à mãe algo que raramente se oferece num documentário, que é a última palavra. Miriam decide quando a obra termina. "Fiquei anos buscando a voz dela, e ter a voz dela no final, para mim, é simbólico." Antes de chegar ao Brasil, o documentário passou pelo IDFA. O olhar europeu sobre o quartinho de empregada foi, segundo a diretora, de puro estranhamento. "Para eles, era um lugar mesmo de curiosidade, porque lá o trabalho doméstico não é dado como é aqui", explica ela, referenciando como, na Europa, ter empregada doméstica morando na casa não é uma prática comum. No dia 12 de maio, o documentário segue para a França, para o Festival Internacional Jean Roché, numa estreia que Maia aguarda com a mesma curiosidade que o público. Quando questionada sobre o título, Karol revela que isso nunca mudou. Desde o primeiro edital em que o projeto foi inscrito, já era Aqui Não Entra Luz. "Eu queria um nome que soasse em primeira pessoa", conta. "Como se qualquer pessoa pudesse trazer para si essa afirmação. Mas essa 'qualquer pessoa' era uma trabalhadora doméstica." A imagem que ela tinha em mente era a de uma carta. Alguém escrevendo para alguém e dizendo, no meio do texto, o que faltava no lugar onde estava. "Acho que foi a única coisa do filme que eu nunca tive nenhuma dúvida, dentro desse processo angustiante que é criar o título." 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